sexta-feira, 7 de julho de 2017

Empresário oferece-se para plantar 30 mil árvores em Pedrógão Grande



Foto: Rui Oliveira/Global Imagens


Um empresário de Castelo Branco ligado à silvicultura disponibilizou-se para oferecer árvores e efetuar a respetiva plantação em Pedrógão Grande, a título gratuito, com o objetivo de atingir as 30 mil árvores.

"O objetivo passa pela integração de 20 a 30 mil árvores folhosas sem custos e plantadas no terreno", disse hoje à agência Lusa, José Gameiro, ainda a propósito do incêndio que começou naquele concelho e que provocou a morte a 64 pessoas, além de mais de 200 feridos.

O empresário da Silvapor já encetou contactos com empresas francesas ligadas ao setor, que demonstraram "vontade de fazer algo" pela região de Pedrógão Grande, sobretudo ao nível da reflorestação do concelho.

"Há a possibilidade de ter árvores de floresta para plantar, sendo que serão oferecidas e plantadas", explicou.

O empresário aproveitou hoje a presença em Pedrógão Grande para iniciar contactos formais com o município local, através do vice-presidente José Antunes Graça, a quem transmitiu a ideia, sendo que irá, brevemente, fazer o mesmo com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC).

O desafio está lançado, sendo que agora é preciso concertar com as entidades responsáveis o trabalho de planeamento.

Comando único? Ministros da Agricultura e Administração Interna em desacordo


Ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, Capoulas Santos 

Capoulas Santos diz que governo quer "atacar vícios de gestão e ordenamento" florestais e admite "comando único". Constança Urbano de Sousa já tinha recusado a ideia

O Governo do PS pretende, com a denominada "Reforma da Floresta", tomar medidas para "atacar os vícios da gestão e ordenamento" e admite a constituição de um "comando único de prevenção e combate" a fogos, segundo o ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Florestas.

A posição manifestada por Luís Capoulas Santos esta quarta-feira, em resposta a desafios de vários deputados de diferentes partidos, é contrária à expressa no mês passado pela Ministra da Administração Interna.

Em resposta ao Público, Constança Urbano de Sousa rejeitou a recomendação do parlamento para que seja criado um comando único.


"A opção política é a manutenção dos três pilares do Sistema Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios em termos de coordenação", disse a ministra, no final de junho.

Os três pilares são "a prevenção estrutural", pelo Instituto da Conservação da natureza e das Florestas, "a prevenção operacional", feita pela GNR, e "o combate", por parte da Autoridade Nacional de Proteção Civil.

Ao ser ouvido no Grupo de Trabalho Sobre a Reforma da Floresta (GTSRF) da Comissão Parlamentar de Agricultura e Mar, Capoulas Santos disse que "todos gostaríamos de uma outra estrutura dedicada à floresta".

O ministro pediu que eventuais propostas de outras forças partidárias fossem "quantificadas", de forma a poder ser analisado o seu cabimento orçamental e os meios humanos e materiais necessários.

Capoulas Santos destacou as iniciativas previstas já para este ano de "aumentar em 50 os vigilantes da natureza", assim como "20 equipas de sapadores florestais" e definiu como objetivo do executivo socialista "atacar dois vícios fundamentais: a gestão e o ordenamento" florestais.

"Este pacote legislativo foi elaborado por um grupo de oito ministros, dada a horizontalidade das questões e apenas dois são da responsabilidade do Ministério da Agricultura" (regime de arborização e banco e fundo de monitorização de terras)", ressalvou.

Pela oposição, além da sugestão de uma entidade única de conservação da floresta e de proteção contra fogos, o social-democrata Luís Pedro Pimentel e a democrata-cristã Patrícia Fonseca acusaram Governo, PS, BE e PCP de quererem "discutir e legislar à pressa" e de terem um "pacto antieucalipto", numa atitude de "diabolização" daquela espécie florestal.

"Quem anda à pressa, por dever e missão, é o INEM e não o Governo. Houve oportunidade de discutir o que importa. Há uma necessidade imperiosa de a floresta ter um choque de gestão", defendeu o socialista Francisco Rocha, também admitindo a hipótese de "compatibilizar" as várias entidades envolvidas na matéria.

O deputado bloquista Carlos Matias questionou a possibilidade de encerrar este processo [legislativo] até 19 de julho, coincidindo com o fim da sessão legislativa, enquanto o comunista João Ramos defendeu que a Assembleia da República "deve legislar bem e com eficácia e a pressa não pode interromper a qualidade legislativa".

"A floresta portuguesa arde tanto porque protegê-la não é o objetivo do Estado, há muitos anos. Quando for prioridade, deixa de arder", afirmou o deputado único do PAN, que também questionou o ministro sobre uma futura "unidade única", que "trabalhe todo o ano" e culpou "todos os últimos governos", os quais preferiram "o desenvolvimento de indústrias altamente impactantes e poluentes como as celuloses".

Capoulas Santos disse que "a pressa e o calendário do Governo foi o que foi decidido" e "o calendário do parlamento é da responsabilidade do parlamento". "Há muita legislação que não é possível ser fiscalizada totalmente. Todos adoraríamos um país em que todas as leis fossem cumpridas, com as prisões vazias, sem a necessidade de ter um sistema judicial", declarou.

Segundo o relatório provisório Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), hoje divulgado, os incêndios florestais consumiram 61.624 hectares nos primeiros seis meses do ano e 2017 foi considerado o ano com maior área ardida desde 2007 e o quinto ano com mais ocorrências desde essa data, comparando com os períodos homólogos.

O ICNF aponta Leiria como o distrito mais afetado no que diz respeito à área ardida, com 25.100 hectares, cerca de 41% da área total, seguido de Coimbra, com 18.408 hectares (30% no total).

O incêndio que provocou maior área ardida no distrito de Leiria foi o registado em Pedrógão Grande, que consumiu 20.072 hectares de espaços florestais (80% do total ardido no distrito) e causou 64 mortos e mais de duzentos feridos.

"Ébola das oliveiras" chega a Espanha e deixa autoridades alarmadas

Bactéria propaga-se rapidamente e destrói culturas inteiras

As autoridades espanholas estão preocupadas com a rápida propagação de uma bactéria que mata oliveiras e outras árvores de fruto. A bactéria xylella fastidiosa foi detetada no sul da Itália em 2013 e em quatro anos arruinou culturas inteiras, ganhando a alcunha de "ébola das oliveiras". Os agricultores italianos dizem não saber o que fazer.

Em outubro do ano passado a bactéria chegou à ilha espanhola de Maiorca. Desde então, e embora as autoridades espanholas tenham dito várias vezes que a situação estava controlada e que as árvores infetadas estavam isoladas, a bactéria já foi detetada em várias cidades e ilhas espanholas.

A xylella fastidiosa ataca com grande virulência o café e as árvores como a oliveira, a amendoeira, a videira, a ameixoeira, o pessegueiro, a laranjeira e o limoeiro, segundo o El Confidencial. Quando infeta uma árvore, a bactéria impede a circulação da seiva. As folhas murcham, os galhos secam e a planta acaba por morrer asfixiada.

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Até ao momento não há remédio para a praga que tem provocado prejuízos económicos na ordem dos milhões de euros. Há cerca de 300 espécies de árvores em perigo, e consequentemente, milhares de empregos.

Há até 360 vetores ou agentes de transmissão desta bactéria e a maioria são insetos, como os mosquitos. O protocolo exige que, caso a bactéria seja detetada numa área, toda a vida vegetal num diâmetro de 100 metros deve ser destruída.

Segundo o ministério da Agricultura espanhol, o país vizinho tem cerca de 2,5 milhões de hectares de oliveiras e este setor fatura cerca de 1800 milhões de euros por ano. Espanha tem ainda 150 mil hectares de amendoeiras que rendem cerca de 60 milhões de euros e culturas de citrinos que faturaram em 2015 1982 milhões de euros.

A bactéria está na Península, mas por agora está isolada

Só no município de Guadalest, província de Alicante, foram erradicados 7,5 hectares de vegetação, segundo o secretário-geral da União de Agricultores e Fazendeiros da Comunidade Valenciana, Ramón Mampel.

"É muito preocupante mas não podemos ser alarmistas", disse Juan Luis Ávila, secretário-geral da Coordenador das Organizações de Agricultores e Pecuaristas no município de Xaém, na Andaluzia. "Não podemos pensar que a oliveira vai desaparecer amanhã da Andaluzia".

60% das culturas de azeitona localizam-se em Andaluzia.

Se se confirmar esta realidade, teremos que focar-nos em conviver com ela porque não há solução

"O primordial é evitar que a bactéria chegue às oliveiras, mas se se confirmar esta realidade, teremos que focar-nos em conviver com ela porque não há solução. Aprender a controlá-la como fazem na Califórnia há um século", continuou Luis Ávila.

"Não quero nem pensar no dia em que se detete uma azeitona infetada e digam ao agricultor que tem de arrancar três hectares [de árvores] ao redor", lamentou o coordenador.

domingo, 2 de julho de 2017

Há indícios fortes de que um downburst tornou o incêndio avassalador

Relatório do Instituto Português do Mar e da Atmosfera mostra imagens de radar da nuvem de fumo do incêndio de Pedrógão Grande a avançar até à estrada onde morreram 47 pessoas. Imagens revelam também como o incêndio foi intensificado em dois momentos, vistos como provas de um downburst perto.
 Teresa Firmino

TERESA FIRMINO 2 de Julho de 2017, 7:00 Partilhar notícia


Na tarde de 17 de Junho, o dia do incêndio de Pedrógão Grande, o centro de Portugal foi sucessivamente atingido por vários fenómenos de downbursts — uma corrente de ar gerada por nuvens que chega até ao chão, onde em seguida se espalha em todas as direcções e provoca ventos fortes. O downburst não é um fenómeno raro, tal como os incêndios no país, como constatamos sempre que chega a estação quente. O que foi tão extraordinário naquela tarde foi a conjugação entre um downburst e um incêndio.

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Há provas de que um dos downbursts atingiu o incêndio que já tinha começado no concelho de Pedrógão Grande, uma coincidência nunca antes registada no país. Por causa dessa corrente de ar descendente extremamente forte, o incêndio foi oxigenado e empurrado pelo vento. Espalhou-se a grande velocidade — quase triplicando de dimensão — e chegou à estrada nacional onde morreram 47 das 64 pessoas que perderam a vida nesta tragédia.


Esta é uma das conclusões do relatório do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) sobre as condições meteorológicas que terão influenciado o incêndio de Pedrógão Grande, entregue na última sexta-feira ao primeiro-ministro. Dois dias depois do início do incêndio, António Costa perguntou ao IPMA se houve condições meteorológicas que tivessem favorecido a propagação do fogo (também fez perguntas à GNR e à Autoridade Nacional de Protecção Civil, ou ANPC). Pouco depois, o presidente do IPMA, Miguel Miranda, respondeu-lhe numa carta, dizendo que as previsões meteorológicas bateram certo, dentro das margens de erro expectáveis, com os valores de temperatura e humidade que foram depois registados (33,3 graus Celsius e uma humidade de 20%). E que os avisos emitidos estavam de acordo com as regras fixadas entre o IPMA e a ANPC, incluindo risco de incêndio florestal "muito elevado" para a zona de Pedrógão Grande.

Já nessa carta se levantava a possibilidade — então só uma hipótese — de que um downburst teria acelerado a propagação do incêndio e que teria tido um papel importante na tragédia na EN 236-1, que não foi cortada ao trânsito. O IPMA avançou depois para um relatório técnico e científico pormenorizado, e é essa tese que agora ganha força. "O relatório é um trabalho exaustivo: a análise de todos os dados do IPMA permite ter uma primeira resposta a algumas das questões levantadas por toda a gente, que têm a ver com o desencadeamento do fogo de Pedrógão Grande e as condições meteorológicas que condicionaram a sua evolução", refere Miguel Miranda, acrescentando que o relatório tem elementos para todas as equipas que queiram fazer uma reanálise.

Imagens impressionantes
Há um conjunto de imagens dramáticas neste relatório. Foram obtidas pelo radar meteorológico de Coruche a 17 de Junho, a partir das 19h20. Estão reproduzidas por ordem cronológica na galeria que abre este artigo. Temos de olhar para elas como um corte vertical entre vários quilómetros de altura até cerca de mil metros. E o que vemos é a nuvem de fumo e materiais (uma pluma) lançados para a atmosfera pelo incêndio. A pluma que o incêndio está a criar num determinado momento está assinalada por uma seta vermelha, que aponta para uma área a verde mais claro. Vemos ainda que Vila Facaia (VF) e a EN 236-1 (EN) estão identificadas.

O que a sequência de imagens de radar conta é o seguinte: às 19h20, a pluma que está a ser gerada pelo incêndio encontra-se muito antes de Vila Facaia e da EN 236-1, entre Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra. Mas às 20h10 está a chegar perto da estrada nacional e às 20h20/20h30 está a passar por ela. Às 20h50, começa a deixá-la. E às 21h fica já para trás a estrada onde morreram 47 pessoas cujos carros ficaram aí aprisionados pelo fogo ou que fugiram de povoações próximas.

PÚBLICO -Foto
A estrada nacional 236-1, fotografada no dia a seguir ao início do incêndio ADRIANO MIRANDA
Além de trazer outras provas para as horas a que esta tragédia chegou à estrada nacional, esta sequência de imagens revela ainda que o incêndio teve duas amplificações. Ou seja, alguma coisa o intensificou. Até às 19h20, a pluma do incêndio — que tinha começado às 14h43 perto da aldeia de Escalos Fundeiros, no concelho de Pedrógão Grande, e que a meio da tarde já ardia com intensidade — andou entre os níveis baixos da atmosfera e os cinco quilómetros de altitude. Foi por volta das 19h20/19h30 que começou a sua primeira amplificação, que atingiu o auge pelas 19h50/20h. A esta última hora, vemos que o "verde" da pluma alcançou uma grande extensão vertical — 13 quilómetros. Como se viu antes nas imagens, foi sensivelmente a essa hora (20h10) que o incêndio estava a chegar à estrada nacional. A segunda amplificação teve o seu máximo às 20h40, chegando aos 14 quilómetros de altitude.

Portanto, houve uma grande intensificação das chamas entre as 19h20 e as 20h40. Nesse período de menos de uma hora e meia, os materiais lançados pelo incêndio atingiram maiores altitudes na atmosfera, o que significa que o incêndio ganhou muita força. A sua pluma passou dos cinco quilómetros de altitude para os 14, quase triplicando assim a sua dimensão.

PÚBLICO - Aumentar
O IPMA considera que o que terá estado na origem desta amplificação terá sido um downburst, fenómeno que pode ser confundido com um tornado. Mas enquanto os ventos de um tornado giram à volta de um ponto central, movendo-se para cima e para baixo, num downburst a corrente de ar move-se em direcção à superfície terrestre e, quando a atinge ou chega a algumas centenas de metros acima da superfície, dispara em todas as direcções (de forma radial) a partir desse ponto. A essas rajadas muito fortes que seguem em todas as direcções chama-se "escoamento horizontal divergente", ou "outflow convectivo". Geralmente, os downbursts e os seus outflows convectivos têm origem em nuvens cúmulo-nimbos, aquelas nuvens de grande desenvolvimento vertical que anunciam chuva ou trovoada.

Na tarde de 17 de Junho, o radar de Coruche observou vários downbursts que atingiram o Alto Alentejo e a região Centro do país e que, na generalidade dos casos, tiveram apenas consequências locais. Nas imagens de radar há pelo menos a assinatura de três downbursts, visíveis através dos tais escoamentos horizontais divergentes. Quando o ar que vem de cima se encontra com o ar que está mais abaixo, essa convergência produz as chamadas "frentes de rajada", que são mais ou menos concêntricas — tal como as ondas concêntricas originadas por uma pedra atirada para um lago.

Na zona do incêndio de Pedrógão Grande, os dados de radar sugerem que também ocorreu aí um downburst — uma ou talvez até duas vezes. As provas para estes dois casos são distintas. Por cima da freguesia de Cardigos (no norte do concelho de Mação, relativamente perto de Pedrógão Grande), nas imagens de radar a assinatura das frentes de rajada não é identificável. Ainda assim, os dados de radar permitem concluir que se gerou sobre a zona de Cardigos um downburst por volta 19h06. E pelas 19h26 de 17 de Junho, refere o relatório, "observou-se uma nova assinatura deste mais recente downburst, associado à perturbação convectiva-mãe [a nuvem cúmulo-nimbo que o originou], que se propagava para Oeste".

Afinal, como começou o incêndio?
Afinal, como começou o incêndio?
Este quarto downburst era de grandes dimensões: "Este fenómeno deve ser classificado como um macroburst, em virtude de se tratar de um downburst que afecta uma área envolvente a uma escala superior a quatro quilómetros, relativamente ao ponto de geração", explica o relatório.

Às 19h36, diz ainda o relatório, o radar estimou a velocidade do vento do escoamento divergente criado por este grande downburst: um pouco a sul de Cardigos, a cerca de 350 metros acima do solo, o vento atingiu 117 quilómetros por hora, o valor mais elevado. Não é descartada a possibilidade de nos níveis inferiores da atmosfera o vento ter atingido velocidades ainda superiores (devido à dinâmica própria de um downburst e à interacção do seu escoamento horizontal divergente quer com a orografia da região, quer com a dinâmica do incêndio numa área próxima).

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Ora, o downburst de Cardigos surge identificado (por volta das 19h06) um pouco antes da primeira intensificação do incêndio (por volta das 19h20). Cardigos e Pedrógão Grande estão relativamente próximos, embora ainda fiquem em linha recta a cerca de 35 quilómetros de distância. Mas ou foi o resultado do downburst de Cardigos — o seu escoamento horizontal divergente — que chegou ao incêndio de Pedrógão Grande e o amplificou; ou, então, houve um outro downburst perto do incêndio que o intensificou — mas que não foi identificado por radar.

O certo é que os efeitos deste último downburst ou do de Cardigos são visíveis na pluma do incêndio, essa sim bem identificada nas imagens do radar. As provas são indirectas, mas a intensificação do incêndio é considerada como um indício forte de que este fenómeno atingiu o incêndio. "A interacção entre a célula convectiva [a nuvem cúmulo-nimbo] e o fogo levou a uma amplificação da propagação da pluma do fogo, com efeitos grandes de dimensão", resume Miguel Miranda.

Essa amplificação, lê-se por sua vez na síntese do relatório, deve ser "o resultado de escoamento horizontal divergente que se propagou sobre a região do incêndio de Pedrógão Grande", acrescentando-se: "Podemos concluir que a interacção entre o escoamento divergente gerado pelas células convectivas e o incêndio iniciado conduziu a uma grande amplificação da pluma, em termos de extensão vertical e velocidade de propagação, não susceptível de previsão por modelos numéricos de previsão do tempo, e criando condições excepcionais de propagação no terreno."

Governo espera concluir em Julho negociações para exportação de carne de suíno para a China

"O potencial do mercado chinês é tal que poderia absorver toda a produção nacional", disse o presidente da Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores.

LUSA 22 de Junho de 2017, 21:36 Partilhar notícia


O secretário de Estado da Agricultura disse esta quinta-feira, no Cartaxo, esperar que o processo negocial com a China para a abertura do "fluxo de exportações" para aquele país possa ficar "fechado" no início de Julho.

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Luís Vieira, que anunciou a vinda a Portugal de uma delegação de "alto nível da China" no início de Julho, falava na abertura do oitavo Congresso Nacional de Suinicultura, que a Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores (FPAS) promove quinta e sexta-feira no Cartaxo, com o lançamento da nova marca de certificação porco.pt em destaque.

A declaração aconteceu depois de o presidente da FPAS, Vítor Menino, ter afirmado que, apesar do anúncio da abertura do mercado chinês, o facto é que ainda ninguém conseguiu exportar para esse país.

"A abertura iminente deste mercado representa um novo fôlego para a suinicultura nacional", afirmou, pedindo que se concretize "a breve trecho", dada "a natureza estratégica deste mercado para o sector".

Sublinhando que este é um objectivo perseguido "há mais de duas décadas", Vítor Menino afirmou que "as estimativas de importações chinesas de carne de porco" apontam para as 2,3 mil toneladas em 2017.

"O potencial do mercado chinês é tal que poderia absorver toda a produção nacional", disse, ressalvando, contudo, que, sendo este mercado "extremamente relevante", não é o único, havendo "muito por fazer na exportação de carne de porco para outros mercados asiáticos e da América Latina", alternativas que darão "maior poder negocial" ao sector.

O presidente da FPAS declarou ainda que a exportação "é também um caminho cada vez menos estranho aos produtores de raças autóctones", que contribuem para a "manutenção e promoção deste património genético", num "verdadeiro serviço público prestado ao país", realçando os "produtos de excelência produzidos a partir do porco alentejano, do bísaro e do malhado de Alcobaça".

O secretário de Estado da Agricultura e Alimentação reafirmou que as exportações e a internacionalização são "estratégicas" para o Governo, sublinhando que os processos negociais são "complexos e morosos", pois exigem uma actuação de "continuidade, a nível técnico, político e diplomático".

Elogiando o "bom trabalho" do anterior Governo nesta matéria, Luís Vieira afirmou que, em 2016, foram abertos os mercados do Chile, Colômbia, Marrocos e Panamá para a carne fresca congelada e para produtos à base de carne de suíno, estando actualmente em curso negociações para a abertura dos mercados da China, da Coreia do Sul, da Costa Rica, da Índia, do México, do Vietname e do Peru.

Além das negociações com a República Popular da China, continua o diálogo com a Federação Russa para que, "assim que termine o embargo, se retomem as exportações nacionais" para aquele país, acrescentou.

Luís Vieira afirmou que um dos temas em debate no congresso, as doenças que afectam os suínos, é um dos factores que afecta a conclusão dos processos negociais.

"Se Portugal não conseguir aprovar na União Europeia um programa de erradicação e não melhorar a sua situação sanitária face à doença de Aujeszky, as consequências serão significativas para toda fileira suinícola", disse, acrescentando que o Governo criou uma comissão de acompanhamento para a monitorização do plano nacional de controlo da doença.

Mais de 400 profissionais do sector, entre produtores suinícolas, profissionais de saúde veterinária, farmacêuticos, representantes dos industriais de alimentos compostos para animais, bem como responsáveis oficiais das entidades regulamentares do sector, participam no congresso, que se propõe "debater os temas mais pertinentes da suinicultura nacional".

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Entre os temas em destaque encontram-se a discussão das "estratégias de desenvolvimento e internacionalização, promoção de raças autóctones, melhoria das práticas de produção e a criação de metodologias de diferenciação da carne de porco pela qualidade".

Na sexta-feira, após o lançamento oficial da identidade gráfica da chancela porco.pt, "que atesta a qualidade desta carne integralmente produzida em Portugal", acontece "um momento de degustação deste novo produto nacional" na Praça 15 de Dezembro, no Cartaxo.

A FPAS sublinha que o sector suinícola contribui com cerca de 560 milhões de euros para o Produto Interno Bruto nacional e emprega, "directa e indirectamente, vários milhares de famílias".

O vinho que bebe é natural? Sim, já começou a Wine Summit


7/6/2017, 19:54
No primeiro dia de palestras da Web Summit dos vinhos falou-se de "vinho natural". O tema controverso desperta opiniões contrárias e uma postura quase evangelista. O vinho natural é ou não uma moda?


"Vinhos naturais" ou, se quisermos, "vinhos nus". Entre tantos temas possíveis este foi o escolhido para arrancar a primeira wine summit do género a nível mundial, que acontece em Cascais até à próxima sexta-feira. Eram 9h30 quando a jornalista Alice Feiring despertou a plateia de uma sala que se foi compondo aos poucos ao falar de um tema que, apesar de representar um nicho, é controverso.

"Em 2000 eu era como todos os outros que acreditavam naquela frase, 'o que é que não é natural no vinho?'", começa por dizer Alice no auditório do Centro de Congressos do Estoril, que acolhe a Must Fermenting Ideas. A autora de quatro livros e jornalista de renome — que chegou a ser considerada a "salvadora do mundo perante a normalização do vinho", assegura a organização do evento — não é parca em palavras e, ao longo do discurso, vai deixando cair críticas para quem as quiser apanhar, ao falar da adulteração do vinho como um método para fazer dinheiro e que de novo não tem nada.

"A maior parte dos vinhos rosé no mercado não têm a cor natural", diz Alice ao Observador, já finda a palestra. Serve o exemplo para explicar que através de aditivos é possível criar sabores, aromas e até texturas num vinho que, à partida, não nasce com as respetivas características. O dinheiro, diz, está por trás de tais alterações, até porque "muitas grandes empresas decidem o que os consumidores querem beber". Há tecnologia para isso, garante, e em causa está o que Alice diz serem receitas mais fáceis de replicar.


Alice Feiring é uma autora e jornalista de renome, defensora assumida de "vinhos naturais". (Foto: PPP/ Wine Summit)

Mas o que significa "natural"?

Mas o que é, então, vinho natural? Segundo Alice, é todo o vinho que provenha de uma agricultura orgânica, mesmo que não certificada, ao qual nada pode ser retirado e nada pode ser adicionado. Ou seja, nem todos os vinhos biodinâmicos ou orgânicos são "naturais", mas alguns vinhos "naturais" podem efetivamente ser biodinâmicos e orgânicos. Confuso, não é?

Rui Falcão, crítico de vinhos e um dos organizadores do evento, afiança que não há uma definição específica de vinho natural, até porque não existe qualquer certificação.

"O tema em si é controverso e tudo o que é controverso cria debate e emoção", diz Falcão quando questionado sobre o motivo por que dois dos oradores do primeiro dia de palestras falaram sobre um mesmo tema. "Apesar de ser um nicho de mercado isto é algo que cria muito ruído porque nem todos compreendem o significado da palavra." O crítico de vinhos explica que, quando o assunto é vinho natural, à tona vêm dois lados extremistas. Se por um lado há alguma postura evangélica e superioridade moral de quem defende os "vinhos naturais", por outro, há quem se sinta ofendido pela escolha do nome. "Até parece que os outros são artificiais", aponta Falcão.

A palavra "natural" — na aceção defendida por Alice Feiring — não significa automaticamente que os vinhos sejam bons. Mas porquê, então, trazer o tema para debate? "É uma chamada de atenção, sobretudo tendo em conta que os países do novo mundo olham para o vinho como um produto que se quer standardizar e industrializar. Querem uma coisa igual todos os anos e a natureza não é igual todos os anos", afiança Rui Falcão.

Alice não consegue descrever a que sabe o vinho natural, apenas atira que "sabe a vinho". "A maior parte das pessoas que o prova diz 'uau! Não sabia que o vinho tinha este sabor'", conta-nos. Para a jornalista, que cita um produtor seu conhecido, nos vinhos ditos convencionais o primeiro gole é o melhor, enquanto nos naturais o melhor é mesmo o último. "O vinho natural está sempre em evolução, cada gole é diferente e isso é excitante."

O tema em causa está longe de ser consensual. Foi precisamente por isso que Alice quase ia perdendo a carreira que já construiu. "Quando comecei a escrever sobre isto quase assassinei a minha carreira porque as pessoas não queriam que eu escrevesse sobre vinhos naturais", conta, num registo um pouco mais hesitante. "Fiquei conhecida por isso e as pessoas já não queriam o meu nome no jornal porque isso significava muitos problemas." Alice diz ser a pessoa que há mais tempo escreve sobre o tema. Mas não é a única.

Jamie Goode é outro dos nomes associados ao movimento dos "vinhos naturais". O homem que começou por ser um cientista acabou por se render ao universo de Baco e é hoje também um reconhecido jornalista de vinhos. Goode, que falou já no painel da tarde, é menos radical do que Alice. É ele quem começa por garantir que os vinhos modernos acabaram por melhorar a experiência de beber vinho. Mas se por um lado o vinho está melhor "em alguns sentidos", por outro, a indústria abriu uma brecha que acabou por ser colmatada com os "vinhos naturais". Um movimento que Goode apelida de "retro".


Jamie Goode começou por ser cientista mas rendeu-se ao mundo dos vinhos. (Foto: PPP/ Wine Summit)

Goode salienta várias vezes durante a palestra a "elegância dos vinhos naturais" e argumenta que "não há valor no vinho se ele não conseguir exprimir o lugar de onde vem". Dito isto, é o primeiro a assinalar os seus problemas, que passam pela falta de definição e pelo facto de existir demasiada ênfase no processo: "Acho que devíamos estar a olhar para os resultados. É por isso que prefiro o termo 'vinho autêntico'". A isso acrescenta-se aquilo que por vezes pode ser considerado um "movimento ideológico". Há uma falha, assegura, quando a separar os "vinhos naturais" dos vinhos "industriais e aborrecidos". E ao contrário do que Alice Feiring disse na sua intervenção, a ausência de uma maior concentração de sulfitos não evita as ressacas, garante Goode.

De uma coisa o jornalista não tem dúvida, quando questionado sobre se os "vinhos naturais" são uma moda passageira ou algo que vá ficar: "O vinho natural é uma correção necessária tendo em conta o rumo que o vinho tomou."

Há vinho natural em Portugal?

"Os vinhos naturais são uma realidade em Portugal como em qualquer outro país. É uma moda que está a crescer", garante Rui Falcão, que refere que há vários produtores que o produzem, muito embora os seus vinhos não levem no rótulo a palavra "natural". "É uma produção e consumo de nicho."

Rodolfo Tristão, sommelier de profissão, é de uma opinião ligeiramente diferente, ao falar de "tendência" em vez de "moda" e relaciona a eventual procura de "vinhos naturais" com uma maior consciencialização do que é bom e natural, algo que vai à boleia do conceito slow food. Sendo este um tema — repita-se — controverso, Tristão faz questão de salientar que há quem seja fundamentalista, sobretudo nos países nórdicos, e repete uma ideia já antes dada ao Observador:

A tendência agora [em Portugal] é para fazer vinhos apostados na qualidade e no facto de serem amigos do ambiente. Quanto mais natural, melhor. E, sim, a tendência no mercado atual é para colocar a menor quantidade de sulfitos possível: à medida que os anos vão passando, os produtores vão colocando menos sulfitos"


E onde é que se bebe o dito vinho natural? Surpreendentemente, ou talvez não, Alice Feiring é a primeira a responder, sugerindo num repente três sítios em Lisboa onde é possível provar esses vinhos: no restaurante Leopold, na Sagrada Família e no Café Tati. Quando a conversa é o mundo, Alice aponta para os Estados Unidos da América, para a cidade de Copenhaga, capital da Dinamarca, e ainda Barcelona ou Madrid, em Espanha. "Alguns países onde grandes empresas de vinho dominam o mercado, e que têm muita influência, têm maiores dificuldades em trazer o vinho para os restaurantes", assegura a jornalista. "Itália já teve esse problema. Agora já não."

Nem de propósito, nos próximos dias 30 de junho e 1 de julho Os Goliardos, que existem no mercado vínico há cerca de 12 anos, vão organizar a feira Vinhos ao Vivo, que já vai na sua oitava edição. A equipa em questão, que já foi responsável por um wine bar e que hoje está à frente de uma garrafeira online, entre outros serviços, aposta em vinhos de terroir nacionais e europeus — entre as referências que vão estar presentes na feira há os ditos "vinhos naturais".



Este não foi, porém, o único tema do dia. Ao palco subiram ainda nomes como Natalia Velikova, professora na TexasTech University e investigadora na área do enoturismo, marketing de vinho e comportamento do consumidor, para falar de quais os melhores modelos de enoturismo, mas também Paul Symington, da família produtora com o mesmo nome, para debater o futuro dos vinhos fortificados.

A Must Fermenting Ideas, uma espécie de Web Summit para o mundo dos vinhos, continua nos dias 8 e 9 de junho, ocupando o Centro de Congresso do Estoril. Do seu painel fazem parte figuras de renome internacional no mundo dos vinhos. A Wine Summit Cascais, como também é conhecida, tem organização portuguesa: Paulo Salvador, jornalista e editor executivo da TVI, e Rui Falcão, um dos críticos de vinhos mais conceituados no país são os promotores do evento.

sábado, 1 de julho de 2017

Produção da silvicultura aumenta 4,2% em valor e 3,5% em volume em 2015, aponta INE

28/6/2017, 15:02
A produção da silvicultura aumentou 4,2% em valor e 3,5% em volume em 2015, mantendo um crescimento que tem sido sobretudo dinamizado pela produção de cortiça, divulgou esta quarta-feira o INE.

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Em 2015, o rendimento dos fatores e o rendimento empresarial líquido da silvicultura e exploração florestal aumentaram 4,9% e 3,9%, mantendo a tendência de crescimento observada desde 2009


A produção da silvicultura aumentou 4,2% em valor e 3,5% em volume em 2015, mantendo um crescimento que tem sido sobretudo dinamizado pela produção de cortiça, divulgou esta quarta-feira o INE.

Segundo as contas económicas da silvicultura relativas a 2015 do Instituto Nacional de Estatística (INE), o Valor Acrescentado Bruto (VAB) da silvicultura registou em 2015 um aumento de 5,8% em valor e de 3,8% em volume, tendo sido determinante o comportamento da produção de cortiça (+9,1% em valor e +6,0% em volume) e, "em menor grau", de madeira (+3,3% em valor e +3,7% em volume).

Segundo o INE, o VAB da silvicultura representou em 2015 cerca de 0,6% do VAB nacional e apresenta uma tendência crescente desde 2010, tendo registado entre 2011-2015 um acréscimo médio de 3,4% em valor e de 1,9% em volume.

Em 2015 face a 2014, a produção da silvicultura aumentou em valor (+4,2%) e em volume (+3,5%), com destaque para as subidas na produção de cortiça (+9,1%) — que foi "o produto com maior impacto no aumento da produção" da silvicultura em 2015 – de madeira (+3,3%) e de serviços silvícolas (+2,0%).

Em termos estruturais, a cortiça assume-se como "o produto com maior destaque no período de 2000 a 2004, com um peso relativo de 46,2%, tendo sido superada, nos anos seguintes, pela madeira para triturar (42,7% em 2015).

No que se refere à madeira para serrar, registou um aumento de 1,1% em volume e uma subida de 4,9% do preço, devido à insuficiência de toros provocada pelos incêndios e pela diminuição das plantações nos últimos anos.

Já a madeira para triturar, proveniente de espécies resinosas e folhosas como o eucalipto, retomou em 2015 o crescimento registado entre 2009 e 2013 e interrompido em 2014, progredindo 4,7% devido ao aumento da capacidade produtiva da indústria de pasta de papel, mas vendo os preços caírem 2,4%.

Quanto à produção de serviços silvícolas, aumentou em valor (+2,0%) e diminuiu em volume (-0,2%), sendo este recuo em volume atribuído ao decréscimo de 8,9% na florestação e reflorestação, em particular de sobreiro e pinheiro manso.

Em 2015, o montante de ajudas pagas à atividade silvícola (subsídios ao produto, outros subsídios à produção e transferências de capital) aumentou 13,0%, com subidas de 11,4% nas ajudas pagas à produção e de 18,3% nas ajudas a ações de investimento na atividade silvícola (transferências de capital).

Nesse ano, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) na silvicultura decresceu em valor (-2,7%) e em volume (-3,8%), sobretudo penalizada pelo recuo de 6,5% em valor e de 9,0% em volume da FBCF em florestação e reflorestação. Segundo o INE, em 2015 a FBCF em florestação e reflorestação foi constituída por 13,2% de sobreiro, 9,5% de pinheiro manso e 77,3% de eucalipto.

Em 2015, o rendimento dos fatores e o rendimento empresarial líquido da silvicultura e exploração florestal aumentaram 4,9% e 3,9%, mantendo a tendência de crescimento observada desde 2009.

Numa análise comparativa entre Estados membros da União Europeia (UE), em 2014 (último ano com informação disponível para a UE), Portugal posicionou-se em 10.º lugar em termos de importância relativa do VAB da silvicultura e exploração florestal no VAB da economia nacional.

Ainda a propósito de incêndios: não nos precipitemos. A pressa é má conselheira


João Filipe Bugalho

1/7/2017

Não são catadupas de diplomas legais, imanados de São Bento ou do Terreiro do Paço para todo o pequeno, mas tão diverso, território nacional que poderão resolver o problema da floresta e dos incêndios

Recebi quinta-feira, 29 de Junho de 2017, enviado pela Comissão da Agricultura e Mar da Assembleia da Republica um conjunto de oito projectos de diploma pedindo que, por escrito, me pronuncie sobre eles até dia 5.

Muito se tem falado na sequência da catástrofe de Pedrogão, ouvindo-se abundantemente as opiniões dos que não têm, ou têm pouco, conhecimento de causa em detrimento de alguns que são profissionais competentes na área da gestão florestal e da prevenção dos incêndios em meio rural.

Parece, de momento, haver uma opinião generalizada, de bom senso comum, sobre a necessidade de, urgentemente, se tomarem medidas de emergência. De facto, ainda oficial ou legalmente, não começou a época de incêndios (!) e já tivemos aquele que, desde que há registos, originou maior número mortos em Portugal e, segundo parece, no Mundo. Os grandes incêndios, segundo os dados estatísticos que existem, ocorrem no nosso país num período de pouco mais do que dez dias, em geral nos fins de Julho, ou início de Agosto, isto é, segundo as probabilidades, ainda teremos até ao final do Verão um grande número de incêndios, dos quais, também dizem as estatísticas, mais de 90% são combatidos eficazmente, mas da pequena percentagem dos que escapam ao controle é que resultam as enormes extensões de áreas ardidas. E aí podem conseguir proteger-se as pessoas mas não se salva a riqueza florestal.

É pois necessário, tomar medidas urgentes para acudir às situações de maior emergência e garantir, no mínimo, a confiança e segurança das populações existentes nas áreas mais críticas de elevado risco.

Este é um primeiro nível de actuação. Trata-se de pôr em marcha imediatamente soluções de recurso. Mas estas não são soluções estruturais.

Há pois um segundo nível de actuação muito distinto: o das soluções estruturais. Só estas poderão dar garantias de resolver o problema de forma sustentável e a longo prazo, mas têm que ser desenvolvidas de forma prudente, meditada, com muito conhecimento e bom senso. Nunca precipitadamente, para acorrer aos momentos de crise.

Para que se alcancem os resultados desejáveis, terão que assentar na investigação, na correcção técnica e na aplicabilidade prática, bem como nos legítimos anseios e aspirações das pessoas que vivem, ou sobrevivem, nas regiões mais vulneráveis.

E, em minha opinião, não são catadupas de diplomas legais, imanados de São Bento ou do Terreiro do Paço para todo o pequeno, mas tão diverso, território nacional que poderão resolver o problema. Se atentarmos bem, toda a legislação já publicada pelo menos desde 2006 teria permitido corrigir, se tivesse sido aplicada de forma operacional, um grande número das situações mais perigosas existentes.

Há um conjunto de medidas que têm de facto âmbito nacional (por exemplo: emparcelamentos, incentivos fiscais, simplificação do cadastro, etc.) mas no que diz respeito à prevenção dos incêndios só serão eficazes as concebidas para regiões concretas, aplicadas a nível municipal e intermunicipal, por vezes a nível distrital ou regional. Uma medida correcta para a vertente noroeste da Serra de São Mamede poderá não funcionar sequer na mesma serra do lado Sul ou Poente. Uma medida conveniente para o Alto Minho poderá não ser eficaz em Trás-os-Montes ou na Beira Interior, etc. Estas medidas têm também que ser tomadas depois de ouvidas as pessoas, as juntas de freguesia, as associações de produtores florestais, de agricultores, de caçadores, auscultando os seus conhecimentos, explicando os objectivos, garantindo a sua cooperação.

As leis existentes, algumas com mais de dez anos, já definiam as atribuições das comissões distritais e municipais de defesa da floresta contra incêndios. Mas estas funcionaram?

Conseguiram estas comissões, ou os seus dirigentes, que sapadores e bombeiros, em conjunto com o SEPNA, funcionassem de forma articulada e sob um comando, garantindo que os bombeiros tinham conhecimento do trabalho feito ao longo do ano pelos sapadores e estes actuando, para além do plano genérico da sua acção, conforme as recomendações das brigadas de fiscalização que lhes dessem os contactos dos proprietários com necessidade de ajuda para a limpeza dos seus terrenos ou para a realização das necessárias queimadas?

Os serviços do INCF e do Ministério da Agricultura já têm ou podem ter, só por si ou em colaboração com as Universidades e o IPMA, meios para cartografar no país as áreas segundo as Classes de Risco de Incêndio. Essa cartografia pode e deve ser disponibilizada aos Gabinetes Florestais Municipais, que provavelmente serão mais eficazes se trabalharem inter-municipalmente, os quais em conjunto com sapadores, bombeiros e a GNR, serão capazes de definir as áreas e os modos prioritários de actuação. Para isso não é preciso nova legislação. É preciso sim, conhecimento, disciplina, capacidade de organização, determinação na execução e responsabilidade no comando. E meios, ou utilização racional dos disponíveis.

A legislação produzida em Portugal sobre esta matéria – como se pode ver na tese de doutoramento do Tiago Oliveira que vai ser defendida no próximo dia 6 no ISA — tem sido directamente proporcional (!) à intensidade dos incêndios mas não tem resolvido o problema. Pelo contrário, a prática demonstra-o, estes têm vindo a agravar-se.

Mais leis estão agora a ser elaboradas. Imagine-se que nas propostas de diplomas legais actualmente em apreciação até se determina que os matos não possam ter mais do que 50 cm de altura! É preciso não conhecer o campo ou a natureza, nem ecologia, nem silvicultura. Os matagais, nos terrenos mais pobres, são necessários e desempenham funções ecologicamente importantes, contrariando a erosão, melhorando a infiltração da água no solo, fazendo sombra ao renovo do arvoredo, ajudando algumas espécies cinegéticas, escondendo da vista de predadores as crias mais vulneráveis, dando abrigo e comida a muitas aves e mamíferos, garantindo a sobrevivência de algumas espécies protegidas, permitindo a manutenção de regimes silvo-pastoris fundamentais para criadores de gado em particular de caprinos e bovinos. Mas também os matos precisam de ser racionalmente geridos, constituindo mosaicos na paisagem, de variada estrutura e idade, frequentemente com o recurso a queimadas que, se forem feitas na época e de forma adequada servirão para suster os grandes incêndios no Verão.

Quando há mais de quarenta anos, na sequência da aprendizagem que fiz com o grande pioneiro da "Ecologia do Fogo", Edwin Komarek, o consegui trazer por várias vezes a fazer conferências e seminários em Portugal, deu-se início a acções de prevenção dos incêndios com base em programas de fogo controlado. Realizei os primeiros fogos controlados que se fizeram no Século XX no âmbito dos Serviços Florestais, pelo que fui superiormente admoestado e até ameaçado de prisão! Foi em seguida que o colega e amigo, Eng. Moreira da Silva conseguiu realizar planos de fogos controlados numa escala apreciável quer no âmbito da Circunscrição Florestal do Porto quer no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Estes trabalhos entusiasmaram jovens estudantes da altura entre os quais o Francisco Castro Rego.

Já então foi dito e escrito que combater os incêndios é o último recurso. Por vezes não se conseguem mesmo combater e é desumano colocar bombeiros na frente de incêndios que desenvolvem temperaturas capazes de tudo derreter, até jantes de automóvel.

Porque é que o Estado português gasta dez vezes mais em meios de combate do que em prevenção?

Os incêndios previnem-se e para isso é preciso ordenar a paisagem, criar mosaicos de biodiversidade, alternar superfícies florestais com culturas agrícolas, quebrar a continuidade dos combustíveis, se necessário queimando-os de forma competente durante as épocas em que é possível fazer "fogos frios". Fogos em que se liberta fumo branco (carregado de humidade) e não fumo preto. Fogos em que as chamas atingem pouca altura e são fáceis de controlar. Fogos com os quais realmente se aprende a lidar com o fogo. Komarek disse-nos vezes sem conto: se não fizerem fogos terão grandes incêndios. Os nossos antepassados sabiam-no. Poucos são hoje os que ainda sabem, mas há já felizmente entre nós quem saiba. Que vimos nas imagens televisivas de Pedrogão? Centenas de bombeiros, com risco da própria vida, generosamente, "regando" chamas alterosas e estas imparáveis, a progredir para as copas, para a as estradas, para as casas. Que vimos quando chegaram os sapadores espanhóis? Com o apoio de uma máquina pesada, distanciados do incêndio mas em posição estratégica, abrindo um aceiro para iniciar um contra-fogo. Aí viria mais tarde a morrer a frente do incêndio. Mas não são só os espanhóis que sabem. É assim que actuam as equipes de sapadores das empresas de celulose que tem sido tão subestimadas.

Que foi feito dos GAUF (Grupos de Análise e Uso do Fogo) que apresentavam resultados tão promissores?

Usar o fogo pode ser, em muitos casos, a forma mais económica e ecologicamente mais adequada de reduzir o risco de incêndio. O conhecimento entre nós existe, a capacidade para o aplicar também. O Professor Francisco Castro Rego doutorou-se nos EUA e, há cerca de trinta anos, deu início na UTAD ao desenvolvimento dos estudos e investigação nesta área. Vários colegas (Hermínio Botelho, Paulo Mateus, Paulo Fernandes, António Salgueiro entre outros) são silvicultores muito competentes, fruto desse começo. Um pouco mais tarde, no Instituto Superior de Agronomia, o Professor José Miguel Cardoso Pereira, depois de se doutorar também nos EUA, tem vindo a constituir equipas internacionais com grande capacidade e reconhecida competência nas áreas da detecção remota e prevenção de incêndios nos espaços rurais, dominando e sabendo aplicar com eficácia as mais modernas tecnologias, utilizando satélites e Sistemas de Informação Geográfica.

Aproveite-se eficaz e racionalmente o conhecimento destes profissionais e de outros existentes nas nossa Universidades que com eles colaboram e caminhar-se-á com mais segurança no sentido de, a prazo, prevenir os incêndios no espaço rural.

Mas não se deixe que se promovam demagogias, muito menos através de legislação.

Está em curso uma campanha assanhada contra o eucalipto a qual, já vem de longa data, mas não assenta em qualquer conhecimento fundadamente científico. Um bosque de essências florestais endógenas, como um carvalhal ou carrascal denso, poderá constituir maior perigo de incêndio que um eucaliptal bem implantado e profissionalmente gerido. O mal dos pinhais e eucaliptais de Pedrogão não adveio das espécies que os constituíam, mas do estado desordenado em que se encontravam. Como os que se encontram em muitas outras áreas sobretudo do centro e norte do país, do Alto Alentejo ou de partes das serras do Algarve. Até o tão propalado mito de que o eucalipto seca tudo em seu redor vem sendo contrariado por minuciosa investigação científica. A azinheira ou a esteva poderão explorar a água do solo de forma pelo menos tão eficaz como o acusado.

Note-se que não estou a defender o eucalipto (que necessita de quem o defenda, dado ser matéria prima muito importante para o nosso PIB, para garantir uma parte importante das nossa exportações, grande número de postos de trabalho e constituir a única receita de muitos habitantes do interior, só sendo útil se existir sob a forma de matas ordenadas) mas sim a chamar a atenção para a irresponsabilidade das afirmações que assentam apenas em preconceitos (ou propositadas distorções da realidade) e não são fundamentadas nem no conhecimento, nem nas prioridades das pessoas e do país. O Henrique Pereira dos Santos propôs, e essa é, em minha opinião, uma solução inteligente e muito interessante, não a proibição pura e simples de novos eucaliptais mas que a instalação destes obrigue à plantação proporcional de espécies endógenas ou à conservação de espaços naturais, à semelhança do que já se faz com os "bancos de carbono". Seria assim, e cito-o, a criação de "créditos de biodiversidade", em que as espécies produtivas como eucalipto, pinheiro bravo, pinheiro manso e sobreiro suportariam a gestão das espécie "não-comerciais". Um pouco como o mercado de carbono, mas para floresta nativa. Uma fábrica que emite CO2 tem de comprar créditos de carbono; uma floresta comercial pode ter de comprar créditos de floresta de conservação. Quem planta 10 ha de floresta de produção tem de ter ou financiar 1 ha de floresta de conservação. Assim, o investimento florestal impulsiona a conservação da floresta. Em vez de proibir, promove-se o equilíbrio."

Bem melhor que proibir, é ouvir, compreender, ajudar, ensinar, colaborar, estimular e resolver…

Uma última nota. Creio que pela primeira vez na minha vida profissional ouvi os meios de comunicação portugueses referir que o fogo teve origem em fenómeno natural. Desta vez tem-se falado menos nos incendiários. De facto, os estudos da PJ mostram que os fogos de origem criminosa são menos de 3%. Mas tranquiliza e irresponsabiliza as consciências ter um bode expiatório.

No entanto mais de 80% dos fogos nascem a menos de 500 metros de uma estrada ou de uma povoação, isto é, são de origem humana, por descuido, falta de educação ou negligência. Quer isto dizer que desde que haja combustível acumulado em excesso há uma forte probabilidade de, mais cedo ou mais tarde, eclodir um fogo. E se este escapar ao controlo, não sendo dominado nos primeiros minutos, a probabilidade de degenerar num incêndio incontrolável é muito grande. Portanto, para além de se alertar e educar a população para práticas mais cuidadosas, há sobretudo que reduzir os combustíveis, diversificar a paisagem, construir um mosaico equilibrado e harmonioso mais propício à segurança e defesa de pessoas e bens, mais conveniente para a conservação da natureza e dos recursos naturais.

Em resumo: os diagnósticos estão feitos e refeitos. Há conhecimento técnico, existem muitos meios disponíveis. A legislação é em grande parte mais do que suficiente (há quem diga que excedente). Mas o fulcro tem estado fora do sítio. Falta sobretudo capacidade para coordenar, gerir e comandar. Para selecionar e promover os agentes de acordo com o saber e o mérito. Avaliando os resultados. Tem faltado aptidão para governar. É necessário agirmos sim, não apressadamente, mas com sabedoria, talento, ponderação, competência e muita determinação.

Lisboa, 30 de Junho de 2017

Engenheiro silvicultor, antigo quadro dirigente da Direcção-Geral de Florestas

Alqueva não tem capacidade para fornecer água a todos os sistemas de rega em período de seca


Sistema de captação dos Álamos de onde parte água para o sub-sistema de rega do Alqueva tem capacidade instalada para seis electrobombas mas só duas é que estão a funcionar.

CARLOS DIAS 28 de Junho de 2017, 21:26 Partilhar notícia


O período de seca que está a afectar toda a região Alentejo, aliado à publicação tardia do novo tarifário que estabelece o preço da água destinado a rega em Alqueva, acabou por provocar inesperadas dificuldades no fornecimento de caudais. Pressionadas pelos baixos níveis de armazenamento na maioria das albufeiras que servem os 12 blocos de rega do sub-sistema Alqueva, (71 mil hectares), as associações de regantes, assim que foi anunciado o novo tarifário da água, solicitaram os volumes de água de que tinham necessidade para as culturas Primavera/Verão. E de repente a Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas dos Alqueva (EDIA) foi confrontada com um volumoso pedido de água a que não está conseguir responder.

Manuel dos Reis, presidente da Associação de Beneficiários da Obra de Rega de Odivelas (ABORO), disse ao PÚBLICO que a EDIA se comprometeu com programa de transferências de água da albufeira de Alqueva e Alvito para Odivelas, acordado entre as duas entidades para 2017, mas que "não está a ser cumprido". Esta situação "é preocupante" uma vez que põe em causa o fornecimento de água pela associação aos regantes, nos próximos meses de Julho e Agosto, afectando cerca de 9000 hectares de culturas neste perímetro de rega, referiu Manuel dos Reis, frisando que "neste momento está a sair mais água para a rega que aquela que entra enviada pela EDIA", acusando este entidade de "má gestão".

As razões desta situação anómala, descreve o presidente da ABORO, "deve-se ao facto de só estarem duas electrobombas a captar água" quando a capacidade instalada é para seis.

Capacidade insuficiente
O presidente da EDIA, Pedro Salema, adiantou ao PÚBLICO que, de facto, "não é possível abastecer o sistema de rega em simultâneo e em período de seca", confirmando que a estação de captação dos Álamos, de onde é bombada a água para irrigar os 71 mil hectares do sub-sistema Alqueva, "só tem em funcionamento duas electrobombas" que se revelam insuficientes para fornecer em "simultâneo" a água que é solicitada.

Pedro Salema acrescenta que a EDIA já abriu um concurso internacional para o fornecimento de mais duas electrombas, que só serão entregues dentro de dois anos e vão custar, os dois equipamentos, 13 milhões de euros. "Até lá, vamos ter que viver com duas", adiantou. O presidente da EDIA recusa a acusação de Manuel dos Reis, garantindo que "não há má gestão" do sistema de rega mas "não se pode esperar milagres" quando "toda a gente pede água ao mesmo tempo". A estrutura de fornecimento do sistema "não foi pensada para fornecer a água toda ao mesmo tempo", admite o presidente da EDIA, lembrando o articulado do despacho que fixa o novo tarifário onde se apela às associações de regantes para pedir água "atempadamente".

Acontece que os agricultores a solicitaram quando poderiam fazê-lo. Por exemplo, a ABORO apresentou o pedido a 19 de Abril (oito dias após a publicação do despacho) e pretendia ter toda a água de que necessitava, na barragem de Odivelas, até ao final do mês de Maio, um pedido que a EDIA considerou impossível de satisfazer. Ficou acordado que a entidade fornecedora debitaria 7,5 hectómetros cúbicos por mês entre Abril e Julho. Mas Manuel dos Reis alega que não está a entrar na albufeira a água que foi acordada. Pedro Salema contrapõe que no último mês foram enviados 7,1 hectómetros. Para a associação, a situação que se vive é "muito preocupante".

Apesar da redução do preço da água, os agricultores consideram que este ainda está elevado, obrigando-os a reduzir áreas de cultivo ou a optar por culturas que exijam menos água.

Manuel dos Reis descreve também o que se passa nos blocos de rega de Campilhas e Alto Sado, onde os produtores de arroz "deixaram de cultivar uma área significativa" por causa do custo da água.


Entretanto, a Federação das Associações de Agricultores do Baixo Alentejo (FAABA), em comunicado enviado ao PÚBLICO na tarde desta quarta-feira, refere que já enviou ao ministro da Agricultura, Pescas e Desenvolvimento Rural uma carta alertando para a necessidade de implementação de "medidas imediatas" que possam "contrariar os impactos negativos da seca prolongada que já se estão a fazer sentir por todo o Alentejo".

Aquela organização representativa das associações de agricultores garante que o esgotamento das reservas hídricas no Alentejo "são visíveis e muito preocupantes", afectando as culturas de sequeiro, como os cereais, as oleaginosas, as pastagens e forragens, os sistemas de abeberamento dos efectivos pecuários e o regadio. A situação que se está a viver exige a aplicação "urgente" de medidas de apoio para "abeberamento dos animais, através da abertura de furos, construção de charcas, aquisição de cisternas, e instalação de bombagens", assinala a FAABA.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Engenharia Florestal é formação em vias de extinção


Almerinda Romeira
 Ontem 19:00
Em Portugal há três cursos na área da Engenharia Florestal, mas muitas vagas ficam às moscas. Num país de floresta mal gerida, corre-se o risco de, no futuro, não haver quadros qualificados. Outra tragédia que se anuncia?


Há três escolas em Portugal onde se pode estudar Engenharia Florestal ou equivalente. E até estão bem distribuídas na geografia: Instituto Superior de Agronomia, da Universidade de Lisboa, na capital; Escola Superior Agrária, que se insere no Instituto Politécnico de Coimbra, no centro do país; e Universidade de Trás-Os-Montes e Alto Douro (UTAD), no Norte. Os professores e investigadores são, regra geral, de qualidade, como de qualidade é o conhecimento aí produzido. E os alunos? "A procura dos alunos é inexplicavelmente baixa", refere Domingos Lopes, diretor do departamento de Ciências Florestais e Arquitetura Paisagista da UTAD ao Jornal Económico. Em setembro de 2016, um artigo do jornal Público punha o dedo na ferida. Num país de florestas, apenas 23 alunos escolheram Engenharia Florestal. A UTAD, em Vila Real, no nordeste do país, é a mais penalizada. Aí resiste-se à aridez da procura tentando manter vivo um curso que se considera fundamental para o futuro da região e do país.

O desinteresse dos jovens é tanto mais difícil de entender quanto vai na razão inversa à da importância que a floresta tem para o país. Às suas funções de pulmão para a biodiversidade e para a conservação do solo e da água, a floresta junta a riqueza que lhe é inerente: madeira, resina… A floresta é o petróleo de Portugal. O petróleo verde, como se costuma dizer. "Em muito poucos momentos, a floresta foi realmente vista como o recurso natural que é", diz Domingos Lopes, fundamentando: "É essencial perceber não só o que é, mas também o que pode vir a ser e o que se perde se não a soubermos gerir bem".

O potencial económico da floresta é tremendo, salienta. Basta olhar para o exemplo da cortiça e até para o da fileira do papel. Embora salvaguardando que toda a monocultura é indesejável na perspetiva da prevenção de incêndios, há no setor do papel "um conhecimento aplicado, engenheiros florestais a trabalhar, um acompanhamento que "nos deveria obrigar a refletir sobre as consequências da boa gestão e de como esta pode gerar rendimento, que não pode ser apenas explicado pelo mais baixo período de revolução da espécie".

Afinal, por que razão fogem os jovens da Engenharia Florestal? "Ainda não conseguimos imprimir a esta fileira a necessária dinâmica económica e ecológica… A fileira ainda não conseguiu ser suficientemente dinâmica para mostrar todo o seu potencial", afirma Domingos Lopes. A questão é estrutural e é nessa perspetiva que tem que ser colocada. Que futuro queremos para Portugal? O que vamos fazer do interior desabitado e envelhecido? Só uma verdadeira política para a floresta evitará o colapso futuro. "Todos os engenheiros florestais serão necessários. Ao ritmo a que os estamos a formar não serão suficientes", diz Domingos Lopes, que vê na falta de qualificações um handicap ao desenvolvimento.

Qual é a empregabilidade dos cursos? Onde se trabalha? Quando Domingos Lopes se formou há uma vintena de anos, também na UTAD, o Estado era o principal empregador. Desde então, muita coisa mudou. Hoje são sobretudo gabinetes técnico-florestais, estruturas de prevenção de incêndios, associações de produtores florestais, microempresas da indústria da madeira. "Há sempre saídas", diz. Diferente é saber se são bem remuneradas. "Temos de tudo. No geral, não penso que seja muito diferente de qualquer jovem que se forme hoje em dia".

Além da licenciatura, a UTAD ministra um mestrado em Engenharia Florestal. Tem uma disciplina que, para o professor, é "a disciplina": Ordenamento Florestal. Silvicultura pura. "O conhecimento está próximo de nós. Muitas vezes não o sabemos é ver", sublinha. Porém, quem tem responsabilidades no país tem a obrigação de o procurar.


quinta-feira, 29 de junho de 2017

Ministro da Agricultura quer região Centro como "laboratório" da reforma da floresta

28 jun 2017 13:32

O ministro da Agricultura defendeu hoje, no parlamento, que os concelhos da região Centro afetados pelos incêndios sejam um "laboratório" da reforma da floresta para mostrar o resultado, a prazo, dos objetivos do Governo.

 
Apesar de a propriedade dos concelhos ser privada, pelo que "qualquer intervenção deverá contar com os principais interessados", o ministro Luís Capoulas Santos acredita que "esta tragédia deveria e poderia levar a iniciar a reforma da floresta precisamente naqueles municípios".

"Não sendo a reforma [da floresta] visível de imediato à escala nacional, se concentramos todas estas medidas, de forma antecipada, naquele território e transformá-lo num laboratório daquilo que a prazo pode ser a floresta portuguesa bem gerida e bem ordenada", afirmou aos deputados da Comissão da Agricultura e do Mar da Assembleia da República.

O ministro da Agricultura garantiu ainda estarem a ser dadas ajudas aos agricultores afetados pelos incêndios registados no Centro do país, pormenorizando os apoios dados na alimentação animal.

"É com muita satisfação que estamos a coordenar a logística da distribuição dos alimentos para os animais, que na sua maioria foram doados por organizações de agricultores, produtores de leite e 16 empresas agroalimentares, que ofereceram várias dezenas de toneladas de rações", afirmou o governante na comissão parlamentar de Agricultura.

Capoulas Santos acrescentou que o seu ministério integrou a lista de doadores, através da Companhia das Lezírias, tendo disponibilizado até agora 90 toneladas de alimentos para "acudir aos primeiros dias".

"Sei que o ministério da Administração Interna está também a preparar, a exemplo do que fizemos no ano passado, um conjunto de medidas para dar apoio financeiro para alimentação animal, porque desde esta data até que venham as primeiras chuvas não existirão pastagens no terreno", explicou.

Aos deputados, Capoulas Santos referiu ainda que o apoio passará também pela recuperação do potencial produtivo, referindo a possibilidade de alocação a fundos perdidos para pagar entre 50% a 80% do valor dos bens e equipamentos perdidos.

O governante admitiu ainda que possam ser mobilizados recursos extraordinários do Orçamento de Estado.

Luís Capoulas Santos criticou ainda quem procura utilizar as consequências dos incêndios da região centro em "benefício próprio".

"Neste momento quem usar a tática política, quem procurar utilizar este tema em benefício próprio vai-lhe suceder exatamente o contrário, como o triste episódio protagonizado pelo líder do seu partido [o líder do PSD, Pedro Passos Coelho]", afirmou o governante, numa resposta ao deputado social-democrata Maurício Marques.

Na comissão parlamentar de Agricultura e do Mar, Capoulas Santos começou por defender que nas "questões vitais para o país exige-se a todos os decisores políticos que façam um esforço", como o Governo está a fazer e a "dialogar com todos sem procurar 'fait-divers'".

O ministro da Agricultura disse estar disponível para "acolher todas as propostas", que no caso do PSD "foram zero". "Vou recusar neste debate e em qualquer outro que politizemos ou que partidarizemos este tema e a recomendação que faria é: vamos todos discutir a floresta, vamos discutir as propostas e o que faz falta", instou.

Na resposta a estas palavras, Maurício Marques referiu que "não entraria no estado de espírito" do ministro e solicitou uma "discussão séria". "É isso que estamos fazer, contrariamente ao senhor ministro, que está a dizer que a colaboração e prestação do meu partido foi zero, mas entrou neste parlamento uma proposta subscrita pelo PSD e CDS-PP para uma das reformas que está hoje em discussão: o sistema nacional de informação cadastral", sublinhou.

Na segunda-feira de manhã, após uma visita ao quartel dos bombeiros de Castanheira de Pera, distrito de Leiria, o presidente do PSD acusou o Estado de falhar no apoio psicológico às vítimas do incêndio de Pedrógão Grande, dizendo ter tido conhecimento de que um suicídio ocorreu por falta desse apoio. No final desse dia, Passos Coelho pediu desculpas por ter usado "informação não confirmada" ao falar num suicídio, depois desmentido, e o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande, João Marques, assumiu ter dado uma informação errada ao líder social-democrata sobre um alegado suicídio na sequência dos incêndios.

Os incêndios que deflagraram na região Centro no dia 17, e que demoraram uma semana a serem extintos, provocaram 64 mortos e mais de 200 feridos. Mais de dois mil operacionais estiveram envolvidos no combate às chamas, que consumiram 53 mil hectares de floresta, o equivalente a cerca de 75 mil campos de futebol.

A área destruída por estes incêndios - iniciados em Pedrógão Grande, no distrito de Leira, e em Góis, no distrito de Coimbra - corresponde a praticamente um terço da área ardida em Portugal em 2016, que totalizou 154.944 hectares, segundo o Relatório Anual de Segurança Interna divulgado pelo Governo em março.

Das vítimas do incêndio que começou em Pedrógão Grande, pelo menos 47 morreram na Estrada Nacional 236.1, entre Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, concelhos também atingidos pelas chamas.

O fogo chegou ainda aos distritos de Castelo Branco, através da Sertã, e de Coimbra, pela Pampilhosa da Serra. O incêndio de Góis atingiu ainda Arganil e Pampilhosa da Serra, sem fazer vítimas mortais.

Capoulas Santos garante que agricultores afectados pelos incêndios estão a ser ajudados

O ministro da Agricultura garantiu no Parlamento estarem a ser dadas ajudas aos agricultores afetacdos pelos incêndios registados no Centro do país, nomeadamente com apoios dados na alimentação animal.

28 de junho de 2017 às 13:47

"É com muita satisfação que estamos a coordenar a logística da distribuição dos alimentos para os animais, que na sua maioria foram doados por organizações de agricultores, produtores de leite e 16 empresas agroalimentares, que ofereceram várias dezenas de toneladas de rações", afirmou esta quarta-feira, 28 de Junho, Capoulas Santos na comissão parlamentar de Agricultura.
 
O ministro acrescentou que o seu ministério integrou a lista de doadores, através da Companhia das Lezírias, tendo disponibilizado até agora 90 toneladas de alimentos para "acudir aos primeiros dias".
 
"Sei que o ministério da Administração Interna está também a preparar, a exemplo do que fizemos no ano passado, um conjunto de medidas para dar apoio financeiro para alimentação animal, porque desde esta data até que venham as primeiras chuvas não existirão pastagens no terreno", explicou.
 
Aos deputados, Capoulas Santos referiu ainda que o apoio passará também pela recuperação do potencial produtivo, referindo a possibilidade de alocação a fundos perdidos para pagar entre 50% a 80% do valor dos bens e equipamentos perdidos. O governante admitiu ainda que possam ser mobilizados recursos extraordinários do Orçamento de Estado.
 
Os incêndios que deflagraram na região Centro no dia 17, e que demoraram uma semana a serem extintos, provocaram 64 mortos e mais de 200 feridos. As chamas consumiram 53 mil hectares de floresta, o equivalente a cerca de 75 mil campos de futebol.
 
A área destruída por estes incêndios - iniciados em Pedrógão Grande, no distrito de Leira, e em Góis, no distrito de Coimbra, - corresponde a praticamente um terço da área ardida em Portugal em 2016, que totalizou 154.944 hectares, segundo o Relatório Anual de Segurança Interna divulgado pelo Governo em Março.

ASAE apreende leite com água oxigenada para fabrico de queijo


MARKO DJURICA/ REUTERS (ARQUIVO)

 29.06.2017 12h45

A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) apreendeu leite com água oxigenada, destinado ao fabrico de queijo. As investigações decorreram nos últimos dois meses e foram dirigidas a vários produtores de leite. As investigações iniciaram-se com a deteção de uma viatura para transporte do leite sem qualquer sistema de refrigeração.

As análises realizadas às amostras ao leite revelaram adição de água oxigenada. As autoridades suspeitam que estaria a ser utilizada para ocultar a má qualidade higiénica do leite, em vez da utilização de refrigeração, facto confirmado pela temperatura medida no momento das inspeções.

De acordo com o comunicado da ASAE, como resultado da ação "foi instaurado um processo por suspeita de crime contra a genuinidade, qualidade ou composição de géneros alimentícios, em concurso com infrações de natureza contraordenacional, nomeadamente o incumprimento dos requisitos de temperatura durante o processo de produção, recolha e transporte de leite cru e a falta de requisitos de higiene do leite".

As investigações da ASAE levaram também à apreensão de 830 litros de leite cru e 40 litros de água oxigenada, num valor que ronda os 800 euros. 

Alimentos vendidos como biológicos tinham afinal pesticidas proibidos e químicos tóxicos


Revista Visão mandou analisar 113 produtos. Um em cada cinco estavam contaminados.

CATARINA REIS 29 de Junho de 2017, 13:20 Partilhar notícia

"Nem tudo o que parece é", diz o velho ditado e poderia aplicar-se agora a uma investigação sobre produtos biológicos, divulgado pela revista Visão. A revista testou 113 alimentos rotulados como biológicos em laboratório. Quase um em cada cinco, ou seja 20% dessa amostra, continha vestígios de pesticidas sintéticos proibidos e outros químicos tóxicos. Entre eles, uma substância que a Agência Internacional de Pesquisa em Cancro da Organização Mundial de Saúde acredita ser "provavelmente cancerígeno", o glifosato.

O presidente da Associação Portuguesa de Agricultura Biológica, Jaime Ferreira, disse à Lusa estar surpreendido com os resultados e que, a confirmarem-se, se está perante "um caso de saúde pública". Entre a lista de alimentos analisados encontram-se produtos como arroz, esparguete, óleo de girassol, fruta e vinho. A maioria de origem ou de marcas portuguesas. Alguns apresentavam níveis de vestígios 12 vezes acima daquilo que é permitido por lei. "Estamos a falar de um assunto tão sério que terá de ser verificado por outras instâncias a veracidade do trabalho feito", frisa o mesmo responsável, defendendo a intervenção das autoridades face à investigação realizada.

A luta da Monsanto para defender o glifosato
A luta da Monsanto para defender o glifosato
Frescos, embalados, nacionais e estrangeiros, comprados em diferentes lojas. Vinte e um dos produtos analisados pelo Labiagro, um laboratório acreditado e independente de controlo de qualidade e segurança alimentar, continham químicos de síntese, 17 dos quais com pesticidas excluídos da lista de produtos permitidos na agricultura biológica — na qual o cultivo só é feito com recurso a produtos naturais, normalmente extraídos de plantas.

A investigação determinou também que muitos dos produtos encontrados em lojas e secções de venda biológica não continham o selo "bio", mas etiquetas com designações como "natural", "saudável" e "eco", que em nada estão relacionadas com a agricultura biológica.

O laboratório encontrou ainda butóxido de piperonilo em quatro destes 17 alimentos, um químico frequentemente utilizado em champôs antipiolho e, assim como o glifosato, considerado "possivelmente cancerígeno" pela Agência de Protecção Ambiental dos EUA.


Apesar das suspeitas e queixas em torno do glifosato, a Comissão Europeia vai propor o alargamento por mais dez anos da autorização do uso de glifosato, encontrado em herbicidas de aplicação corrente como o RoundUp, da empresa Monsanto, depois de a Agência Europeia de Produtos Químicos ter considerado que o glifosato não era cancerígeno. Uma conclusão que é contestada pela associação portuguesa Quercus.

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Em Portugal, os ambientalistas querem ver a substância banida. E do lado do Governo, houve uma iniciativa, em Dezembro de 2016 para proibir a utilização do glifosato em locais públicos como "jardins infantis, jardins e parques urbanos de proximidade e nos parques de campismo", mas também "nos hospitais e noutros locais de prestação de cuidados de saúde ou lares e residências para idosos", nas escolas e estabelecimentos de ensino, sendo a excepção os dedicados às ciências agrárias.

A Visão sustenta que fez o primeiro estudo independente desta dimensão em Portugal sobre alimentos biológicos.

Incêndios, eucaliptos ou a ignorância e arrogância do Bloco (e do dr. Louçã)

José Manuel Fernandes

28/6/2017, 21:34700

A obsessão do Bloco com o eucalipto não é uma preocupação com a floresta, é só preconceito e ignorância. Mais: sem o contributo do eucalipto dificilmente teremos recursos para recuperar o mundo rural.

Ainda antes de escrever a primeira linha deste texto já sei do que vou ser acusado – até já estou a ver as frases que encherão as caixas de comentários, onde serei de imediato condenado como um miserável avençado das empresas de celuloses. É isso que dita a habitual arrogância moral da esquerda e, sobretudo, da extrema-esquerda, aquela que dispara antes de pensar e insulta em vez de debater.

E sei muito bem porque é que isso vai acontecer: porque vou contrariar a ideia feita de que os grandes males da floresta portuguesa são todos obra da sua "eucaliptização". Depois da tragédia de Pedrógão Grande, esclarece o sumo sacerdote e eterno ideólogo do Bloco, o prioritário não é determinar como foi possível um tal colapso do Estado na sua primeira missão de protecção dos cidadãos, nem apurar responsabilidades políticas, nem sequer tentar perceber, no terreno, como possível que o fogo se propagasse tão depressar nalguns terrenos ao mesmo tempo que deixava, aqui e além, umas manchas verdes. Para Francisco Louçã a "agenda do rescaldo" nunca passa por pedir contas a quem nos governa, antes por condenar quem está na oposição e, sobretudo, por "ter cuidado" com "as empresas do eucalipto" que estarão "a mover-se para proteger o seu baú".

Como? Na cabeça conspirativa do nóvel conselheiro de Estado essas empresas irão aproveitar "a necessidade de posse administrativa dos terrenos abandonados para um movimento de concentração da propriedade, à espera de um novo governo que lhes favoreça a eucaliptização". Por isso, acrescenta, é preciso pois ter cuidado com os "eucaliptocratas", razão pela qual não há dirigente, deputado ou bota-faladura do Bloco que não fale do eucalipto mesmo sem saber daquilo que fala.

Infelizmente fazem-no em terreno fértil: primeiro, porque as empresas de celulose são ricas e dão lucro, e isso é pecado em Portugal; depois porque o eucalipto tem, sempre teve, muito má imprensa – às vezes com razão, outras sem ela. Quando a Catarina ou uma das manas Mortágua investe contra a chamada eucaliptolândia, os jornalistas que seguram os microfones quase acenam com as cabeças e depressa se esquecem de confrontar a sua doçura de hoje (quando morreram 64 pessoas num incêndio florestal) com a lendária agressividade dos tempos em que até as suas unhas encravadas eram culpa de Passos Coelho.

Infelizmente, acrescento ainda, porque o ministro da Agricultura, Capoulas Santos, também cede à demagogia e ainda agora prometeu no Parlamento que "não haverá mais um único hectare de eucalipto em Portugal".

Mas adiante, que o que conta é que o Bloco cavalga um preconceito – que é também o preconceito de muito renomado comentador, acrescente-se – e fala sem saber, o que não seria grave se a sua nova cruzada não pudesse ter como consequência uma floresta ainda mais miserável do que aquela que temos. Por isso, muito devagarinho e da forma mais didática possível, deixem-me explicar porque é que investir contra os alegados "eucaliptocratas" não é tão inocente e pueril como investir contra os moinhos de vento do Quixote. Bem pelo contrário.

Comecemos pelo princípio: se todos estamos de acordo que na origem da tragédia de Pedrógão Grande está uma floresta mal ordenada e mal tratada num território desertificado, a questão que temos de colocar é dupla: como contrariar a desertificação e como tornar a floresta uma fonte de riqueza capaz de ajudar à fixação de populações que a cuidem e tratem.

A resposta dos ignorantes é que terras como as de Pedrógão Grande estão desertificadas porque foram abandonadas ao eucalipto (alguns, menos cegos, talvez acrescentem que também foram abandonadas ao pinheiro-bravo), mas essa é uma resposta errada. Não só o abandono começou muito antes da chegada das grandes plantações de eucalipto, como para muitos do que ainda aí residem em meio rural o rendimento que tiram do eucalipto é dos poucos que lhes sobram. Tal como é o rendimento do pinheiro-bravo, de que vendem a madeira e de que ainda exploram a resina (cada vez menos).

E porque é que as pessoas plantam eucaliptos? Afinal nos três concelhos inicialmente afectados não há plantações das empresas de celulose (há uma quinta da Altri na região, mas é já no concelho de Góis). Há várias razões. Primeiro, o retorno do investimento no eucalipto é mais rápido: em oito a dez anos é possível cortar e vender as árvores. O rendimento é mais baixo do que o do pinheiro, mas quando estamos em áreas onde as florestas ardem de 12 em 12 ou de 15 em 15 anos (o tempo necessário para se acumular o material combustível que as transformam em barris de pólvora), o investimento também é mais seguro: é cada vez mais raro ver um pinhal crescer até aos 25 anos, idade boa para um corte.

Por outras palavras: não é necessário que os "abutres das celuloses" andem a rondar para as populações plantarem eucaliptos, às vezes a par com pinheiros, às vezes em todos os hectares disponíveis. Se quisermos que mudem de comportamento temos de encontrar os incentivos correctos, mas não se imagine que o Estado seria melhor proprietário e gestor, pois não é raro encontrarmos terremos públicos ao abandono (bem pelo contrário).

Mais: se conhecermos o terreno saberemos que as áreas melhor tratadas são, por regra, as que são geridas pelas empresas de celuloses. E com resultados, pois raramente ardem, quando ardem é sobretudo porque sofrem o impacto de fogos vindos de terrenos contíguos e, mesmo assim, registam uma relação área plantada/área ardida de 0,3%, cerca de dez vezes mais baixa à registada na média nacional se considerarmos apenas os povoamentos florestais.

Isto acontece porque nessas florestas "das celuloses" (e apenas um quinto das plantações de eucalipto pertencem directamente a essas empresas) se trabalha no Inverno e na Primavera para prevenir os fogos de Verão, porque há zonas de descontinuidade e porque há corpos profissionais de bombeiros que conhecem o terreno e sabem exactamente onde podem parar um fogo. Ainda agora neste grande incêndio vimos os bombeiros à espera do fogo nas estradas ou na protecção das aldeias, enquanto as equipas da única empresa afectada estavam na floresta, curiosamente apoiados pelos bombeiros galegos que estavam encostados e sem fazer nada porque, como disse a ministra, não havia missão para lhes entregar. Resultado: dos 600 hectares de plantação da Altri em Góis (400 de eucalipto, 200 de pinheiro), apenas arderam 14.

E só mais uma nota: quem já esteve no terreno depois do incêndio notou (e eu já vi as fotografias) que entre as raras manchas verdes que resistiram numa paisagem totalmente negra estão algumas plantações recentes de eucaliptos. Estranho? Não se pensarmos que nesses terrenos há menos combustível acumulado e houve cuidado para que as árvores novos pudessem crescer.

Servem estes exemplos apenas para sublinhar um ponto: nunca conseguiremos reformar, reordenar e tratar a floresta portuguesa se quisermos destruir, ou mesmo apenas diabolizar, a única fileira florestal integrada e a que gera mais dinheiro e recursos. Ou seja, necessitamos do eucalipto e das suas receitas não apenas para que não desapareça totalmente a economia do interior despovoado, como necessitamos dos recursos que a exploração do eucalipto pode gerar para investir noutro tipo de floresta.

E escrevo tudo isto sem nenhuma espécie de simpatia pelo eucalipto, espécie que importámos da Austrália e me é estranha – escrevo-o antes na convicção de que sem esses recursos o que está abandonado mais abandonado ficará, e que em vez de eucaliptos e pinheiros veremos as nossas serras cobertas pela pior das espécies invasoras, as acácias, que não só alimentam o fogo como se alimentam dele.

Claro que tudo isto faz imensa confusão ao Bloco e deve fazer ainda mais confusão ao dr. Louçã, pois significa envolver empresas, e empresas grandes, e empresas que exportam, e empresas que dão lucro e criam emprego. Porém se escutarmos as poucas vozes sensatas que ainda se vão ouvindo no meio de toda esta vozearia até encontramos algumas sugestões inteligentes sobre como isso poderia ser feito.

Foi isso mesmo que encontrei num post de um especialista, Henrique Pereira dos Santos, em que este cita um responsável florestal da Altri, o holandês Henk Feith, que alvitra algo que me pareceu bastante sensato: a criação de "créditos de biodiversidade". A sua ideia é que o plantio e exploração de espécies "comerciais" – como o eucalipto, mas também como o pinheiro-bravo, o pinheiro-manso e até o sobreiro – suportaria o plantio de espécies nativas "não comerciais". Seria, explica ele, "um pouco como o mercado de carbono, mas para floresta nativa. Uma fábrica que emite CO2 tem de comprar créditos de carbono; uma floresta comercial pode ter de comprar créditos de floresta de conservação. Quem planta 10 hectares de floresta de produção tem de ter ou financiar um hectare de floresta de conservação. Assim, o investimento florestal impulsiona a conservação da floresta. Em vez de proibir, promove-se o equilíbrio."

É viável? Não vejo porque não. E o que sei é que o proibicionismo cego dos "eucaliptofobos" não resolve problema nenhum, antes se arrisca a agravar ainda mais os que já temos. Escrevo sobre fogos e floresta há mais de 30 anos, cheguei a percorrer o país com a intenção de demonstrar os males do eucalipto (uma das minhas derradeiras investigações para o Expresso, no longínquo ano de 1989), nunca recebi um tostão de qualquer empresa de celuloses (esta deixo aqui só para os que estão a espumar desde o primeiro parágrafo), mas prefiro o conhecimento ao preconceito. E, até porque não ando à cata de votos fáceis, não entro em demagogias. Não posso dizer o mesmo das carinhas larocas do Bloco, e até peço desculpa a Jerónimo de Sousa por assim o citar.

Investigadores anunciam nova categoria de vinho "Pinking"


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Uma investigação com origem na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) identificou uma categoria de vinho "nova" e "única no mundo", o "Pinking", que tem pedido de patente registada, anunciou hoje a academia transmontana.

Segundo explicou a UTAD, localizada em Vila Real, o "Pinking" teve origem num trabalho de investigação de mestrado em Enologia, tem já um pedido de patente nacional e internacional e vai ser lançado pela Adega Cooperativa de Figueira de Castelo Rodrigo a 07 de julho.

"O que se pensou inicialmente ser um defeito de produção, afinal deu origem a uma nova categoria de vinho única no mundo", afirmou, em comunicado, Jenny Silva, enóloga da Adega Cooperativa de Figueira de Castelo Rodrigo.

Foi esta especialista que, em 2014, como estudante de mestrado de Enologia na UTAD, identificou o fenómeno "Pinking" em conjunto com Fernando Nunes e Fernanda Cosme, docentes e investigadores do Centro de Química da UTAD.

Trata-se, de acordo com Fernando Nunes, de um "defeito" historicamente conhecido pelo processo de "aparecimento de uma cor rosa-salmão em vinhos produzidos exclusivamente de uvas de castas brancas".

"É um processo natural e está relacionado com as condições climáticas, nomeadamente a temperatura média dos dez primeiros dias do mês de outubro, processo coincidente com o final de maturação das uvas brancas nesta região", explicou.

São precisamente estas condições que tornam, segundo o investigador, esta categoria de vinho "tão rara e passível de não poder ser produzida todos os anos, já que, em caso de temperaturas médias altas ou pluviosidade neste período, o fenómeno não ocorre ou ocorre em menor escala".

Esta "nova categoria de vinho", que adotou o nome do fenómeno, vai ser lançada a 07 de julho pela Adega Cooperativa Figueira de Castelo Rodrigo, que entretanto adquiriu a patente à UTAD, e tem precisamente como enóloga responsável Jenny Silva.

O vinho Castelo Rodrigo Pinking 2016 é um DOC, exclusivamente vinificado a partir da casta branca Síria, a casta de eleição na Região Demarcada da Beira Interior, apresentando "aroma frutado e boca equilibrada com final harmonioso".

Esta cooperativa estava confrontada com um problema comum naquela região, a cor rosada do vinho branco, cujo tratamento implicava um processo de estabilização associado a elevados custos, e, por isso, deu "luz verde" à UTAD para estudar e identificar a base daquela instabilidade.

O processo foi publicado na revista científica internacional "Journal of Agricultural and Food Chemistry" e, segundo a UTAD, está a despertar o interesse de produtores italianos, confrontados com o mesmo problema.

"No fundo transformámos um defeito numa nova categoria de vinhos, que irá para o mercado a par dos Brancos, Tintos e Rosés", concluiu a enóloga.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Associações querem responsabilidade criminal para quem não cumpre lei da floresta

28/6/2017, 15:10

A Quercus e a Acréscimo consideram que o problema dos fogos se deve à falta de vontade política dos governos para ações práticas e defendem a responsabilidade criminal para quem não cumpre a lei.

"A expansão de culturas lenhosas em regime de monocultura tem tido impactos desastrosos no território e nas populações", alertam a Quercus e a Acréscimo
PAULO NOVAIS/LUSA


A Quercus e a Acréscimo consideram que o problema dos fogos florestais se deve à falta de vontade política dos governos para ações práticas e defendem a responsabilidade criminal para quem não cumpre a lei da defesa das florestas contra incêndios.

O problema dos fogos florestais em Portugal persiste por não ter havido ainda vontade política por parte dos sucessivos governos em implementar ações práticas e eficazes e cuja necessidade é consensual na sociedade portuguesa", apontam as duas associações, em comunicado divulgado esta quarta-feira.
A associação de defesa do ambiente Quercus e a Acréscimo – Associação de Promoção ao Investimento Florestal listaram 12 medidas que vão apresentar na Assembleia da República e pedem que sejam concretizadas com urgência.

As medidas incluem alterações à legislação de Defesa da Floresta Contra Incêndios (DFCI), instrumentos de ordenamento do território "fáceis de cumprir", ações de reestruturação fundiária e regras relacionadas com o licenciamento industrial e mercados.

As associações apontam que a legislação portuguesa de DFCI "é bastante completa e poderia, se fosse cumprida, ser um fator importante com implicações na redução de combustíveis", o que seria "relevante" para a diminuição de frequência de fogos de grande dimensão e intensidade.

As duas entidades propõem a atribuição de responsabilidades cíveis e criminais a quem não a cumpra e a quem não a faça cumprir e lembram que "o combate à ilegalidade é um imperativo nacional, também no que respeita à floresta, e o país não pode mais deixar impunes quem coloca comunidades inteiras em risco de vida".

Na lista está a criação de instrumentos de ordenamento do território fáceis de cumprir para "combater a predominância das monoculturas florestais e de modo a quebrar o círculo vicioso de expansão do eucalipto".

Aliás, defendem mesmo a "proibição total de novas áreas com plantações de espécies de rápido crescimento, em particular de eucalipto" e a responsabilização criminal de quem faça ações de arborização ou rearborização sem licença.

Para a Quercus e a Acréscimo deve ser obrigatória a plantação de plantas folhosas pouco combustíveis ao longo da rede viária, tanto municipal, como nacional, numa faixa de, pelo menos, 20 metros de cada lado.

Defendem que as manchas de folhosas autóctones pouco combustíveis e a vegetação ribeirinha devem ter proteção legal ao mesmo tempo que apontam a obrigatoriedade de licenciamento para todas as arborizações, com parecer vinculativo da autarquia, tornando obrigatório que 20% da área seja de folhosas.

As associações querem que seja igualmente obrigatório o emparcelamento florestal, promovido pela Administração Central, em algumas freguesias, podendo ter incentivos à instalação de culturas florestais, para madeira ou fruto, que não o eucalipto.

"Ampliar o património florestal público no interior de áreas protegidas e classificadas, através de compras e/ou expropriações", para garantir a segurança ou em locais com ecossistemas florestais relevantes para a conservação da biodiversidade é outra das propostas.

Para aquelas entidades também é necessária a criação de um sistema de rastreio à comercialização de materiais de reprodução florestal para permitir uma fiscalização eficiente quanto ao seu destino final.

"A expansão de culturas lenhosas em regime de monocultura tem tido impactos desastrosos no território e nas populações", alertam a Quercus e a Acréscimo, defendendo que os recursos da floresta devem ser geridos de modo sustentável e que todos os cidadãos têm a responsabilidade de conservar a floresta.