domingo, 25 de março de 2018

Água: Medidas mais sustentáveis na agricultura ajudam na escassez, mas não chegam - FAO


A adoção de medidas mais sustentáveis na agricultura vai ajudar a conter a escassez de água que ameaça o mundo, mas não chega para solucionar os problemas deste recurso, afirmou hoje um responsável da FAO.

"A agricultura, como é praticada hoje, é responsável pela utilização de 70% da água potável no mundo", admitiu o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), José Graziano da Silva, numa mensagem enviada ao Fórum Mundial da Água, que decorre até sexta-feira em Brasília, no Brasil.

Segundo José Graziano da Silva, "muitos pensam que a agricultura é um vilão, porque usa e contamina a água ou ameaça a sustentabilidade do planeta", mas esse setor produz os alimentos que todo o mundo consome, pelo que a resolução desses problemas deve ser comum e realizada em conjunto.

"Não haverá qualquer solução para os problemas da água de hoje sem abordar os sistemas de produção de alimentos e sem abordar os problemas da agricultura", salientou o diretor geral da FAO.

A FAO, recordou, trabalha para reduzir o número de pessoas que sofrem devido à escassez de água e promove a sua utilização sustentável, o que implica produzir alimentos "com menos água e com menor impacto ambiental".

A relação entre alimentação, água e agricultura leva também à necessidade de criar uma consciência sobre o elevado desperdício de comida em muitos países.

Na opinião de José Graziano da Silva, cada alimento perdido desperdiça também parte da água que escasseia no mundo.

A falta de água pode, segundo a ONU, levar a "conflitos" ao longo deste século.

O 8.º Fórum Mundial da Água, que começou na segunda-feira, junta delegações de 150 países, incluindo Portugal, e empresas do setor da água para debater os problemas deste recurso e formas para a sua utilização mais sustentável.

Cultura do caju devia ser bem tratada porque evita fome na Guiné-Bissau - associação

O presidente da Associação de Agricultores da Guiné-Bissau (ANAG), Jaime Gomes, defendeu hoje que o caju pode evitar a fome no país e criticou a forma como aquele produto é tratado pelas autoridades.

Dados do Governo guineense apontam o país como sendo o quinto maior produtor mundial da castanha do caju, com cerca de 200 mil toneladas anuais, e Jaime Gomes acrescenta que cerca mais de 85% da população rural vive do caju.

O presidente da ANAG disse que "faltam políticas realistas" do Governo para "melhorar e fazer render mais" o caju da Guiné-Bissau cuja produção "poderia facilmente" atingir o "duplo ou triplo" da safra atual.

Jaime Gomes, que considera o caju, o "jazigo mais precioso que a Guiné-Bissau tem", adiantou, que se não houver uma "política realista e imediata" muitos pomares, nomeadamente nas regiões de Biombo (nordeste) e Bolama/Bijagós, no sul, poderão desaparecer.

Segundo Jaime Gomes, pragas estão a "dar cabo" das plantas velhas, nomeadamente as que foram plantadas na década de 1950.

O líder dos agricultores guineense disse estar triste pelo facto de não estar a vislumbrar "nenhuma resposta prática" do Ministério da Agricultura perante a praga que os camponeses designaram de 'serra-caju', insetos que cortam os ramos até deixar o cajueiro doente e morto.

"Há outras pragas que atacam o caule, há outras que atacam as folhas, outras ainda que comem as flores", sublinhou Jaime Gomes, que apela à intervenção do Governo e do Banco Mundial, uma das mais ativas instituições que apoiam o setor do caju do país.

No próximo dia 28, na vila de Nhacra, a 40 quilómetros de Bissau, deve ser aberta a campanha oficial de comercialização do caju, mas até àquela data, Jaime Gomes exorta os agricultores a não venderem o seu produto por menos de 500 francos CFA (cerca de 0,76 cêntimos de euro) o quilo.

O presidente da ANAG disse ter já informações de que em algumas zonas do país o caju está a ser comprado, por comerciantes, a 350 francos CFA, com a alegação de que o Governo ainda não fixou o preço de referência mínima.

"Não há o preço de referência mínima este ano, mas há o preço do ano passado", observou Jaime Gomes.

'Alqueva do Ribatejo' é apresentado esta quarta-feira ao Presidente da República


20.03.2018 às 14h40


Os partidos políticos já foram oficialmente informados e alguns bancos estão interessados no financiamento, mas os fundos europeus serão determinantes. O Projeto Tejo requer um investimento de €4,5 mil milhões


Os promotores do Projeto Tejo reúnem-se esta quarta-feira com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Os empresários Manuel e Miguel Campilho e o especialista em planeamento agrícola Jorge Froes descolam-se ao Palácio de Belém, da parte da tarde, para apresentarem formalmente o Projeto Tejo ao Presidente da República.

Aquele que já é conhecido por 'Alqueva do Ribatejo' prevê um investimento de €4,5 mil milhões para a criação de um empreendimento de regadio a 30 anos e que tornará o Tejo navegável entre Lisboa e Abrantes.

O projeto vai levar água a 300 mil hectares do Ribatejo, Península de Setúbal e região Oeste. Ou seja, uma área que é quase o dobro da que Alqueva irá regar quando a obra estiver finalmente concluído.

Três semanas depois de o Expresso ter noticiado o Projeto Tejo em primeira-mão, os seus promotores prosseguem uma ronda de contactos com os partidos políticos, com as comunidades intermunicipais da região ribatejana e também com as comissões de Economia, Agricultura, Ambiente e Negócios Estrangeiros, da Assembleia da República.

O Expresso sabe que o Projeto Tejo também já foi apresentado a dois bancos (há mais um na calha) que se mostraram interessados numa eventual parceria financeira para o empreendimento. No entanto, segundo os seus promotores, o acesso a fundos europeus será "absolutamente determinante".

O Governo, através do ministro da Agricultura, Capoulas Santos e do secretário de Estado da Agricultura, Luís Vieira, também já tem conhecimento da estrutura que está a ser preparada há vários meses.

O grupo de promotores procura agora cobertura política e institucional para a iniciativa e está já a estudar como será o modelo de gestão deste mega-empreendimento. Da equipa fundadora do projeto fazem ainda parte o consultor e ex-ministro da Economia Augusto Mateus e o professor catedrático e especialista em questões agrícolas Francisco Avilez.

Está prevista a construção de seis ou sete açudes em vez de uma grande albufeira. Ficarão espaçados em cerca de 20 quilómetros uns dos outros e irão suceder-se entre Vila Franca de Xira e Abrantes.

Ovibeja lança reflexão sobre desafios do futuro


A Comissão Organizadora da 35ª Ovibeja está a trabalhar a programação de colóquios e debates sobre temas da actualidade, um dos destaques é a discussão e reflexão sobre a PAC pós 2020.


Informar, refletir e recolher contributos são alguns dos objectivos deste colóquio que está a ser organizado pela ACOS-Agricultores do Sul, entidade organizadora da Ovibeja. O colóquio que vai decorrer no dia 30 de Abril vai contar com a presença de especialistas em questões estratégicas da agricultura actual, membros do Governo e agricultores.

Claudino Matos, director geral da ACOS, afirma que é importante discutir aquilo que se pode esperar da PAC pós 2020.

O tema principal da edição deste ano da Ovibeja reforça o foco na Internacionalização, através da promoção e divulgação dos produtos de origem vegetal, enquadrados no projecto AgroAlentejoExport, transversal a toda a feira. Neste capítulo, a mensagem da Comissão Organizadora da Ovibeja incide sobre a necessidade de trabalhar a excelência, aliada à inovação como forma de captar novos mercados.

Da programação para esta edição faz ainda parte uma exposição ilustrativa dos principais marcos do percurso dos 35 anos da Ovibeja, Claudino Matos revela que um dos objectivo é recordar alguns momentos marcantes do evento e prestar homenagem a quem deu o seu contributo à feira.

A ACOS-Agricultores do Sul revela ainda que para visitar a feira, já é possível adquirir bilhetes e livre-trânsito online, nos locais habituais da Bilheteira Online-BOL, e que pode também ser acedida no site da feira em www.ovibeja.pt. Através das novas aplicações, o código do bilhete pode ser apresentado à entrada nas plataformas digitais, sem necessidade de impressão.

Ministro do Ambiente acredita em ano agrícola normal ou até “mais do que isso”


19/3/2018, 14:50

O ministro da Agricultura disse em Bruxelas que, face à precipitação que se tem registado, já se resolveu o problema da alimentação e abeberamento animal.


O ministro da Agricultura disse esta segunda-feira em Bruxelas que, face à precipitação que se tem registado, já se resolveu o problema da alimentação e abeberamento animal e que este poderá ser "um ano agrícola normal" ou até "mais do que isso".

"A situação de seca, digamos, alterou-se muito substancialmente, porque nós tivemos nos primeiros dias de março uma pluviosidade absolutamente anormal — choveu em 10 dias tanto quanto em dois meses de março normais — e, portanto, houve uma grande afluência de águas às barragens", começou por referir Luís Capoulas Santos em declarações aos jornalistas, à margem de uma reunião de ministros da Agricultura da União Europeia.


Apontando que, "neste momento, mais de 20 barragens já estão com mais de 80% da capacidade", o ministro admitiu que "persistem alguns problemas no Sul, nas bacias do Sado e do Guadiana", mas ressalvou que "mesmo os casos problemáticos do Sado devem estar hoje acima dos 50%, o que já permite o exercício de uma atividade agrícola quase normal".

"Enfim, o pior que nos poderia acontecer agora, e perdoem-me a ironia, é que a chuva continuasse de tal modo persistente que viesse causar dificuldades às culturas de primavera-verão que vão iniciar-se dentro de pouco tempo, como o tomate e as hortícolas", assinalou.

Contudo, "se tal não suceder, como parece ser previsível", Capoulas Santos disse estar convicto de que "a precipitação caída não só resolveu o problema da alimentação animal, porque com as temperaturas a subirem e com esta humidade os pastos vão crescer muito rapidamente", como também "o problema do abeberamento animal, pois praticamente todas as charcas e reservatórios estão a transbordar, mesmo no sul do país".

Além disso, sublinhou, a precipitação registada foi "muito importante para as culturas permanentes — a vinha, o olival, os pomares –, que, com esta chuva, viram carregada a quantidade adequada de humidade no solo".

"Portanto, acho que se a situação climática continuar nestes termos, acho que poderemos vir a ter um ano agrícola normal, e gostaria até que pudesse ser mais do que isso", concluiu.

Capoulas Santos admite "fricção" entre 28 sobre apoios aos agricultores na futura PAC


O ministro da Agricultura admitiu hoje, em Bruxelas, que há divergências entre os Estados-membros sobre "questões sensíveis" da reforma da Política Agrícola Comum (PAC) "importantes para Portugal", destacando a "fricção" em torno da convergência dos apoios aos agricultores.

Em declarações aos jornalistas à margem de um Conselho de ministros da Agricultura da União Europeia, numa "fase muito importante do processo de negociação da reforma da PAC", já que o Conselho deve adotar uma primeira posição sobre o documento apresentado pela Comissão Europeia em novembro passado, Luís Capoulas Santos disse que a reunião de hoje revelou "pontos de divergência" sobre "questões sensíveis", apontando "como a mais importante de todas elas a questão da convergência dos apoios entre Estados-membros".

Capoulas Santos apontou que em causa estão os apoios aos agricultores por hectare, matéria na qual persistem grandes assimetrias entre os Estados-membros, apesar de ter sido iniciado na anterior reforma da PAC um processo de convergência que Portugal quer ver continuado.

"Naturalmente que aqueles que mais recebem resistem ferozmente à possibilidade de poderem vir a receber um pouco menos para que aqueles que recebem menos possam receber um pouco mais", disse, apontando que foi precisamente esta "a questão que mais fricção suscitou à volta do documento da presidência" discutido pelos ministros.

Luís Capoulas Santos explicou que "Portugal neste momento recebe cerca de 200 euros por hectare, em média, no primeiro pilar", quando "a média comunitária ronda os 250 euros", sendo que alguns recebem cerca de 500 euros "e há quem receba muito menos do que 200 euros".

"A posição portuguesa é que este processo seja gradativo, em que progressivamente, cada ano, os Estados-membros que mais recebem vão perdendo um pouco das ajudas para aqueles que menos recebem vão aumentando, para que no médio prazo o pagamento seja uniforme", disse.

Referindo que vários Estados-membros, designadamente os grandes pagadores, "resistem à igualização dos apoios", enquanto outros defendem "uma convergência muito acelerada" -- que os apoios passem a ser uniformes já no próximo quadro financeiro plurianual pós-2020 (2021-2027) --, o ministro disse que "Portugal está numa posição responsável", defendendo a convergência, mas num "processo com pragmatismo, que possa seduzir os principais pagadores".

Questionado sobre qual a meta que o deixaria satisfeito, Capoulas Santos disse que, para Portugal, "tudo o que seja subir acima dos 200 euros em média é bom", mas admitiu que a ambição vai além disso, embora sem ilusões.

"Penso que não é responsável nem credível dizer que gostaríamos de passar para a média imediatamente neste período (novo quadro financeiro pós-2020), mas eu diria que se nos conseguíssemos aproximar para mais da metade da diferença atual seria um bom resultado", resumiu.

Capoulas Santos acrescentou que ainda referiu outras questões que considera omissas nos documentos que estão sobre a mesa das negociações atualmente, "a mais grave das quais" o facto de não haver "nenhuma referência à discriminação positiva que deve ser dada à pequena agricultura", assim como "a importância de que a componente do desenvolvimento rural seja contemplada de forma adequada".

Esta, sublinhou, é uma questão particularmente importante para Portugal, pois é no desenvolvimento rural que estão contemplados "os apoios para a floresta", e Portugal quer "alargar as elegibilidades e, no próximo período de programação, dar um grande enfoque à reforma da floresta, que é um projeto de grande fôlego, para mais do que uma geração, no qual o Governo está fortemente empenhado, e naturalmente os apoios que conseguir no próximo quadro são fundamentais para avançar tão rapidamente quando possível na alteração do perfil da floresta" no país.

Reportagem. António Costa: 6 minutos e 47 segundos a limpar floresta


24/3/2018, 21:424.563

Costa vestiu-se a rigor, pegou na roçadora e ajudou na limpeza da Serra de São Mamede. Ele e os outros 20 membros do Governo, que estiveram por todo o país. Marketing? Não, campanha de sensibilização.


"É importante não pôr a máquina muito perto do chão, que podem saltar pedras", segreda Capoulas Santos. António Costa escuta com atenção. Está equipado da cabeça aos pés: proteção para as canelas, casaco amarelo, óculos e viseira, protetor auricular e um vistoso capacete amarelo. Já tem a roçadora nas mãos. Chegou a hora de mostrar o que vale. Avançou hesitante, como quem apalpava terreno. Evitou as pedras, como aconselhara Capoulas Santos, e foi tentando encontrar o melhor ritmo, sempre sob olhar atento do (verdadeiro) sapador florestal, que ia corrigindo os gestos menos seguros. Lá ao longe, o ministro da Agricultura seguia alegremente o seu trabalho, sem aparente dificuldade. Como se estivesse habituado. "Se tivesse de contratar alguém, contratava o outro. O primeiro-ministro não tem muito jeito para isto", ouviu o Observador entre a pequena multidão que assistia às proezas dos dois.

Seis minutos e 47 segundos. Durante rigorosamente seis minutos e 47 segundos, o primeiro-ministro vestiu a pele de sapador florestal, pegou na roçadora e limpou o terreno. Ok, não foi necessariamente durante todos os seis minutos e 47 segundos — pelo meio, três minutos depois de ter começado, António Costa esqueceu-se de "dar corda" ao aparelho e o carreto travou. "Já encravou a máquina", ria-se alguém na assistência. O improvisado assistente operacional corrigiu o problema em segundos e lá voltou António Costa à sua brevíssima missão.

"Tinha curiosidade em ver como é que era. E é um trabalho duro [o de sapador florestal] e tem que se ter cuidado para não se bater na pedra, para não se cortar os rebentos das árvores. É um trabalho de grande valor e muito duro, mas precioso", assumiria no fim, aos jornalistas, em plena Serra de São Mamede.

António Costa chegara a Portalegre de helicóptero, depois de começar o dia bem cedo em Loulé. Saiu de carro de Lisboa, acompanhado pelos membros do seu gabinete, o ministro Luís Capoulas Santos e Mariana Vieira da Silva, a secretária de Estado adjunta do primeiro-ministro. Apresentou-se vestido a rigor: botas resistentes (e que jeito deram, para enfrentar a lama e os ramos caídos), calças verdes e o mesmo casaco verde aos quadrados que já usou noutras ocasiões menos formais — e que nem passou despercebido na comitiva que acompanhava António Costa.

Ao início da manhã, no Algarve, tinha resistido a pegar na enxada. Em Portalegre, não. Depois de uma primeira ronda de cumprimentos aos militares das Forças Armadas e aos sapadores que ajudavam na limpeza — "Então, tudo bem? Como é que isso está a correr?" — , ia atirando, aqui e ali, o primeiro-ministro), António Costa lançou-se ao serviço.

O primeiro-ministro prometera dar o exemplo e foi isso que fez. Ele e os restantes 19 membros do Governo que este sábado estiveram a assistir aos trabalhos de limpeza florestal que se vão fazendo de norte a sul do país, numa campanha que Rui Rio, líder do PSD, resumiu a "ação de marketing, para desviar as atenções do essencial". E o essencial, sugeriu Rio, é que o Governo socialista falhou no ataque aos incêndios de junho e outubro e não está a fazer tudo ao seu alcance para evitar novo desastre.

O primeiro-ministro não acusou a crítica. Pelo menos, aparentemente. Em Torres Vedras, a mais de 230 quilómetros de Portalegre, confrontado pelos jornalistas com as declarações de Rui Rio, António Costa assumiu que sim, que esta campanha se tratava de uma "ação de comunicação". Mas pelos bons motivos, jurou o socialista. "Serve para alertar e incentivar o país a prosseguir esta ação absolutamente fundamental para cumprir a lei em redor das casas e das comunicações, das vias de comunicação ou de eletricidade, e ter matas limpas sem material combustível acumulado, porque quando mais limparmos agora mais eliminamos o risco."

Ação de marketing ou não, a máquina do terreno estava bem oleada. Em Torres Vedras, estava tudo pronto preparado para receber o primeiro-ministro na sua última ação do dia. Não fosse um pequeno percalço: depois de terminar a ação de Portalegre, António Costa atrasou-se e deixou a comitiva que o aguardava mais de uma hora à espera em Torres Vedras. Os sapadores florestais iam cumprindo o papel que lhes estava atribuído, devastando a vegetação rasteira com a mesma roçadora que o primeiro-ministro usara, horas antes, no norte do Alentejo. Mas a comitiva tanto esperou, que já se faziam piadas: "É melhor pararem. Daqui a pouco o senhor primeiro-ministro chega e não temos nada para mostrar".

Às 16h35, a chegada dos representantes da Proteção Civil, dos bombeiros e do secretário de Estado das Infraestruturas, Guilherme W. d' Oliveira Martins, anunciava a iminente entrada de António Costa em cena. No terreno, junto à pequena tenda branca improvisada à beira da estrada, já se encontrava António Laranjo, presidente da Infraestruturas de Portugal, e o autarca local. Ao todo, eram cerca de 50 pessoas, preparadas e ansiosas para receber António Costa, na Estrada Nacional 368, em direção a Campelos.

O primeiro-ministro chegou já o relógio marcava as 16h40 — uma hora e 20 minutos depois do combinado. Cumprimentou os presentes, dirigiu um ou outro comentário aos homens que se esforçavam na limpeza dos terrenos, fez uma pequena ronda para inspecionar o estado das coisas e juntou-se finalmente a António Laranjo, para ouvir o ponto de situação dos trabalhos de limpeza conduzidos pela Infraestruturas de Portugal.

Mesmo num ambiente controlado, António Costa não se livrou de críticas. Enquanto falava aos presentes, foi interrompido por uma voz masculina: "Então, e isto é só este ano!?". O primeiro-ministro garantiria que não, que o esforço começado este ano — depois de anos e anos de abandono e desleixo das matas e florestas –, seria para continuar nos próximos. À segunda, o mesmo morador tinha uma queixa concreta para fazer: "Vendi os meus eucaliptos por 800 euros e gastei 600 euros a cortar os cepos, senhor primeiro-ministro. Acha que isto é justo? Pergunte ao Mário Centeno, não é o seu ministro das Finanças? Tenho a quarta classe mas não sou burro. Diga-me: é justo? Se as câmaras não tivessem ligadas não dizia que sim", insurgia-se o homem de meia-idade.

António Costa não cedeu. Não agora, nem antes. Confrontado pelos jornalistas com as multas que serão aplicadas aos proprietários que não limpem as matas, o primeiro-ministro disse que o objetivo do "Governo não é cobrar multas", mas garantir a limpeza da floresta — a melhor forma de prevenir futuros incêndios como os de junho e outubro. Desta vez, o socialista ainda reconheceu que o seu interlocutor até podia ter razão — afinal, segundo a versão dos factos apresentada pelo próprio, teria tido autorização prévia para construir uma casa perto de uma zona de eucaliptos; mas rematou a questão de forma taxativa:

O que é que quer que lhe diga? A segurança de todos está acima disso tudo", respondeu Costa.

No final, só ficaram por justificar os atrasos na preparação da época de fogos — como as dificuldades na contratação de meios aéreos. Numa altura em que estão por contratar 40 dos 50 meios aéreos previstos, António Costa ainda admitiu que é "necessário preparar os meios de combate", mas centrou a mensagem na necessidade de prevenir. "Prevenir é melhor do que remediar. Neste momento é prioritário que cada um faça no momento certo aquilo que deve ser feito. Até dia 31 maio devemos fazer o esforço para eliminação das condições de risco porque quanto menor for o risco menor é a probabilidade de virmos a ter uma tragédia", insistiu o primeiro-ministro.

Quanto ao relatório da comissão técnica independente que analisou os incêndios de outubro — e que criticava, precisamente, algumas das novas regras de limpeza da floresta adotadas pelo Governo –, poucas palavras de António Costa.  "É um relatório que merece ser lido com calma para serem tiradas todas as ilações. Mas é certamente um contributo muito importante", rematou o primeiro-ministro, antes de deixar a mata e zarpar até à política, para o encerramento do congresso federativo da Área Urbana de Lisboa do PS, em Sintra.

Tribunal de Contas Europeu quer política agrícola a complementar coesão e ambiente


O Tribunal de Contas Europeu (TCE) quer que os objetivos da futura Política Agrícola Comum (PAC) complementem o desenvolvimento de outras vertentes comunitárias, como a coesão e o ambiente.

Num relatório hoje divulgado sobre a proposta da Comissão Europeia para a PAC pós-2020, o TCE sugere que "os objetivos da PAC devem ser consistentes com os de outras políticas (incluindo as de coesão, ação climática e proteção ambiental)".

"A melhoria da complementaridade da PAC com outras políticas da UE teria um desenvolvimento positivo", consideram os auditores.

O parecer defende ainda uma maior correspondência entre os resultados atingidos e o apoio financeiro, quer na relação entre a Comissão Europeia e os Estados-membros, quer entre estes e os beneficiários.

Ainda no que respeita ao financiamento, perante a possibilidade de ser introduzido cofinanciamento no primeiro pilar da PAC (o dos pagamentos diretos), o TCE alerta para o facto de que "a existência ou não de cofinanciamento tem uma forte influência no equilíbrio dos incentivos", acrescentando que "as taxas de cofinanciamento devem refletir o valor acrescentado da UE aos diferentes tipos e áreas de intervenção".

Em relação aos objetivos que cada país poderá traçar e aos planos estratégicos para o atingir -- que serão monitorizados por Bruxelas -- os auditores defendem que "a clareza e a abrangência" dos mesmos são "a chave para o sucesso da PAC pós-2020".

Os ministros da Agricultura dos 28 deverão manter hoje mais um debate sobre a comunicação de Bruxelas relativamente ao futuro da PAC, apresentada em novembro de 2017 e que prevê uma maior subsidiariedade a nível dos Estados-membros e mais flexibilidade nas opções de cada país para alcançar os objetivos traçados.

Vítimas dos incêndios exigem demissão de ministro da Agricultura e de direcção da CCDR Centro


O Movimento Associativo de Apoio às Vítimas dos Incêndios de Midões (MAAVIM) exigiu este sábado que o ministro da Agricultura e que a direcção da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC) se demitam.

Vítimas dos incêndios exigem demissão de ministro da Agricultura e de direcção da CCDR Centro

24 de março de 2018 às 13:49
O ministro da Agricultura e a direcção da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC) devem demitir-se, exige o Movimento Associativo de Apoio às Vítimas dos Incêndios de Midões (MAAVIM).

Em causa está, de acordo com o movimento, o facto de o ministério e a comissão não estarem a conceder apoios da mesma forma que aconteceu nos fogos de Junho de 2017 em Pedrógão Grande e não "conhecerem a realidade resultante dos incêndios de 15 de Outubro", também em 2017, que provocaram 48 mortos e milhões de euros de prejuízo, além da destruição de centenas de empresas, milhares de casas e uma vasta área florestal.
 
Esta associação tem reivindicado celeridade nos processos de pagamento nas indústrias ou habitação, a reabertura de linhas de apoios para os lesados agrícolas ou novas oportunidades de candidatura e ainda ajudas para a floresta, entre outras temáticas.

O movimento vai igualmente avançar com um processo conjunto contra o Estado português, pedindo por isso a todos os lesados pelos fogos que peçam junto das autoridades o "estatuto de vítima".

"A MAAVIM está a avançar com uma petição para a abertura dos apoios aos lesados dos incêndios, para que todos tenham acesso, sem burocracias, aos apoios aprovados em Assembleia da Republica, pela portaria 347/2017. Contamos já com mil assinaturas, mas queremos quatro mil assinaturas para levarmos o assunto à Assembleia da República", informou, em comunicado.

"Efectuámos cerca de uma centena de candidaturas aos projectos simples de restituição produtiva, num valor aproximado de 400 mil euros, e elaborámos 12 candidaturas ao Programa de Desenvolvimento Regional 2020, sem qualquer custo, num valor de mais de três milhões de euros", acrescentou.

O movimento sublinhou que isto só foi possível com os donativos de mais de 100 grupos de voluntários: "Os vários grupos de voluntários organizados e privados, onde a MAAVIM está incluída, como a associação que mais distribuiu ajuda nas zonas afectadas, ajudaram as mais de 300.000 pessoas afectadas pelos incêndios de Outubro".

 O movimento, que hoje fez um balanço da sua actividade, iniciativa que serviu igualmente para reivindicar apoios, vai enviar para a Presidência da República, para a Assembleia da República, para a Comissão Europeia e demais órgãos sociais um caderno reivindicativo com diversos documentos que comprovam a ausência de apoio estatal e com os diversos problemas que atingem os lesados pelos fogos de há cinco meses.

O extenso documento aponta problemas no sector da primeira habitação, floresta, segunda habitação, indústria, agricultura, nos canais de informação e ainda as dificuldades com que se deparam os emigrantes e os deslocados.

Entre várias outras exigências, pede-se ainda que o sistema de apoio dado após os incêndios de Pedrógão Grande, que mataram pelo menos 66 pessoas, seja replicado na região Centro, a mais atingida em Outubro de 2017.

A MAAVIM já distribuiu mais de 60 toneladas de batatas, 45 toneladas de alimentos, mais de seis mil produtos de higiene, mais de 20 mil peças de roupa, diversos brinquedos, 25 mil quilos de ração, 13 mil árvores (carvalhos, azinheiras, sobreiros, oliveiras, entre outras), 500 toneladas de material de construção (destacando-se 100 paletes de tijolo, 10 paletes de cimento e 15 toneladas de ferro), dezenas de alfaias e pequenas máquinas agrícolas, que se adquiriram com os donativos para os casos mais urgentes.

O movimento entregou ainda diverso mobiliário e centenas de electrodomésticos, assim como distribuiu mais de 200 toneladas de palha para alimentação animal, sementes para semear os campos, 500 cabazes de Natal e, hoje, mais de mil árvores de fruto, 500 oliveiras, mil quilos de maçã e mil compotas.

Através da MAAVIM, foram sinalizadas mais de três mil famílias, que foram ajudadas com diversos bens nos concelhos de Tábua, Oliveira Do Hospital, Arganil, Góis, Seia, Gouveia, Nelas, Carregal do Sal, Tondela, Santa Comba Dão, Mangualde, Penacova, Vila Nova de Poiares e Lousã.

sábado, 24 de março de 2018

Estação Zootécnica Nacional retoma "dinâmica" com 20 projetos de investigação em curso


Lusa
22 Março 2018 às 12:03

A Estação Zootécnica Nacional (EZN), em Santarém, tem aprovados 20 projetos de investigação, com um cofinanciamento de perto de dois milhões de euros, que permitem retomar a dinâmica que fez deste polo referência na investigação em produção animal.

"Se pensarmos que em 2016 tínhamos um projeto em curso, estamos com uma dinâmica muito boa, [com] um esforço muito grande" da equipa de 14 investigadores e nove técnicos superiores, disse à Lusa Olga Moreira, a coordenadora do Polo de Santarém do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), que recentemente recuperou o nome da EZN, pelo qual ainda é conhecido na região.

A EZN, única infraestrutura do país vocacionada para a investigação e experimentação nas áreas de sistemas de produção, reprodução e melhoramento animal, está instalada na Fonte Boa, no Vale de Santarém, numa quinta com 240 hectares.

Investigadores da EZN estão a trabalhar em projetos como a utilização de larvas de mosca soldado negro para a valorização de resíduos da agricultura; a substituição de cereais por subprodutos das agroindústrias na formulação de dietas para a engorda de borregos e de bovinos produzindo carne de qualidade diferenciada; e o controlo do parasitismo intestinal e de vegetação combustível, ao estudar as dietas selecionadas por cabras em pastoreio, numa lógica de reaproveitamento de recursos (economia circular).

Olga Moreira disse que muitos dos projetos em curso procuram já responder aos objetivos identificados para o Centro de Excelência para a Agricultura e a Agroindústria, estrutura a criar em parceria com um vasto conjunto de instituições, protocolada em abril de 2015 mas que aguarda financiamento comunitário para poder avançar, e que ambiciona funcionar como um "interface" com o tecido empresarial.

O projeto-piloto sobre o uso dos insetos envolve já três empresas, associações de agricultores e a EZN. Uma das empresas (Ingredient Odyssey) produz as larvas, a Agromais fornece os subprodutos agrícolas que iriam para aterro -- as primeiras 10 toneladas foram de resíduos de cebola e de batata -- e os investigadores estudam o uso das larvas ("engordadas" no processo de transformação dos subprodutos em fertilizantes agrícolas) para a alimentação animal.

"O seu uso está já autorizado para 'pet food' e para aquacultura, aguardando-se autorização para introdução na alimentação de aves", disse Olga Moreira, sublinhando o "teor de proteína muito elevado" deste componente.

No âmbito deste projeto, além da caracterização química das larvas, os investigadores estão agora a estudar a digestibilidade das larvas em modelo de simulação para porcos e a ensaiar a substituição da soja por farinha de insetos na alimentação de frangos em engorda, avaliando ainda o impacto ambiental.

Olga Moreira destacou outra investigação em curso que visa utilizar subprodutos agroindustriais para a promoção e valorização da carne de ruminantes e que passa pela engorda de borregos com dietas em que os subprodutos da agroindústria (nomeadamente de citrinos, de beterraba e de soja) são utilizados em substituição dos cereais. O objetivo é obter carnes com maior valor nutricional, numa experimentação que será alargada em maio a bovinos.

Ainda na lógica da economia circular, no Grupo Operacional GoEfluentes, estão também a ser usadas larvas de mosca soldado negro para a transformação de efluentes em resíduos orgânicos para fertilização agrícola. Neste caso, as larvas não podem ser destinadas para alimentação animal, mas podem ser usadas para biocombustível.

Neste grupo estão envolvidos 11 parceiros, incluindo entidades do Sistema Científico e Tecnológico Nacional; associações de criadores (FPAS e ACBRF); industriais de alimentos compostos para animais; produtores de bovinos, de suínos e de aves (Valorgado, Lusiaves); e empresas, com o objetivo de reduzir e valorizar os fluxos gerados na atividade agropecuária intensiva.

No projeto das cabras em pastoreio, estão a ser analisadas a vegetação que estas selecionam numa área arbustiva mediterrânica para avaliar o seu efeito na melhoria da eficiência produtiva dos animais e no controle do parasitismo intestinal por métodos naturais.

A EZN participa ainda numa ação de dimensão europeia, relacionada com a castração de suínos e sua relação com o gosto da carne de porco, e que permite o intercâmbio de jovens investigadores com permanências que variam entre uma semana e três meses em diferentes centros de investigação europeus.

Frisando que estes projetos financiam a investigação mas não permitem investimentos estruturais, Olga Moreira referiu a importância da recuperação das infraestruturas da Fonte Boa, só possível com um "projeto estruturante" como o Centro de Excelência para a Agricultura e a Agroindústria, que tem entre os seus fundadores, além do INIAV e da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo, o Instituto Politécnico de Santarém, as Universidades de Lisboa e de Évora, o Agrocluster do Ribatejo e a Associação Empresarial da Região de Santarém.

Campanha do governo. Sapadores florestais aliciados com folgas para limpar matas com Costa


Sara Matos
ANA PETRONILHO*
23/03/2018 08:20

ICNF enviou orientações a dez autarquias que têm equipas de sapadores florestais no distrito de Portalegre, onde vai estar António Costa, para darem dois dias de folgas a quem aderir à limpeza de matas. Autarquias dizem que convocatória é "um absurdo de ridículo"

Os sapadores florestais estão a ser aliciados pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) com uma "recompensa" de dois dias de folga para que se juntem ao primeiro-ministro, este sábado, na limpeza das matas na Serra de São Mamede, no distrito de Portalegre.

Esta terá sido a forma encontrada pelo ICNF – que é o responsável pelo evento na Serra de S. Mamede – para conseguir aumentar a adesão e acompanhar António Costa nesta campanha que vai envolver "mais de 20 membros do governo" e tem várias ações que foram planeadas em parceria com a Associação Nacional de Municípios Portugueses.

As câmaras não veem com bons olhos a ordem dos dois dias de folga, tendo em conta que os sapadores florestais não são funcionários do ICNF, e sim das autarquias.

No email enviado pelo ICNF a dez autarquias de concelhos do distrito de Portalegre – a que o i teve acesso – lê-se que "tendo em conta a visita de sua Exa. o Sr. Primeiro Ministro à Serra de S. Mamede no próximo dia 24 de março, convocam-se as equipas de sapadores por vós dirigidas para cumprir um dia de serviço público em trabalhos de gestão de combustível nesse dia".

Na convocatória, com data de 21 de março, enviada às autarquias de Elvas (PS), Portalegre (independente), Nisa (PS), Alter do Chão (PS), Castelo de Vide (PSD), Fronteira (PSD), Sousel (PS), Avis (PCP), Crato (PS) e Marvão (PSD), lê-se ainda que o ICNF aguarda a confirmação da disponibilidade das equipas de sapadores florestais das câmaras municipais "para poder marcar horas e pontos de encontro". Para quem decidir aderir, "como recompensa serão creditados dois dias de serviço público para compensação do descanso pessoal", remata o email. Além das autarquias, o email foi também recebido pelo Agrupamento de Produtores Agrícolas e Florestais do Norte Alentejano, SA (APAFNA).

O i tentou perceber se a indicação do ICNF - tutelado pelo Ministério da Agricultura e Florestas - foi enviada a autarquias fora da área geográfica onde vai estar António Costa, mas tal não foi possível até à hora de fecho desta edição.

Para o vice-presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), Ribau Esteves, esta orientação escrita "é um absurdo de ridículo", isto porque, salienta o também presidente da autarquia de Aveiro, "uma câmara que tenha brigada de sapadores florestais tem um horário" e "se a câmara usar sapadores para a ação do próximo sábado que confira horas extraordinárias, as câmaras pagam horas extraordinárias e cumprem a lei que diz que por um x de horas extraordinárias temos de dar um dia de não trabalho". 

Além disso, refere ainda Ribau Esteves, se o email do ICNF for enviado no espírito de ordem, "estaremos a falar de um ato nulo porque o ICNF não tem competências desta natureza para dar ordens às câmaras municipais", remata. 

Os sapadores florestais foram criados em 1999 e cada equipa é constituída, no mínimo, por cinco membros, com a função de prevenir os incêndios através da limpeza de matas. De acordo com os dados mais recentes e disponíveis no relatório da comissão independente de peritos que analisou o incêndio de Pedrógão, em agosto de 2017 estavam a funcionar 291 equipas de sapadores florestais em todo o país. Destas, cerca de 60 pertencem às autarquias e juntas de freguesia. As restantes 230 são de associações e de empresas privadas.

Em 2008, o governo de então estabeleceu como prioridade a constituição de equipas de sapadores florestais nas câmaras municipais. Hoje, há cerca de 1500 sapadores em todo o país e o ministro da Agricultura e Florestas, Capoulas Santos, anunciou que a intenção do executivo é contratar mais mil sapadores até 2019. 

Exército também dá folga Além dos sapadores florestais, também os militares do Exército vão sair à rua para aderir à campanha do governo. De acordo com o porta-voz do Exército, cerca de mil militares (organizados em 47 pelotões) vão estar a limpar as matas em 26 concelhos de norte a sul do país. Além dos militares, o Exército vai ainda disponibilizar máquinas de engenharia em cinco concelhos: Viseu, Marinha Grande, Aveiro, Cascais e Loulé. 

Os militares dizem "estão cá para cumprir" e para participar nesta campanha nacional, mas "a intenção do general-chefe é compensar os militares que participem neste dia, através de um dia de mérito", que está previsto no regulamento. O militar "não tem de gozar o dia de mérito logo no dia seguinte, pode fazê-lo mais tarde, e isso é uma gestão interna", explicou ainda ao i fonte oficial. 

Em dois locais, em Loulé e em Viseu, os militares vão estar a acompanhar as limpezas do primeiro-ministro e do ministro da Defesa, respetivamente. 

Os restantes membros do governo vão estar em ações de limpeza em terrenos privados, em parques naturais, em estabelecimentos prisionais ou até mesmo junto a estradas nacionais (ver tabela ao lado). Com esta campanha nacional, o governo pretende "mobilizar o país" para esta "importante causa nacional", procurando "reduzir o risco de incêndio". 

*Com Sebastião Bugalho 

sexta-feira, 23 de março de 2018

Agricultores de Portalegre aliviados, mas descapitalizados


Os agricultores de Portalegre suspiram de alívio com as chuvadas das últimas semanas, que permitiram garantir o abeberamento do gado, embora a alimentação continue a ser feita "à mão" e a seca os tenha deixado descapitalizados.


Notícias ao Minuto
14:24 - 19/03/18 POR LUSA
   
"O panorama mudou, mas não atenuou os prejuízos que já tivemos e todos os investimentos que temos tido para alimentar os animais à mão, situação que continua", disse hoje à agência Lusa a presidente da Associação dos Agricultores do Distrito de Portalegre (AADP), Fermelinda Carvalho.

Segundo a dirigente associativa, "não é por ter chovido três semanas" que as pastagens naturais se desenvolveram com celeridade", estando, por isso, os agricultores "mais otimistas" por um lado, mas ao mesmo tempo "descapitalizados".

"O que é importante explicar é a questão das pastagens naturais, elas têm o seu ciclo e esse já passou. Por mais que chova agora as pastagens já não se vão desenvolver como se fosse no período normal, nomeadamente em novembro e dezembro", explicou.

No entanto, a presidente da AADP reconheceu que "estas chuvas têm sido fantásticas", tendo "assegurado" o abeberamento do gado e permitido "uma melhoria significativa" do estado dos campos, situação que "já ninguém estava à espera".

De acordo com Fermelinda Carvalho, o problema está "praticamente resolvido" ao nível dos furos, das pequenas charcas e barragens.

A precipitação que tem sido registada no Alto Alentejo leva também a dirigente a afirmar que as searas vão poder recuperar, depois de "muitas delas", no período forte de seca, terem estado "no limite".

A presidente da AADP disse ainda acreditar que, face às previsões do tempo, as culturas de regadio "também podem vir a ser asseguradas".

Agricultor no concelho de Campo Maior, no distrito de Portalegre, Luís Machado tinha, até ao final do mês de fevereiro, de percorrer todos os dias 14 quilómetros (ida e volta) até à albufeira mais próxima para garantir o abeberamento aos mais de 230 bovinos que pastam na sua exploração.

"A situação inverteu-se, tendo acabado há cerca de 15 dias os transportes de água da albufeira do Abrilongo até à herdade. É o dia ao pé da noite", disse hoje o agricultor à Lusa.

Os poços, noras e a barragem da herdade de Luís Machado tinham secado em abril do ano passado, situação que, entretanto, se alterou.

"A minha charca já está a deitar água fora. Também fiz um furo que deu muita água, felizmente", acrescentou.

O agricultor observou ainda que as pastagens "estão a recuperar", bem como as culturas de aveia e trigo.

"O aspeto do campo é completamente diferente. Agora não pode deixar de chover e ficar o tempo seco até outubro", disse.

Prejuízos na Lezíria. Agricultores acusam Ambiente de não os ter informado das cheias no Tejo

22.03.2018 às 9h17
 
PAULO CUNHA

Agora que a chuva abrandou, na Lezíria ribatejana começam a fazer-se contas aos prejuízos causados pelas inundações dos terrenos agrícolas. A Confederação dos Agricultores de Portugal diz que os danos podiam ter sido evitados se a Agência Portuguesa do Ambiente fosse mais eficaz

O excesso de água provocado pela subida repentina do caudal do Tejo na zona da Lezíria ribatejana acabou por apanhar centenas de agricultores desprevenidos, durante os últimos dias das fortes chuvadas, o que redundou em perdas de máquinas agrícolas, alfaias e tratores, que ficaram submersos.

Os prejuízos, segundo a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), ainda não estão totalmente contabilizados, "mas podiam ter sido evitados em grande parte se tivesse havido um aviso por parte da Agência Portuguesa do Ambiente APA, nem que fosse por sms, para as principais organizações de agricultores", observa Eduardo Oliveira e Sousa, presidente daquela confederação.

O líder da CAP garante que a APA tem sondas em vários pontos do Tejo que permitem antever com uma elevada margem de precisão os aumentos de caudais no rio e que, se disponibilizasse atempadamente essa informação os agricultores do Ribatejo seguramente que tinham retirado os seus bens das terras que acabaram por ficar alagadas.

APA ESTÁ PRESA NA TEIA DA BUROCRACIA
"É óbvio que a Proteção Civil faz avisos de cheias, mas apenas quando está em causa a segurança das pessoas e das habitações. Não há alertas dirigidos aos agricultores para as subidas repentinas das águas que, embora não sejam cheias catastróficas, acabam por resultar em perdas de bens que se podiam evitar", nota o presidente da CAP. Acontece tal não se evita porque, segundo Oliveira e Sousa, a APA fica presa na teia da burocracia e na complexidade do seu site, que pouca gente consegue seguir com eficácia, para obter informação útil em tempo real. "Há aqui uma falta de eficácia que é por demais evidente e este é um serviço público que poderia estar a ter mais utilidade nomeadamente em matéria de partilha de informação com a lavoura", remata.

Nos campos agrícolas da Lezíria que acabaram por ficar inundados com as últimas chuvas, para além de lá terem ficado submersas máquinas e alfaias agrícolas, estão agora impraticáveis para a preparação das primeiras sementeiras da primavera, as quais poderão acabar por sofrer alguns atrasos face ao seria de esperar em condições climatéricas normais.

Apesar de tudo, em abril e nos primeiros dias de maio deverão começar a ser lançadas à terra as sementeiras de milho, girassol, sorgo, arroz (com algumas falhas na zona do Alto Sado) e hortícolas em geral. "Pode ser que ainda se salve o ano agrícola, que chegou a estar fortemente ameaçado pela seca extrema que se observou até meados de fevereiro.

Neste momento algumas das principais barragens do país já se encontram com níveis de armazenamento de água próximos do que seria normal nesta época do ano, segundo informação divulgada já esta semana pelo Ministro da Agricultura.

Relatório arrasa novas regras do Governo para limpar floresta

21 DE MARÇO DE 2018 - 06:35

Comissão Técnica Independente diz que novas regras são exemplo de leis mal feitas, sem base técnica ou científica.


O relatório da comissão técnica independente nomeada pelo Parlamento para avaliar o que aconteceu nos incêndios de outubro arrasa as polémicas novas regras publicadas em fevereiro pelo Governo para limpar a floresta perto das casas.

Apesar de apenas terem mandato para analisar os fogos de 14 a 16 de outubro, os peritos fazem questão de avaliar e criticar o Decreto-Lei de 14 de fevereiro de 2018 dizendo que "é muito pouco justificado tecnicamente".

O jornalista Nuno Guedes analisou o relatório da Comissão Técnica Independente, que arrasa as novas regras do governo para limpar a floresta.
Os técnicos garantem que a gestão de combustíveis que está prevista não iria travar os enormes incêndios de 2017, esperando-se uma eficácia "reduzida".

"A influência da gestão de combustível na proximidade das edificações é reduzida neste tipo de incêndios", sendo preciso pensar na floresta que está um pouco mais distante.

O relatório lido pela TSF afirma que a nova legislação prevê a substituição de árvores por espécies menos afetadas pelo fogo, mas não explica como é que isso será feito.

São ainda criticadas as distâncias previstas entre copas e a falta de previsão sobre o volume de matos e arbustos no solo: "Sem uma boa definição desses limites a legislação pode ter o efeito contrário ao desejável", ou seja, potenciar mais as chamas.

O que está previsto ao nível dos arbustos "implica um risco estrutural de incêndio muito acima do que é aceitável em áreas de gestão de combustíveis"

Lei sem base técnica

O relatório vai mais longe e diz que a "tarefa nobre da gestão de combustíveis à volta das edificações" tem de ter "uma base técnica e científica adequada", sendo que "elevadas cargas de material morto [combustível] ao nível do solo pode conduzir a comportamentos extremos de fogo, muito mais difíceis de controlar que os que podem ocorrer nas mesmas condições em povoamentos com elevadas densidades de arvoredo desramado".

Os técnicos dizem que a produção de leis "deve ter por base o melhor conhecimento" e o Decreto-Lei de fevereiro "é, neste aspeto, um exemplo de deficiente uso do conhecimento existente e de uma comunicação pública muito pouco rigorosa".

Português assume presidência de associação europeia de agricultura de regadio


20.03.2018 às 8h55

José Núncio assume esta terça-feira a presidência da nova organização europeia Irrigants d'Europe, criada para defender a importância do regadio na produção de alimentos e desenvolvimento rural

O líder da Federação Nacional de Regantes, José Núncio, assume esta terça-feira a presidência da nova organização europeia Irrigants d'Europe (IE - Regantes da Europa), criada para defender a importância do regadio na produção de alimentos e desenvolvimento rural.

Segundo um comunicado da IE, a organização é criada para "desenvolver estratégias de médio e longo prazo que despertem a consciência para o papel vital da agricultura de regadio no bem-estar, saúde e progresso dos europeus".

A Irrigants d'Europe representa 75% da área de regadio na Europa (7,7 em 10,2 milhões de hectares).

Os seus membros fundadores são associações de regantes dos Estados-membros onde o regadio é mais relevante: Associazione Nazionale Consorzi di Gestione e Tutela del Territorio e Acque Irrigue (ANBI, Itália), Federación Nacional de Comunidades de Regantes (Fenacore, Espanha), Irrigants de France (França) e - Federação Nacional de Regantes de Portugal (Fenareg, Portugal). Esta última entidade assume a presidência da IE.

Segundo o comunicado, o uso da água na agricultura é um fator chave para o crescimento económico e a fixação das populações nas zonas rurais europeias, sobretudo nos países afetados por fenómenos de seca prolongada, do Sul da Europa.

Para a associação, a irrigação e a gestão da água são aspetos cruciais para uma agricultura sustentável, destacando que o setor da agricultura de regadio "é um dos mais inovadores e tecnologicamente avançados da Europa".

terça-feira, 20 de março de 2018

Descoberto fungo capaz de combater a lagarta do pinheiro


19.03.2018 15:41 por Lusa 103

A processionária ameaça a saúde pública quando aparece perto de locais habitados ou frequentados por pessoas e animais domésticos.
 
 
Cientistas descobriram um fungo capaz de matar os ovos e larvas da lagarta do pinheiro, no âmbito de uma investigação que abre portas a novas formas de combate à praga, anunciou esta segunda-feira o Instituto Superior de Agronomia (ISA).

O estudo internacional contou com a participação do Centro de Estudos Florestais (CEF) do ISA e a conclusão foi publicada na revista Biocontrol Science and Technology. O fungo "metarhizium brunneum" é capaz de provocar "uma mortalidade significativa de ovos e larvas jovens de duas espécies de processionária do pinheiro", revela o CEF em comunicado.

Durante a investigação, foram realizados testes para determinar "a susceptibilidade dos ovos e larvas jovens" daquelas duas espécies de lagarta a dois tipos do fungo, variando a mortalidade entre 96% e 99%. De acordo com os investigadores, nem toda a mortalidade foi causada pelo fungo, uma vez que os ovos também sofrem mortalidade devido a outros fungos (saprófitas). "Mesmo assim, as larvas que nasceram em laboratório a partir dos ovos tratados com o fungo em questão foram mortas por este", lê-se no documento.

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Lagarta do pinheiro pode ser fatal para os cães
As larvas jovens de ambas as espécies demonstraram ser também "altamente susceptíveis" a duas estirpes daquele fungo, com uma taxa de mortalidade que variou entre 94% e 100%, oito dias após a inoculação, sendo que a grande maioria morreu nos primeiros dois – quatro dias. Os especialistas dizem que o trabalho, em que participaram três investigadores do ISA, abre portas a novas formas de combate à lagarta do pinheiro.

A processionária, conhecida como "lagarta do pinheiro", é um insecto que ataca pinheiros e cedros, provocando danos nas árvores e que ameaça a saúde pública quando ocorre perto de locais habitados ou frequentados por pessoas e animais domésticos.

Vinhos portugueses jogam ao ataque na Alemanha


16.03.2018 às 10h13

A ProWein é o maior evento mundial do sector. Este ano, terá 370 produtores portugueses a festejar, com os seus vinhos, a subida de 7,5% nas exportações do sector

Margarida Cardoso

MARGARIDA CARDOSO

Trezentos e setenta produtores portugueses estão a caminho da cidade alemã de Dusseldorf, onde vão dar a provar ao mundo os seus vinhos na Prowein, a maior feira mundial para profissionais do sector.

Este ano, o sector celebra a subida de 7,5% nas exportações em 2017, para os 777,9 milhões, É o regresso à tendência de alta, depois da queda de 1,6% no ano passado ter interrompido um ciclo de crescimento iniciado em 2010.

Para este desempenho, em 2017, o mercado comunitário contribuiu com uma taxa de 2,5% o os outros destinos deram um salto de 14,8%, indicam os números do IVV – Instituto da Vinha e do Vinho.

A Alemanha constitui o quarto mercado em valor do sector, com compras de 47 milhões de euros, e cresceu 8,1% no ano passado. Já a França, o maior cliente de vinhos nacionais, caiu 0,5%, para 109,2 milhões de euros, enquanto o Reino Unido aumentou 7,1% e os EUA subiram 5,6%.

Nos mercados extra-comunitários, os destaque vão para Angola, que saltou 40%, o Brasil (53%), China (24%) e Federação Russa (18,3%).

Um dos pontos que o sector quer trabalhar na Alemanha é o preço médio por litro, que está nos 1,79 euros, 7,9% abaixo do ano passado e também abaixo da média nacional de 2,61 euros/litro. Nos três maiores mercados, os preços médios estão acima deste valor, com França nos 2,82 euros, Reino Unido nos 3,63 euros e Estados Unidos nos 3,92 euros. Logo a seguir à Alemanha, no 5º e 6º lugares do ranking das exportações de vinhos portugueses, os Países Baixos apresentam um preço de 3,4 euros/litro e a Bélgica está nos 3,32 euros/l.

O SEGUNDO LUGAR NA PREFERÊNCIA DOS ALEMÃES
Durante a feira, de 18 a 20 de março, a participação lusa na Prowein inclui provas, mas também um vasto programa de seminários, com oradores internacionais que prometem propor harmonizações gastronómicas com vinhos portugueses e sugestões de combinação com pratos de comida internacional.

A Viniportugal, a associação interprofissional que responde pela promoção internacional dos vinhos portugueses, com a missão de promover a imagem do país enquanto produtor de excelência, valorizando a marca "Vinhos de Portugal /Wines of Portugal", abre o seu stand a provas de 80 vinhos portugueses selecionados, do Vinho Verde ao Alentejo, todos premiados em concursos e provas nacionais e internacionais.

Um estudo da organização da Prowein, em colaboração com a Universidade de Geisenheim, mostra que Portugal foi o sétimo país mais procurado na edição anterior do certame. De acordo com a Viniportugal, este trabalho, realizado com 1500 especialistas do sector vitivinícola de 46 países, mostrou que 17 em cada 100 pessoas tinha interesse em incluir vinhos portugueses na sua gama de produtos e o país ocupava o 4º lugar nas opções de compra dos retalhistas internacionais, com 21%, atrás da Alemanha, Espanha e Itália.

Considerando apenas as opiniões dos retalhistas alemães, Portugal ficava em segundo lugar (26%) nas opções para alargar a gama de produtos a novos países, atrás da Áustria.

Arderam (pelo menos) mais 100 mil hectares em 2017 do que se dizia


19/3/2018, 7:42104

Dados do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) excluem a área ardida em zonas agrícolas. TSF indica que a área total terá sido, pelo menos, 570 mil hectares.


Arderam em 2017 mais 100 mil hectares do que os dados públicos (do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas) avançavam. Segundo a TSF, os dados avançados por este instituto público não têm em conta a área agrícola ardida — só a área florestal — pelo que a área total que foi afetada pelos fogos terá rondado dos 570 mil hectares, e não cerca de 442 mil hectares. E há uma margem de erro de 10%.

A inclusão da área agrícola ardida aproxima os números dos que foram desde o início adiantados pelo Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS) da Comissão Europeia que usa imagens de satélite para calcular a área ardida. Como esse método não distingue entre área agrícola e área florestal, o valor avançado desde o início superava os 550 mil hectares — 563 mil hectares, em rigor.


O ICNF e o Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural confirmaram à TSF que até agora, com a publicação da Lei 76/2017 no fim de agosto, só se contavam os efeitos dos incêndios em áreas florestais. Neste momento, no entanto, "já contabilizam a área agrícola", garantiram as duas fontes. Estes são dados que continuam a ser provisórios, mas os valores são "próximos" dos contabilizados pelo centro europeu, ou seja, "rondam os 570 mil hectares, podendo ainda existir uma margem de erro de 10%".

Alterações climáticas podem tornar Portugal mais seco, sem praias e sem turismo


O Nobel da Paz Rajendra Pachauri alertou, nesta segunda-feira, para as alterações climáticas que afectarão as praias, a agricultura, a pesca e até o vinho.

LUSA 19 de Março de 2018, 16:52 Partilhar notícia

Portugal pode mudar drasticamente em meio século, com as alterações climáticas a tornarem o país mais desértico, a afectarem as praias, a agricultura, a pesca e até o vinho, alertou nesta segunda-feira o Nobel da Paz Rajendra Pachauri.

Pachauri, que foi Nobel da Paz em 2007, foi nesta segunda-feira um dos oradores numa conferência sobre alterações climáticas no âmbito do ciclo Conferências do Estoril.

O responsável foi presidente do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, e é o fundador e mentor do movimento Protect Our Planet (POP).

Nesta segunda-feira, perante uma sala cheia de jovens na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, falou do projecto POP e começou por salientar que a melhor forma de lidar com as alterações climáticas é envolver os jovens, exortando-os depois a consumir menos e comer melhor ("Comam menos carne, serão mais saudáveis e é bom para o planeta") e a plantarem árvores, para que a Península Ibérica não tenha no futuro o clima que hoje tem o Norte de África.

O especialista lembrou aos presentes que as temperaturas e o nível do mar (com tsunamis mais devastadores) têm vindo a subir desde meados do século passado, à medida que as emissões de gases com efeito de estufa também aumentaram, e salientou que situações climáticas extremas observadas desde 1950 estão relacionadas "com a interferência humana".

"O Árctico deixará de ter gelo"

E depois, acrescentou, se nada for feito em relação a essas emissões, no futuro os fenómenos extremos serão mais frequentes e intensos e, por exemplo, o Árctico deixará de ter gelo. "Já imaginaram isso? Vai ser no vosso tempo", disse.

E o Sul da Europa, onde Portugal se inclui, vai ver o avanço do mar, mudanças no turismo e na agricultura, o mar terá peixes diferentes dos que se costumam consumir agora, a vinha vai mudar e haverá mais mortes e doenças.

"O que é que estamos a fazer ao nosso planeta? Não temos outro sítio para onde ir", disse Rajendra Pachauri, que se afirmou, ainda assim, um optimista e que salientou três acções que terão de ser tidas em conta desde já para mitigar os efeitos das alterações climáticas: o uso mais eficiente da energia, usar energias limpas e reduzir a desflorestação.

As alterações climáticas são reais, estão a afectar-nos, são más, são comprovadas cientificamente e ainda há esperança, disse, centrando o seu optimismo no combate às alterações que está a ser feito um pouco por toda a parte.

"Gostaria que o meu país, a Índia, fizesse mais", disse, concluindo que sem mudanças para reduzir as emissões de gases, a vida no planeta vai tornar-se "muito mais difícil".

Na mesma linha, o secretário de Estado adjunto e do Ambiente, José Mendes, lembrou que Portugal está a sentir os efeitos das alterações climáticas, como as altas temperaturas, os grandes incêndios ou a erosão costeira, mas salientou que "ninguém no planeta" deixa de ser afectado.


"Este é o momento para a acção. Já temos o diagnóstico, o tempo de agir é agora. E a acção é a adaptação (às alterações) e a mitigação", disse, salientando a necessidade de se viajar de forma mais sustentável e de se aumentar a eficiência energética dos veículos. E depois, concluiu, é preciso proteger o planeta, mas proteger também as pessoas mais vulneráveis.

Carlos Carreiras, presidente da Câmara de Cascais, que encerrou a conferência, alertou para o facto de as alterações climáticas não serem algo que vai apenas afectar as pessoas do futuro. "Já são os meus netos que serão prejudicados, se não fizermos nada, não é ninguém desconhecido", disse.

Rajendra Pachauri já tinha também chamado a atenção para a proximidade temporal dos efeitos maiores das alterações. E sempre focado nos jovens deixou um último recado: "Os jovens têm se ser parte da solução, não do problema."

domingo, 18 de março de 2018

Orizicultores de Alcácer do Sal já estimam cultivar metade da produção habitual


Apesar da chuva dos últimos dias, continua a existir "uma situação de falta de água" na região, diz o director do Agrupamento de Produtores de Arroz do Vale do Sado, João Reis Mendes. No ano passado, os produtores de arroz tinham receio de não poder cultivar este ano.

LUSA 16 de Março de 2018, 14:41 Partilhar notícia


O aumento da quantidade de água nas barragens de Pego do Altar e de Vale do Gaio, em Alcácer do Sal, deverá possibilitar o cultivo de, pelo menos, metade da produção habitual de arroz, segundo os orizicultores.

"Subiram os níveis de armazenamento das barragens, o que dá algum ânimo no sentido em que podemos fazer produção", disse nesta sexta-feira à agência Lusa o director do Agrupamento de Produtores de Arroz do Vale do Sado (Aparroz), João Reis Mendes.

Agricultores alentejanos reclamam medidas excepcionais contra a seca

Sem se comprometer com números concretos, "porque quem decide a distribuição da água é a Associação de Regantes e de Beneficiários do Vale do Sado", no distrito de Setúbal, o dirigente da Aparroz indicou que poderá estar "garantido", no perímetro de rega das barragens de Vale do Gaio e de Pego do Altar, "pelo menos 50%" da produção habitual.

"Vamos aguardar até uma decisão definitiva, mas eu acho que menos de 50% [da produção de arroz] já não deixamos de fazer na zona de Alcácer do Sal", afirmou, frisando, no entanto, que continua a existir "uma situação de falta de água", apesar da chuva dos últimos dias.

"Há 15 dias, não tínhamos rega"
A barragem de Vale do Gaio está actualmente com "42% da capacidade de armazenamento" e a de Pego do Altar "com 47%", segundo o coordenador geral da Associação de Regantes do Vale do Sado, Gonçalo Lince de Faria.


A terra dos arrozais protege-se com a barragem da Aguieira
"Há 15 dias, quando começou a chover, não tínhamos rega, pura e simplesmente, não tínhamos absolutamente água nenhuma e, neste momento, temos já garantidos 60% da área beneficiada", afirmou, acreditando que a situação pode vir a melhorar "com a chuva prevista para os próximos dias".

Isto significa, especificou, que, dos cerca de seis mil hectares do perímetro de rega do Vale do Sado, "cerca de 60% de área, neste momento, já tem garantias de água".

O mesmo responsável da associação disse acreditar que, "se continuar a chover e a subir a quantidade de água armazenada nas albufeiras", vai ser possível ir "aumentando a área de rega", decisão que deve ser "tomada em Abril", altura em que "os agricultores começam a preparar as terras".

No concelho vizinho de Santiago do Cacém, onde existe uma área de 300 hectares dedicada à produção de arroz, o director adjunto da Associação de Regantes e Beneficiários de Campilhas e Alto Sado, Ilídio Martins, estima que, com a subida do nível da água na barragem de Monte da Rocha, "cerca de metade da área de produção" possa ser abastecida.

A seca na Cidade do Cabo não vai parar. E devia ser exemplo para Portugal
Em Novembro do ano passado, os produtores de arroz tinham receio de não poder cultivar este ano, depois de, devido à quantidade de água disponível nas barragens, já terem reduzido em 2017, "20 a 30%" da área semeada.

A redução da quantidade de água nas barragens de Pego do Altar e de Vale do Gaio notava-se já "desde há três anos", segundo disse em Novembro de 2017 o director-geral da APARROZ.

A situação levou à decisão dos produtores de semear arroz em menos "10 a 15%" da área em 2016 e "20 a 30%" em 2017, de um total de "5.500 a 6 mil hectares".

Ponte não era vista fora de água há 19 anos
A APARROZ tem 30 sócios e trabalha com "cerca de 170 produtores", maioritariamente de Alcácer do Sal, mas também dos concelhos de Montemor-o-Novo, Grândola e Santiago do Cacém.

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Com uma "produção média anual de seis toneladas por hectare" e com "um preço médio de 280 euros por tonelada", o cultivo do arroz é uma das principais actividades económicas de Alcácer do Sal, que, quando explorados os seis mil hectares, pode chegar a valer cerca de "10 milhões de euros".


A seca levou mesmo a que, no final do ano passado, tenha ficado descoberta uma ponte, submersa na albufeira de Pego do Altar, que não era avistada fora de água desde 1999.

Nas últimas semanas, com a subida do nível da água, a ponte voltou a imergir.

“O melhor azeite do mundo” tem a maior produção de sempre


17.03.2018 / 15:43 

Quantidade e qualidade das azeitonas surpreenderam a cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos 

A maior cooperativa de produção de azeite em Portugal, a de Moura e Barrancos, no Alentejo, reflete bem o salto produtivo alcançado a nível nacional. Ela própria atingiu um recorde, quase duplicando a produção face ao ano anterior. Até 12 de março, o último dia da campanha 2017/18, entraram 45 milhões de quilos de azeitonas (+95% face ao ano anterior) e, deles, a cooperativa estima obter cerca de nove milhões de litros de azeite. 

Para o "recorde de todos os tempos", como sublinha Luís Saraiva Crisóstomo, assessor do conselho de administração, contribuíram apenas os associados da cooperativa, num total de 4000. Apesar de apenas 1200 serem olivicultores, a produção de azeite representa 90% do "core business" do organismo. Antecipando a pergunta, remata: "Não entra nada de fora dos nossos associados, nem compramos azeite de fora". 

E o que contribuiu para a abundância inesperada? "Esta é uma zona de excelência para o olival, devido às condições edafoclimáticas e à tradição da atividade na região", explica Luís Crisóstomo. Inclusive, recorda que o azeite de Moura foi o primeiro a ver reconhecida a Denominação de Origem Protegida, além de continuar a ser a maior DOP de azeite em Portugal. O predomínio de olival tradicional, isto é, extensivo e de sequeiro, tem proporcionado ciclos de grande produção que alternam com outros de baixa produção. O que acaba de ocorrer é um ciclo generoso. 

Para evitar a oscilação produtiva, a cooperativa aguarda pelo alargamento do perímetro de rega do Alqueva, onde o regadio poderá ajudar a estabilizar a produção. "Esta quantidade foi uma boa surpresa e a qualidade é excecional", uma vez que as elevadas temperaturas acabaram por afastar as pragas, com a feliz coincidência de a oliveira ser uma planta de sequeiro, bem adaptada à escassez de água. A entrada em produção de olivais mais recentes foi outra chave para o êxito da atual campanha, admite Luís Crisóstomo. 

O foco vai ficar agora colocado na comercialização do azeite. O mercado nacional absorve a totalidade da produção da cooperativa, mas, de ano para ano, a exportação tem vindo a conquistar o seu lugar. Luís Crisóstomo explica: "A ideia é vender em mercados onde há valor acrescentado, onde valorizem a nossa qualidade. Não é por acaso que o nosso azeite tem arrebatado tantas distinções, em concursos nacionais e internacionais. 

Afinal, somos o melhor azeite do mundo!", um título, aliás, exibido por outros produtores nacionais, como os azeites transmontanos Romeu, CARM e Casa de Santo Amaro ou Gallo. O olival é a maior área cultivada no Alqueva O olival é a principal cultura do Alqueva, com 41, 2 mil hectares, em 2017, segundo a EDIA, e deverá aumentar. Representa mais de metade do perímetro de rega do empreendimento e quase um quarto da área oleícola do Alentejo. A maior parte dos cerca de 97 espanhóis que investem no Alqueva detêm 35% do olival. São os maiores investidores estrangeiros. O que produzem conta como produção nacional e se o vendem a Espanha entra nas nossas exportações.

Pagamento de base na agricultura tem "impacto limitado" - Tribunal de Contas da UE


O Tribunal de Contas Europeu (TCE) considerou hoje que o regime de pagamento de base (RPB) para os agricultores tem "um impacto limitado" em termos de simplificação e convergência das ajudas.

Num relatório hoje divulgado, o TCE salientou que "o regime está, operacionalmente, no bom caminho, mas o seu impacto na simplificação, na orientação e na convergência dos níveis de ajuda é limitado".

Considerando que a simplificação foi uma das bandeiras da reforma da Política Agrícola Comum (PAC) de 2013, que introduziu o RPB, os auditores do TCE concluíram que "as regras escolhidas pelos Estados-membros aumentaram por vezes a complexidade e os encargos que recaem sobre as administrações nacionais, além de terem permitido que alguns agricultores realizassem ganhos excecionais".

Para o TCE, "as escolhas dos Estados-membros tiveram igualmente um impacto significativo no grau de redistribuição do apoio e os agricultores puderam, em alguns casos, manter níveis de apoio particularmente elevados resultantes de níveis anteriores de subsídios".

"Enquanto regime essencialmente relacionado com superfícies e não com rendimentos, o apoio a título do RPB tende a favorecer as explorações de maior dimensão", lê-se no relatório.

"O regime de pagamento de base é uma importante fonte de rendimentos de muitos agricultores, mas tem limitações intrínsecas", afirmou, em comunicado, o membro do TCE responsável pelo relatório, João Figueiredo.

Para o membro português, o RPB "não tem em conta as condições de mercado, a utilização de terras agrícolas ou as circunstâncias específicas da exploração e não se baseia numa análise da situação global dos rendimentos dos agricultores".

O RPB foi introduzido em 2015 no âmbito da reforma da PAC para apoiar os agricultores e contribuir para a produção alimentar viável na União Europeia (UE) e vigora até 2020.

Para o período posterior a 2020, recomendam que a Comissão analise os fatores que afetam o rendimento de todos os grupos de agricultores, as suas necessidades de apoio ao rendimento e o valor dos bens públicos fornecidos pelos agricultores. A Comissão deve associar, desde o início, as medidas propostas a objetivos operacionais e valores de referência adequados que permitam comparar o desempenho.

Com uma despesa anual de cerca de 18 mil milhões de euros concedidos a cerca de quatro milhões de agricultores, o RPB é o maior regime de apoio ao rendimento dos agricultores da UE.

O regime vigora na Bélgica, Dinamarca, Alemanha, Irlanda, Grécia, Espanha, França, Croácia, Itália, Luxemburgo, Malta, Países Baixos, Áustria, Portugal, Eslovénia, Finlândia, Suécia e Reino Unido.

Centena e meia de associações exigem dinheiro para esterilização de animais


A lei para acabar com o abate de animais nos canis e gatis está aprovada e as verbas para financiar a sua aplicação estão prometidas pelo Governo. Agora só falta que o dinheiro seja mesmo disponibilizado às autarquias e é isso que 153 associações de protecção animal vieram exigir.


Manuel Esteves Manuel Esteves mesteves@negocios.pt
17 de março de 2018 às 19:25

É provavelmente o apelo mais abrangente e envolvendo o maior número de associações e grupos de protecção animal: 153 organizações, oriundas de 105 concelhos do Continente, exigem verbas do Estado para garantir o cumprimento da lei que determinou o fim dos abates nos canis e gatis municipais.

Esta lei é de Agosto de 2016, mas a proibição dos abates só se efectiva em Outubro deste ano. Porém, as associações signatárias deste apelo estão convictas que sem um programa sólido de esterilização, que permita reduzir o número de animais nos canis e gatis municipais, a lei não sairá do papel.

"Sabendo-se que a maior parte das câmaras nada tem feito para reduzir a sobrepopulação animal, entendem as associações signatárias que é imperioso que a Assembleia da República crie as condições necessárias à execução de uma Lei da República que votou por unanimidade", lê-se num comunicado de imprensa da Campanha de Esterilização de Animais Abandonados.

Em causa está a disponibilização, por parte do Estado, das verbas necessárias para co-financiar as esterilizações realizadas pelas câmaras municipais. Estas esterilizações abrangem tanto animais errantes e gatos que vivem em colónias de rua, quer animais alojados nos chamados Centros de Recolha Oficiais (CROS) e ainda animais pertencentes a munícipes carenciados.

Governo prometeu mas não cumpriu

A verba está prometida pelo Governo. A garantia partiu do secretário de Estado da Agricultura e Alimentação que, no passado dia 2 de Março, garantiu perante os deputados da comissão parlamentar de Ambiente que o despacho relativo a estas verbas sairia durante a primeira quinzena do mês. Luís Medeiros Vieira não revelou valores, mas a intenção inicial do Governo era que o apoio global ascendesse a 800 mil euros visando a realização de 20 mil esterilizações por ano.  

Porém, ao contrário das expectativas criadas, o despacho não viu a luz do dia. O Negócios contactou o Ministério da Agricultura um dia antes do fim do prazo para saber se o despacho seria publicado, mas não obteve resposta até hoje.

sábado, 17 de março de 2018

Vêm aí as start-up da 2.ª ruralidade


A grande questão será, então, esta: como é que podemos incubar e acelerar a passagem de um rural tardio, pobre e remediado, para um neorural inteligente e criativo?

17 de Março de 2018, 6:12 Partilhar notícia


Tudo o que temos ouvido e lido recentemente a propósito da valorização do interior e do mundo rural é do domínio da mitigação e reparação de danos do rural tardio português cuja morte anunciada foi acelerada por causa dos incêndios de 2017. Como é evidente, não podemos confundir "mitigação e reparação de danos" com modernização da agricultura e do mundo rural. Vivemos em sociedades abertas e cada vez mais cosmopolitas. Está em vigor o princípio geral da mobilidade e em curso a transição para a 2.ª ruralidade. A única certeza que temos é que, no futuro próximo, por causa da dupla transição, ecológica e digital, o campo nos revelará uma pluralidade de campos, na exata medida em que o campo será simultaneamente um espaço produtor e um espaço produzido. Assistiremos à chegada dos neorurais, uns mais capitalistas, outros mais românticos, outros mais digitais, outros mais ecodigitais, e com eles chegarão start-up muito atrevidas que mudarão para sempre o fácies do velho mundo rural português.

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A grande questão será, então, esta: como é que podemos incubar e acelerar a passagem de um rural tardio, pobre e remediado, para um neorural inteligente e criativo, a caminho da 2.ª ruralidade?

Para o demonstrar, vamos passar em revista algumas áreas onde essa transição irá ocorrer: a agricultura de precisão, as agriculturas pós-produtivistas e hipocarbónicas, a turistificação do mundo rural, a smartificação de territórios-rede, as novas estruturas de acolhimento dos neorurais, os centros de extensão rural do futuro e a culminar toda esta rede capilar da 2.ª ruralidade a "cidade distrital inteligente". Terminaremos com uma primeira tipologia das start-up em espaço rural.

1. A agricultura de precisão
 Vem aí a "internet dos objetos" e, consequentemente, a "indústria dos objetos conectados". Doravante, podemos fazer "plantações" de sensores para conectar estes objetos, isto é, tudo será smart, mais tarde ou mais cedo: a cidade, a habitação, a fábrica, o hospital, o aeroporto, a universidade, o automóvel, o centro comercial, mas, também, o campo agrícola, a empresa pecuária, a floresta, o parque natural, a bacia hidrográfica, etc.

Vejam-se, por exemplo, os avanços tecnológicos já conseguidos no domínio da chamada agricultura de precisão: a gestão remota da rega. a monitorização das culturas a partir de imagens aéreas (com drones), as câmaras de vigilância nos estábulos, os robots de ordenha e alimentação, os chips nos animais para acompanhamento do seu ciclo de vida, os veículos autónomos como maquinas agrícolas e tratores (winebots), a colocação de sensores na floresta (os olhos e os ouvidos das árvores), as câmaras térmicas (os olhos noturnos dos bombeiros), as imagens por drone das zonas com maior acumulação de matos, os firebots para o ataque a incêndios, a criação de aplicações em smartphones para uso de agricultores e bombeiros, os modelos computacionais e a inteligência artificial para a elaboração de cenários de intervenção, etc. Quer dizer, no âmbito da "internet das coisas" (IOT) e dos sistemas automáticos praticamente nada escapará aos dispositivos de monitorização, sejam sensores, chips ou câmaras de vigilância; neste caso em concreto, podemos dizer que a rastreabilidade é total e a recolha e tratamento de dados uma tarefa primordial para a agricultura de precisão.

Se a esta "plantação-conexão digital" juntarmos a constelação tecnológica formada pelas nanotecnologias, as biotecnologias, as ciências da vida, do solo e da água e as indústrias da alimentação, teremos seguramente uma ocupação do território muito diferente da atual, com menos gente in situ e mais gente ex situ ocupada em tarefas de vigilância, programação, planeamento e controlo, geridas à distância por "seres aumentados" que administram interfaces eletrónicos e digitais de todo o tipo. Em resumo, há aqui um campo imenso para novas especialidades e novas oportunidades para a próxima geração de start-up da 2.ª ruralidade.

2. As agriculturas pós-produtivistas e hipocarbónicas
Paralelamente à agricultura de precisão surgirão as denominadas agriculturas pós-produtivistas, umas mais sociais e comunitárias outras mais especializadas. As alterações climáticas, as economias de proximidade e a alimentação saudável, mas, também, os pagamentos pela prestação de serviços ambientais, funcionarão como pretexto e causa próxima e despertarão uma curiosidade crescente por parte dos neorurais. Acresce que, dadas as características agroecológicas e socioeconómicas de muitas das nossas microrregiões do interior, o mais provável é que sejam objeto de uma "smartificação fraca" associada à lógica agroecológica ou, nas palavras do Arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles, ao "organicismo da paisagem global".

De resto, "paisagem global" de Gonçalo Ribeiro Telles é um mosaico muito complexo e interdependente onde cabem a conservação da natureza, a produção de alimentos frescos, as amenidades agroturísticas e a gestão das áreas de paisagem protegida, de acordo com critérios técnicos, mas, também, estéticos e éticos. Há, pois, neste contexto, muito trabalho de investigação-ação-extensão a realizar e um campo imenso para a emergência da próxima geração de start-up a caminho da 2.ª ruralidade.

3. Turistificação do mundo rural e produção de novos conteúdos
A modernização do mundo rural pela via dupla da agricultura de precisão e da agricultura pós-produtivista tem como corolário lógico um aumento da turistificação do mundo rural e, consequentemente, a necessidade de produzir novos conteúdos criativos e culturais, em especial em redor dos chamados sinais distintivos territoriais. Esta implicação recíproca vantajosa entre agricultura, ecologia, turismo e cultura é fundamental para criar in loco pequenas economias de aglomeração que justifiquem o lançamento de novos projetos empresariais. As plataformas tecnológicas facilitam estas transações e aqui, mais uma vez, as start-up terão um papel fundamental no desenho de aplicações digitais que fazem a conexão destas diferentes atividades, para além da produção especifica de conteúdos criativos e culturais. Todos os sinais distintivos "emitem informação bruta" que é preciso recolher e tratar devidamente, razão pela qual é fundamental conceber o sistema de informação geográfica da sub-região e ensaiar a sua "conexão inteligente". A partir desse volume imenso de informação a "arte da composição" permitirá compor uma "variedade de territórios virtuais", um campo de possibilidades de onde emergirá uma nova consciência coletiva territorial. Porque precisamos de criar conteúdos para preencher essas diversas virtualidades, existe aqui mais uma oportunidade para o lançamento de novos projetos e empresas.

4. A smartificação dos territórios-rede da 2.ª ruralidade
Os territórios-rede da 2.ª ruralidade são uma malha fina e delicada de pequenos empreendimentos muito bem articulados entre si, verdadeiros laboratórios para testar pequenas economias de aglomeração. O segredo do sucesso destes territórios-rede é a instituição de um ator-rede que seja capaz de ouvir, interpretar, promover e realizar as aspirações de um território que é sentido e desejado. Apresento a seguir uma série de exemplos, que são outras tantas configurações sociais de territórios-rede, uma espécie de "arquitetura de interiores" de uma região.

- Um "sistema alimentar local (SAL)"

A partir da agricultura social e periurbana e por via de uma rede de circuitos curtos, podemos organizar o comércio local de produtos alimentares de proximidade; ao mesmo tempo, a parceria local aproveita para requalificar o sistema de espaços e corredores verdes, utilizando, por exemplo, as hortas sociais, as linhas de água e os bosquetes multifuncionais, tendo em vista articular as áreas urbanas, as áreas rurais e as áreas naturais;

- Uma "denominação de origem protegida (DOP)"

No quadro de um parque natural ou de um subsistema serrano, por exemplo, podemos (a parceria local) modernizar o sistema produtivo local, criando, para o efeito, uma agroecologia específica, uma denominação de origem protegida (DOP) e uma nova estratégia de visitação do por via de um marketing territorial mais ousado e imaginativo;

- Um "mercado ou segmento de nicho"

No quadro de um centro termal, de um aldeamento turístico ou de uma amenidade fluvial podemos (a parceria local) podemos recriar um nicho de mercado, por exemplo, um novo espaço público de qualidade para o "turismo acessível, terapêutico e recreativo" (turismo de saúde e bem-estar) com base numa pequena aglomeração de atividades terapêuticas, criativas e culturais criadas para o efeito;

- Um "complexo agroturístico com campo de férias e aventura"

No quadro de uma empresa, cooperativa ou associação de desenvolvimento local podemos (a parceria local) lançar uma estratégia criativa e integrada de agroturismo e turismo rural que inclua a participação dos visitantes nas práticas agro-rurais tradicionais e a colaboração de voluntários de campos de férias, trabalho e aventura;

- Uma "rede de turismo de aldeias e touring de natureza"

Um grupo de aldeias com vocação especializada num determinado sector ou produto, as aldeias vinhateiras do Alto Douro, por exemplo, património mundial da Humanidade, associa-se com os empreendimentos turísticos, as associações ou clubes de produtores, uma escola superior e as associações culturais mais representativas, tendo em vista desenhar uma estratégia conjunta de visitação e valorização do património material e imaterial dessa sub-região;

- Uma "marca coletiva" para o relançamento de uma gama de produtos

Um grupo de empresas, cooperativas agrícolas e associações de desenvolvimento associam-se tendo em vista desenhar e aplicar uma estratégia conjunta de modernização agrária e comercial para uma sub-região que foi objeto de investimentos públicos significativos e que precisa urgentemente de ser relançada (o regadio da Cova da Beira, por exemplo);

- Um "sistema ou mosaico agroflorestal (SAF)"

No quadro de uma ou mais Zonas de Intervenção Florestal (ZIF), associações de produtores florestais, reservas cinegéticas, áreas de paisagem protegida e as zonas de proteção especial, as comunidades humanas implicadas associam-se para constituir um "sistema agroflorestal (SAF)" ou agro-silvo-pastoril tendo em vista criar uma estratégia de intervenção integrada que vai desde a prevenção e recuperação de áreas ardidas à construção dos sistemas agro-silvo-pastoris com o seu cabaz completo de produtos da floresta;

- Um "centro de ecologia funcional e arquitetura paisagística"

As áreas ardidas são um bom pretexto para esta iniciativa. Um centro de investigação na área da biodiversidade, da ecologia funcional e reabilitação de ecossistemas, um parque ou reserva natural, uma associação agroflorestal, empresas de turismo em espaço rural, empresas na área do termalismo, propõem-se criar um programa de investigação-ação-extensão tendo em vista a preservação da biodiversidade e dos endemismos locais, a melhoria da oferta de serviços ambientais e a valorização comercial destes ativos biodiversos por via do lançamento de serviços turísticos, culturais e científicos;

-Um "programa de desenvolvimento de aldeias serranas e de montanha"

Um agrupamento de municípios conjuntamente com as associações de desenvolvimento local e os operadores empresariais respetivos propõem-se desenhar e lançar um programa de desenvolvimento comunitário de aldeias serranas e de montanha e um cabaz de produtos correspondente;

- Um "parque biológico e ambiental"

Um agrupamento de municípios, um grupo termal, uma área de paisagem protegida, uma associação ambientalista ou de desenvolvimento local propõem-se criar uma espécie de "santuário, amenidade ou ecossistema exemplar" que seja um local de visitação e observação, mas, também, um laboratório de boas práticas agroecológicas e aprendizagem das técnicas de engenharia biofísica, ecologia da paisagem e reabilitação de habitats, economia da conservação, do baixo carbono e da energia renovável e a arquitetura funcional associada à bioconstrução e bioclimatização;

- Um "Parque Agrícola Intermunicipal" com objetivos de reinserção social

No campo da ação social, um projeto intermunicipal, associativo ou comunitário e com base no voluntariado que junte, por exemplo, os Sindicatos, as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), uma escola superior agrária, tendo em vista a reinserção social em sentido amplo, a formação profissional e a realização de contratos de "institutional food" para abastecimento de escolas, prisões, hospitais, quartéis, lares;

- Uma "Quinta Pedagógica, Recreativa e Terapêutica"

No campo da ação pedagógica, recreativa e terapêutica, um projeto intermunicipal, associativo e comunitário, dirigido aos grupos mais vulneráveis da população com necessidades especiais, que junte as IPSS, os serviços hospitalares, a universidade, as ordens profissionais e os centros de investigação, tendo em vista a provisão de serviços médicos, pedagógicos, recreativos e terapêuticos, mas também ambientais, que são essenciais para o bem-estar e a qualidade de vida dos grupos mais sensíveis de população ;

- Um condomínio para a gestão de bens comuns

No campo da ação coletiva e da provisão de serviços comuns, para impedir o uso abusivo de recursos naturais que agravam as alterações climáticas e a utilização dos solos, podem ser desenhados várias estruturas associativas sob a forma de condomínio, seja para gerir um banco de terras, um espaço baldio, uma linha de água, um bosquete multifuncional, uma área de agricultura social, uma zona agroindustrial, um território cooperativo, um parque periurbano, tendo em vista a gestão de "bens comuns" em risco.

Em todos os casos referidos de território-rede, o propósito é sempre o mesmo: a valorização de recursos em risco e expectantes, a formação de uma nova cadeia de valor, uma ação coletiva inovadora, um ator-rede inteligente e uma comunidade de autogoverno eficaz. A smartificação do território pode ajudar, as instituições de ensino superior são fundamentais na formação das parcerias locais e dos atores-rede. Imagine-se o número de start-up inovadoras que podem ser criadas em redor de todos estes territórios-rede.

5. Estruturas de acolhimento e cidades distritais inteligentes
As estruturas de acolhimento como os espaços de coworking, os fablab, as incubadoras, os centros de investigação, as associações de desenvolvimento local, têm sido até agora os locais privilegiados para fazer nascer os novos empreendimentos. No entanto, estas estruturas não têm correspondido às expectativas e há uma baixa efetividade destes instrumentos de intervenção no território que, julgamos, se deve à fraca intensidade-rede das economias de aglomeração locais do mundo rural. O conceito de "cidade distrital inteligente" procura responder a essa "falha estrutural". Quer dizer, precisamos de uma estrutura de autogoverno dotada com um mínimo de população, atribuições, competências e meios, que seja capaz de articular os poderes setoriais e intermunicipais com as expetativas das populações expressas através de recursos digitais e suscitar os efeitos de aglomeração e escala que o território mais necessita. A "cidade distrital inteligente" poderia ser o ator-rede indicado para esse efeito (ver PÚBLICO online, 7 de março).

6. Uma tipologia das start-up da 2.ª ruralidade
Chegados aqui, estamos em condições de elaborar uma primeira tipologia de start-up da 2.ª ruralidade. A economia digital e as plataformas colaborativas serão um instrumento fundamental para alavancar estes projetos empresariais:

- As agriculturas de precisão, os modos intensivos de produção.

- As agriculturas de nicho, denominações de origem e indicações geográficas.

- As agriculturas sociocomunitárias, os circuitos curtos e os mercados locais.

- A economia circular e a bioeconomia, a política dos 4R e os serviços ambientais.

- As energias renováveis e as bioenergias, as redes e os serviços energéticos.

- Os serviços ambulatórios ao domicílio, os programas de envelhecimento ativo.

- Os serviços de reabilitação e restauro do património natural e construído.

- Os serviços de produção de conteúdos para eventos criativos e culturais.

- Os ambientes digitais inteligentes e a gestão de sistemas de informação.

A convergência entre a transição digital e transição ecológica será o grande motor desta nova fase. Se esta convergência for devidamente patrocinada poderemos estar na iminência de uma explosão de start-up em espaço rural, embora nada garanta que elas não apareçam em ordem dispersa. Quer dizer, em vez de termos economias de aglomeração, poderemos ter economias de dispersão. Se tudo correr bem, poderemos ter uma economia colaborativa que tornará o capitalismo mais popular e genuíno, no sentido próprio dos termos, onde o capital social será tão ou mais decisivo que o capital financeiro.


Nota Final
O principal estrangulamento ao patrocínio adequado deste universo de start-up é o "modelo silo" completamente ultrapassado das nossas principais instituições, totalmente viciadas em candidaturas e ajudas públicas para preencher a sua missão corporativa. Por falta de bens e serviços comuns e partilhados, os erros são recorrentes tal como as zonas cinzentas e os custos de ineficiência. A principal tarefa do próximo futuro é realizar a quadratura do círculo e pôr de acordo politécnicos, associações de municípios, associações empresariais e serviços regionais e no interior deste quadrado criar um "centro de racionalidade" que seja capaz de pôr alguma ordem na cacofonia ecológica e digital do mundo rural.

Não temos quaisquer dúvidas, haverá mais campo na cidade e mais cidade no campo. Desde a agricultura vertical na cidade, à agricultura acompanhada pela comunidade, às novas agriculturas periurbanas, à agricultura de precisão e às agriculturas de nicho, estaremos cada vez mais num continuum agroecológico. Ao mesmo tempo abrem-se novas cadeias de valor e as start-up da economia digital, sobretudo as empresas do marketing digital e da publicidade, aproveitarão a oportunidade e tomarão o mundo rural como um décor para as suas próximas incursões e representações. Não será apenas a agricultura de precisão com os seus agribots, será, também, uma "agrocultura" que chegará com os neo-rurais mais românticos. O mundo rural e o campo tornar-se-ão uma espécie de cenário natural para as produções low cost da cibercultura mais variada. Esperemos que à volta delas apareçam as pequenas economias de aglomeração.