segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Ministro da Agricultura defende investimentos na vitivinicultura para exportação

28/11/2016, 22:47128

O ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, Capoulas Santos, defendeu a aposta na vitivinicultura enquanto subsetor da agricultura portuguesa com maior vocação exportadora.

Com 240 mil hectares de vinha plantada, Portugal produz 700 milhões de litros de vinho

O ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, Capoulas Santos, defendeu esta segunda-feira a aposta na vitivinicultura enquanto subsetor da agricultura portuguesa com maior vocação exportadora.

"Este é um setor cuja dinâmica nos deve orgulhar", disse Luís Capoulas Santos, em Coimbra, na apresentação do Plano Estratégico de Apoio à Fileira dos Vinhos das Denominações de Origem do Centro. Na sua opinião, "faz todo o sentido apostar no setor vitivinícola, para honrar o passado", mas também numa perspetiva de futuro.

No setor vitivinícola, Portugal "situa-se entre os 10 primeiros países do mundo", realçou o ministro da Agricultura, ao classificar o plano como "opção estratégica muito válida".

Financiado pelo Programa Operacional do Centro 2020, o projeto visa "apoiar a cadeia de valor dos vinhos, desde os recursos naturais até à promoção junto do consumidor final", segundo a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDRC). O plano representa 3,5 milhões de euros de investimento total, dos quais três milhões são financiamento do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), cabendo aos privados um encargo de 500 mil euros.

"Ninguém perde identidade por trabalhar em conjunto", salientou a presidente da CCDRC, Ana Abrunhosa, na cerimónia de apresentação da iniciativa. Dos três milhões de apoio do FEDER, "um milhão é para inovação", disse Ana Abrunhosa.

O plano estratégico envolve a CCDRC e as comissões vitivinícolas regionais (CVR) de Lisboa, Dão, Bairrada, Beira Interior e Tejo.

Congregar os esforços das cinco CVR da região Centro, intensificando as colaborações e reforçando o trabalho em rede, quer ao nível da inovação quer do desenvolvimento tecnológico na produção dos vinhos, deverá ser um dos principais resultados da concretização deste programa, que pretende reforçar o peso na economia regional da fileira do vinho e afirmar a nível nacional e internacional a Região Centro como uma região vitícola", segundo a CCDRC.
Em 1970, quando a população de Portugal rondava os 10 milhões de pessoas, cada uma "bebia em média 85 litros de vinho por ano", disse, na Quinta das Lágrimas, o presidente da Comissão Vitivinícola de Lisboa, Vasco Avilez, a quem coube apresentar o plano estratégico, que junta pela primeira vez as cinco CVR do Centro.

"Hoje, bebe-se menos, mas bebe-se melhor", sublinhou, explicando que cada português consome atualmente uma média anual de 42 litros de diferentes vinhos.

Com 240 mil hectares de vinha plantada, nas diferentes regiões vitivinícolas, Portugal produz sete milhões de hectolitros (700 milhões de litros) de vinho. Destes, quatro milhões de hectolitros de vinho são consumidos no mercado interno, enquanto o restante se destina à exportação, no valor de 1.000 milhões de euros, enfatizou Vasco Avilez.

Este programa deverá contribuir para aumentar a competitividade do setor, mas também para fomentar a sua internacionalização e notoriedade", defendeu Ana Abrunhosa.
A região Centro integra as denominações de origem da Beira Interior, da Bairrada e do Dão, parcialmente a de Lisboa e residualmente a do Tejo.

A região é responsável por cerca de 37% da área total de vinha existente em Portugal e 35% da produção de vinho nacional. O Centro exporta entre 40 a 50% da sua produção, consoante as regiões.

Governo vai investir 500 milhões de euros em programa de regadio até 2020

26/11/2016, 14:00


Governo vai implementar, até 2020, um programa de regadio em que serão investidos 500 milhões de euros para levar a água a 90 mil hectares de terrenos agrícolas, anunciou ministro da Agricultura.


O Governo vai implementar, até 2020, um programa de regadio em que serão investidos 500 milhões de euros de euros para levar a água a 90 mil hectares de terrenos agrícolas, anunciou o ministro da Agricultura, Capoulas Santos.

O programa de regadio representa, segundo o ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, Luis Capoulas Santos "um investimento global, na ordem dos 500 milhões de euros", dos quais metade está garantida "através do PDR (Programa de Desenvolvimento Rural) 2020" e o restante está a ser negociado "com o Banco Europeu de Investimento, através do plano Juncker".

De acordo com o Governante o programa permitirá irrigar cerca de "90 mil hectares [de terrenos agrícolas] de Norte a Sul do país", mas, sublinhou, " incidirá sobretudo sobre a ampliação do projeto do Alqueva em mais 47 mil hectares".

Segundo o ministro o Ministério da Agricultura tem já "uma listagem de projetos que excedem, até em muito o financiamento" disponível, e que serão selecionados tendo em conta "o custo/benefício".

A primeira tranche de projetos serão selecionados "até ao final deste mês" e a lista definitiva de investimentos será conhecida "no primeiro trimestre [de 2017] ", adiantou Capoulas Santos.

O ministro falava em Óbidos à margem da cerimónia da delegação de competências para a assinatura do contrato para a Rede de Rega de Óbidos e lançamento do concurso para a construção do Bloco de Rega da Amoreira

A obra integra-se na construção da Rede de Rega do Aproveitamento Hidroagrícola das Baixas de Óbidos e Amoreira (terrenos agrícolas que se estendem entre os concelhos de Óbidos e Bombarral), num investimento de 28 milhões de euros, dos quais 22,2 milhões comparticipados pelo Programa de Desenvolvimento Regional (PRODER).

A rede irá irrigar 1185 hectares de culturas hortícolas e frutícolas dos concelhos de Óbidos e Bombarral, beneficiando cerca de 900 agricultores.

O projeto inclui a construção de uma estação elevatória (atualmente em obra) orçada em 3.259.256,57 euros e dois blocos de rega: o de Óbidos, com um custo de 8.732.000,42 euros e o da Amoreira, adjudicado por 4,2 milhões de euros.

Serão ainda 40 quilómetros de caminhos agrícolas e uma rede de drenagem com uma extensão de 10 quilómetros.

A rede de rega, reivindicada pelos agricultores há 30 anos, é, segundo o presidente da câmara de Óbidos, Humberto Marques, "o maior investimento alguma vez feito no concelho" e permitirá "triplicar a rentabilidade" aumentando o cultivo de hortícolas e frutícolas para "30 a 40 toneladas por hectare".

A rede de rega vem juntar-se à construção da Barragem do Arnóia, uma obra de 6,5 milhões de euros, concluída desde 2005.


domingo, 4 de dezembro de 2016

Como garantir a sustentabilidade do Alentejo

Bruno Lobo
 28 Nov 2016

A região tem em marcha um plano de sustentabilidade ímpar que a vai colocar na vanguarda do setor dos vinhos em toda a Europa. E não se trata só de vantagem competitiva.

"Não existe algo assim em nenhum outro país da Europa", começa por afirmar o presidente da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA), Francisco Mateus, com quem nos encontrámos precisamente para conhecer este plano. "Somos a primeira região a ter um plano integrado", explica.

A produção do Alentejo é hoje consumida maioritariamente em Portugal. Apenas 30% é exportado, mas existe a clara consciência de que "o mercado nacional não tem capacidade para crescer mais, pelo que temos de olhar lá para fora".

A muito breve trecho, vários países importadores – sobretudo no Norte da Europa – terão normas apertadas para os vinhos que não cumpram regras de sustentabilidade. Proibindo, pura e simplesmente, como será o caso do governo sueco já em 2020, ou taxando de tal forma que colocam em causa a viabilidade do negócio. É, por exemplo, o caso do Canadá. A ideia da CVRA é colocar os seus produtores na dianteira desta nova realidade.

"Trata-se da diferença entre a entrada no comboio na primeira carruagem ou à pressa, na última", acrescenta João Barroso, responsável pelo projeto na CVRA. Até porque, apesar de não existir algo parecido na Europa, "no novo mundo – EUA, Austrália e Nova Zelândia, Chile – é quase prática corrente. Estamos num mercado global e, se muitos dos concorrentes o fazem, parece-me lógico que mais cedo ou mais tarde os outros países o façam também", refere.
Mas o plano não se resume a uma vantagem competitiva. O âmbito é maior porque as pressões ambientais são um problema real no Alentejo. Em última análise, o fim será "garantir condições para que o Alentejo consiga produzir vinhos durante muitos e muitos anos. Uvas e vinhos de qualidade, economicamente viáveis", aponta Francisco Mateus. De facto, negócio e proteção ambiental estão intimamente ligadas: adotando as boas regras promove-se um consumo menor de recursos como água e energia.

Poupança de água

João Barroso dá o exemplo de um produtor que passou para um modelo de reutilização de águas "e, com um investimento de mil euros, conseguiu poupar 30 milhões de litros de água por ano. No Alentejo temos de tudo. Produtores gastam 14 litros de água para produzir um litro de vinho. Outros apenas litro e meio. Não é incomum gastarem-se oito, 10 litros. Muitas pessoas não têm ideia, mas a água é um dos maiores custos no vinho."

E existem outros exemplos, como "as casas de morcegos. Não custam nada, são uma caixa de madeira com dimensões adequadas a morcegos e basta uma para 50 hectares de vinha. Os morcegos comem os insetos e ajudam a prevenir as pragas. Não se usam pesticidas, poupa-se dinheiro e não se prejudica o meio ambiente. Em Cortes de Cima, como têm muitas pragas de caracóis, combatem-nos com um bando de gansos que entram nas vinhas e os comem." Veja-se também o exemplo da Adega de Borba, que tem o maior telhado verde (relvado) da Europa. "Como baixa a temperatura no interior, reduzem-se enormemente os custos energéticos."
O plano está organizado em três setores – Viticultura, Adega e V&A – para corresponder à diversidade dos membros da Comissão que podem ser apenas produtores de uva, adegas ou ter o ciclo completo. Os critérios a cumprir são extensos e apertados. "São 119 mas estamos já a acrescentar uma segunda leva para, em 2018/19, termos tudo pronto para poder certificar os produtores." Essa certificação será atribuída por uma entidade externa.
"Estamos no terreno há um ano e meio, dois anos", confessa o presidente dos Vinhos do Alentejo. "Em pouco tempo passámos para 90 membros e agora já contamos com 126. Nota-se uma boa aceitação."

Poderá parecer uma realidade reduzida, dado o universo de dois mil associados, mas representam "20% da área de vinha e 43% da produção." Trata-se das grandes referências, como as Adegas Cooperativas de Borba e Vidigueira, a Fundação Eugénio de Almeida, Esporão, Herdade do Peso, das Servas ou Cortes de Cima, entre muitos outros.
"O que nos interessa é chegarmos em breve a um ponto em que possamos dizer não que A ou B são sustentáveis, mas toda a região. Não se trata de greenwashing", conclui.

Investigadores criam primeira abelha robótica capaz de polinizar

28/11/2016, 14:57172

Investigadores da Universidade Politécnica de Varsóvia criaram a primeira abelha robótica, concebida para polinizar artificialmente.



O robô "não pretende substituir os insetos, mas ajudar o seu trabalho e complementá-lo", garantiu o investigador, que se recusa a comentar se são as abelhas reais ou os drones quem poliniza melhor


Investigadores da Universidade Politécnica de Varsóvia criaram a primeira abelha robótica, concebida para polinizar artificialmente, um 'drone' em miniatura que consegue encontrar uma flor, recolher o pólen e transferi-lo para outra flor e fertilizá-la.

Este inseto robótico já foi testado com sucesso no campo e a sua capacidade de polinizar surge como uma "alternativa esperançosa" para enfrentar a redução constante da população mundial de abelhas, disse o seu criador, o engenheiro Rafael Dalewski.

"No verão passado, fizemos o teste e já temos a primeira semente obtida através desta polinização artificial, pelo que fica provado que o nosso robô pode fazer quase o mesmo que as abelhas reais", explicou.

O robô "não pretende substituir os insetos, mas ajudar o seu trabalho e complementá-lo", garantiu o investigador, que se recusa a comentar se são as abelhas reais ou os drones quem poliniza melhor.

No entanto, o engenheiro admitiu que não foi capaz de conceber um 'drone' que consiga produzir mel, mas, admitiu, "a tecnologia avança muito depressa e cada vez surpreende mais".

O 'biodrone' pode ser programado para se concentrar numa determinada área ou para procurar flores de um determinado tipo para polinizar, tudo através de um programa informático.

A Politécnica de Varsóvia criou dois tipos de 'drones' polinizadores, um voador e outro terrestre, ambos equipados com uma espécie de espanador que espalha o pólen entre várias flores.

O terrestre tem mais autonomia de trabalho e sua bateria é mais duradoura, e, assim, "o agricultor pode retirar-se tranquilamente a casa e deixar o 'drone' a trabalhar, até que regresse de forma autónoma à sua fonte de energia".

Rafael Dalewski afirma que estes robôs podem ser também utilizados para uma "agricultura de precisão" como "doseadores inteligentes" de fertilizantes, adubos ou pesticidas, já que podem ser programados para depositarem determinadas quantidades, dependendo do tipo de planta ou de localização.

A universidade estima lançar os primeiros protótipos no próximo ano e iniciar o seu fabrico em sério dentro de dois anos.

A invenção é particularmente significativa tendo em conta que a mortalidade dos insetos polinizadores, de que dependem a maioria dos cultivos, aumenta todos os anos sem que se conheçam as causas.

Este fenómeno já é global, especialmente nos países com uma agricultura muito desenvolvida, e levou a que muitos cientistas alertem para os efeitos de um mundo sem abelhas.

Em 2014, a União Europeia fez um primeiro estudo sobre a mortalidade das abelhas, que apontou números entre 3,5% e 33,6%, dependendo dos países.

As abelhas são agentes fundamentais para a polinização, tanto para os cultivos como para a natureza. Se tal não ocorresse, o rendimento da agricultura baixaria, ameaçando espécies de plantas cujo único meio de polinização são as abelhas.

"A dieta mediterrânica é uma invenção americana"



Massimo Montanari é reconhecido como um dos maiores especialistas da história da alimentação. É professor de História Medieval e de História da Alimentação nas universidades de Bolonha e de Ciências Gastronómicas de Pollenzo

Itália é conhecida pela gastronomia. É difícil manter a imagem de que é um país onde se come bem?

Acho que para a Itália não é difícil. Itália é um país onde se come bem, concordo, mas come-se bem em tantos lugares no mundo. Acho que o específico da cultura e da cozinha italiana é a variedade. Isto é, o facto de em cada região, província, cidade e vila existirem receitas diferentes com alguns aspetos comuns. Acredito que este aspeto da variedade é aquele que faz que exista tanta procura da cozinha italiana no mundo. Vivemos numa época de globalização e em reação a este facto existe grande procura de cozinha ligada a territórios muito diferentes entre eles, não codificados. Isto é o que acredito ser a tradição italiana.

A cozinha italiana tem muita variedade, mas pensamos sempre em dois ou três elementos base: a massa, a piza...

Sim. Este é um bom exemplo. Falamos de massa e sabemos exatamente do que estamos a falar. Mas, depois, se tenho de representar concretamente o que é esta massa, há centenas de formas, centenas de molhos e condimentos, entre os quais há um aspeto comum, mas existe sobretudo uma grande diversidade.

"O prato italiano mais famoso - o esparguete à bolonhesa - não existe"
A cozinha italiana é também uma das mais imitadas no mundo. As imitações são facilmente bem conseguidas ou já se cruzou com restaurantes italianos, que de italianos não tinham nada?

O problema é a que a tradição italiana não existe. Isto é, não é codificada numa forma rígida. Este facto de que a cozinha italiana se pode imitar facilmente é um elemento de fraqueza, mas também de força. É de fraqueza porque nunca estamos certos de que aquilo que estamos para comer é aquilo que esperamos comer. Mas é um elemento de força exatamente devido a esta grande adaptabilidade da cozinha italiana que se mistura com tudo. Costumo dizer que é uma cozinha sociável. O próprio facto de não ser codificada torna-a imitável. Mas não acho que seja um mal, porque não sou purista. Não acredito que existam receitas verdadeiras e receitas falsas.

Alguma vez comeu um prato italiano noutro país e pensou que aquilo não era italiano?

Algumas vezes deparei-me com pratos italianos que não reconheço. Quando são pratos demasiado complicados. Até com a piza isto acontece. A piza italiana é feita sobre o reconhecimento dos sabores simples. Quando se torna demasiado complicada não é italiana. O prato italiano mais famoso do mundo - o esparguete à bolonhesa -, em Itália não existe. Em Bolonha ninguém o faz, quer dizer, hoje faz-se para os turistas. Mas este é um típico caso de invenção de um prato sobre uma base que depois se definiu italiana. Pega-se num molho, numa massa e se funciona, se agrada, porque não? É novo. Existem regras, mas existem também muitas exceções.

E isso não é um problema?

Não. Comi cozinha italiana no Japão, feita por chefs japoneses, extraordinária. Comi na Suécia, com peixe local, era cozinha sueca, mas senti que existia um toque italiano, na maneira como que vieram apresentados os produtos, no uso do azeite.

A tradição gastronómica é também um trunfo, usado por exemplo na diplomacia?

A comida sempre foi um facto político, seja porque é um símbolo de pertença a uma comunidade, de identidade, seja porque simplesmente é usado politicamente como mensageiro de um país. A comida exprime cultura, identidade, logo é um instrumento de comunicação formidável. Mas isto não é válido só para Itália, vale para todos os países que têm uma cultura culinária.

Hoje existem ameaças a esta identidade gastronómica?

Não diria ameaças, mas de reelaboração de identidade. Sublinho sempre que quando usamos a palavra identidade temos de pensar no plural, isto é, são muitas identidades. Não devemos pensar na identidade como um facto que é singular e imutável. Penso que existem na história da cozinha italiana, da Idade Média até hoje, continuidades importantes. Por exemplo, o facto de ser uma cultura que cresceu sob o signo da solidariedade, da comparação - nunca no sentido de descodificar a receita verdadeira, mas confrontar receitas diferentes - e a importância de certos produtos, como o parmesão, por exemplo. Na cultura gastronómica italiana, muitos nomes de produtos locais - o parmesão é produzido em Parma - são ligados a lugares, o que significa que estes lugares circulam. Porque se este produto fosse consumido só em Parma, não tinha este nome. Mas esta identidade muda. É inevitável, não é uma ameaça, é uma evidência.

Como se podem relacionar as cozinhas internacional e local?

A cozinha internacional muda a cozinha local, necessariamente porque hoje viajamos muito. A primeira maneira de conhecer os outros é comer a sua cozinha. É óbvio que se a cozinha italiana vai para a China, muda, e se a chinesa vem para Itália, muda. Mas este é o jogo da história, isto é, tudo aquilo que se move muda, porque entra em contacto com outra cultura. Penso que se pode ter uma cozinha italiana mais ligada ao passado, mais conservadora, mas pode ter-se também uma cozinha mais aberta a influências externas. Devemos ter um olhar aberto, tolerante. Pensar que há lugar para todos.

A dieta mediterrânica ainda é um exemplo de alimentação saudável?

A dieta mediterrânica é uma invenção americana. O que é a dieta mediterrânica? É a italiana, a grega, a marroquina, a espanhola? São tantas cozinhas diferentes. Quando a UNESCO reconhece a dieta mediterrânica como património da humanidade, não fala de receitas nem de produtos. Mas numa relação com a comida que é feita de sabermos o que estamos a comer, de convívio à mesa. É mais um modo de viver do que um modo de comer. E se antes falávamos das identidades que mudam, pensemos quantos produtos vêm da Ásia ou da América e compõem esta dieta. O tomate é americano, a beringela vem da Ásia e são essenciais.

Hoje é o momento da história em que se come melhor?

Não é possível responder a essa pergunta. Digamos que é um momento feliz, em que podemos escolher. Existe a fast food, mas podemos não ir. Temos de ter sempre em mente que comer não é imposto por quem faz a comida, mas é uma escolha de quem come. Somos nós que decidimos. Se estou em frente a uma trattoria romana e a um McDonald"s sou eu que decido onde entro. Há lugar para os dois.

Mas come-se melhor agora?

Penso que sim. De facto, depende com que época queremos comparar. Digamos que entre os anos 1960 e 1970, na Europa, houve um momento de grande distanciamento da cultura da comida porque era o momento do boom industrial. Tudo se tornou industrial, e as pessoas deixaram de cozinhar, de saber o que comiam. Foi um momento muito baixo na nossa cultura. Em relação a este momento houve uma melhoria, porque agora se fala muito de comida - demasiado, talvez, porque todos falam nos jornais, na televisão -, mas esta é também uma coisa positiva porque quer dizer que se está a dar novamente valor a este aspeto da vida. Existe muito mais atenção, sobretudo nas gerações mais jovens, não só com o que comem, mas também a cozinhar, para conhecer o que se faz e controlar o que se faz.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Governo quer regular apanha de cogumelos

21-11-2016 
 

 
O Governo quer regular a apanha de cogumelos silvestres para dar mais garantias aos consumidores e melhorar o rendimento dos produtores. A informação foi avançada a Lusa pelo secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, Amândio Torres, que salientou, numa resposta escrita, que esta é «já uma actividade com alguma expressão, que tem sido encarada como fonte de rendimento para muitas famílias».


O governante explicou que actualmente os cogumelos são recolhidos e vendidos «sem qualquer controlo, nomeadamente, para intermediários estrangeiros» que os compram informalmente, para depois vender aos seus clientes.


O secretário de Estado defende que os cogumelos silvestres são um recurso a preservar e valorizar, que pertence ao proprietário da terra «e por isso pode constituir um acréscimo de rendimento à actividade da gestão florestal».


Segundo Amândio Torres, a regulamentação da actividade permitirá colocar os cogumelos silvestres no mercado, «com controlo, dando garantias aos consumidores, a quem se dedica à actividade de recolha e também aos proprietários da terra que os produz».


Além disso, permitirá organizar a actividade para ganhar escala e mercado, adiantou, prometendo «algumas novidades sobre esta matéria a curto prazo».

Fonte: Lusa

O que é que Portugal tem? Mais sabor e cor


Para se abastecer, o país vizinho importa produtos alimentares dos seus parceiros europeus. Portugal é o quarto principal fornecedor e com quem mantém estreita ligação desde sempre. Azeite, polvo e laranjas são os três mais comprados a Portugal.

ANA RUTE SILVA


Azeite alentejano embalado com o rótulo "produzido na União Europeia", laranja sumarenta do Algarve que não chega a ver as bancas de fruta portuguesas, polvo nacional que é servido em tapas ou exportado por Espanha para o Japão, tomate de cor e sabor cobiçados pela indústria alimentar. Nas prateleiras dos supermercados espanhóis, cabem todos estes alimentos, incluídos na lista dos dez produtos agrícolas e alimentares que o país vizinho mais comprou a Portugal em 2015. Apesar de não ser a despensa espanhola — esse título cabe a França —, Portugal é o quarto local preferido de Espanha para se abastecer.


No ano passado, 36,6% dos bens agro-alimentares produzidos em solo nacional e exportados tiveram Espanha como destino. Por seu lado, também foi a Espanha que Portugal foi comprar 48,1% dos alimentos que importou. A relação entre os dois países tem-se mantido firme e intocada pela crise, embora a dependência portuguesa seja mais evidente. A proximidade geográfica e os hábitos de consumo semelhantes fazem com que Espanha seja o destino mais relevante do comércio internacional português.

A Andaluzia anda feliz com o nosso "ouro verde"

Contudo, do outro lado da fronteira, os olhos estão postos para lá dos Pirenéus. França é o principal parceiro comercial de Espanha, escolha justificada pelo Ministério da Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente pela "proximidade geográfica e a importância do sector em ambos os países". Segue-se a Alemanha, em segundo lugar também nas exportações e nas importações. Portugal é o quarto principal parceiro, onde Espanha se abastece e para onde destina os seus produtos alimentares, depois dos Países Baixos.

A poderosa indústria alimentar ocupa um lugar de destaque na economia espanhola, valendo perto de 21% das vendas da actividade industrial e 18,2% do emprego. Representa ainda 17,6% do total das exportações. À sua escala, Portugal tem para oferecer alguns produtos e ajuda, assim, a reforçar a forte posição da indústria alimentar de Espanha no mercado internacional: é a quinta que mais factura na União Europeia, destacando-se sobretudo na exportação de azeite, carne de porco (é o maior produtor da UE), vinho, tangerinas e laranjas.

Enrique Santos, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, diz que os dois mercados são "cada vez mais inter-relacionados e interdependentes". "Para as empresas portuguesas, o mercado espanhol tem enormes potencialidades, tendo em conta as vantagens competitivas quando comparadas com outros mercados, por exemplo, a proximidade geográfica e cultural com tudo o que isto significa em termos de custos, em que o sector agro-alimentar tem um peso importante", afirma. Enrique Santos recorda ainda que Espanha é o "maior cliente e fornecedor do mercado português e os números do comércio bilateral não param de aumentar".

Espanha é o maior cliente e fornecedor do mercado português e os números do comércio bilateral não param de aumentar"

Uma relação selada a azeite
O exemplo mais relevante nesta relação duradoura é o do azeite, o principal produto agro-alimentar exportado para Espanha e também aquele que o país vizinho mais exporta para mercados internacionais (2825 milhões de euros em 2015). No ano passado, os produtores nacionais de azeite virgem venderam mais de 165 milhões de euros deste produto aos espanhóis, o valor mais elevado desde 2013 e 51% acima do que se verificou em 2014.

Em 2015, Espanha sofreu quebras de 50% na produção, o que obrigou o maior produtor mundial de azeite a comprar ainda mais fora esta matéria-prima. O presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola adianta que a procura de azeite "rondou os 1,45 milhões de toneladas e as disponibilidades não ultrapassaram os 1,3 milhões".


Se não os podes vencer, junta-te a eles
"Foi um ano muito complicado para o mercado espanhol de azeite. Houve uma importante quebra na produção em cerca de 50%, e as razões são fundamentalmente de ordem climática. Espanha viu-se forçada não apenas a importar de Portugal mas também de outros mercados produtores, como Marrocos, Grécia ou Tunísia. O mercado espanhol conta como um importante mercado de exportação de azeite e, em 2015, viu-se forçado a dar resposta a estes mercados. Daí a necessidade de importar azeite", detalha.

Os produtores espanhóis têm investido directamente no olival nacional para suprir necessidades do seu mercado e o Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo estima que explorem 50 mil dos 177 mil hectares de olival existentes nesta região (onde se produz 76% de todo o azeite nacional).

Em termos globais, a produção em Portugal registou um máximo histórico em 2015, atingindo 1,19 milhões de hectolitros: foi o terceiro maior registo dos últimos cem anos. Foram precisamente estes olivais do Alentejo, de produção intensiva e superintensiva, com variedades de azeitona mais produtiva e dotados de sistemas de rega que "compensaram largamente a baixa produtividade observada em muitos olivais tradicionais de sequeiro do interior Norte e Centro", referiu recentemente o INE.

As exportações para Espanha têm estado a aumentar devido à qualidade do nosso polvo, o melhor do mundo, com uma alimentação rica em marisco

Mas de Espanha não vem apenas o interesse pelo azeite português. O polvo é o segundo principal produto vendido aos parceiros ibéricos, não fosse Portugal o segundo exportador mundial da espécie octopus spp, apenas superado pela China. No ano passado, os espanhóis gastaram quase 90 milhões de euros em polvo, um crescimento de 43% face a 2014 que não surpreende José Agostinho, presidente da Associação dos Armadores de Pesca de Polvo do Algarve (Armalgarve Polvo).

"Além de comprarem directamente no mercado, há várias empresas portuguesas que exportam para Espanha, quer fresco, quer congelado. Ultimamente, as exportações para Espanha têm estado a aumentar devido à qualidade do nosso polvo, o melhor do mundo, com uma alimentação rica em marisco", conta. Os espanhóis vêm atraídos pela qualidade "e pagam-na". E a popularidade crescente deste molusco, que escorrega facilmente das lotas nacionais para outros destinos, também está relacionada com um esforço de divulgação que tem sido feito pelos pescadores e autoridades de pesca. Os consumidores, diz José Agostinho, não sabiam comer polvo, mas hoje sabem que podem usá-lo de formas diversas, a ponto de rivalizar com o bacalhau.

Os espanhóis consomem-no, por exemplo, em tapas, mas a verdade é que nem todo o polvo português termina a viagem em Espanha. "Compram aqui, mas depois transportam-no para o Japão. E o produto é nosso", revela o presidente da Armalgarve, que quer aumentar as vendas para oriente. Os armadores estão, por isso, a "trabalhar para reduzir os intermediários e fazer a exportação directa", numa tentativa de disputar o mercado com os espanhóis. Ao mesmo tempo, a venda de polvo vivo para o Japão e para a Coreia do Sul está em fase final de ensaio na Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (a maior do país). Falta encontrar os clientes certos, dispostos a comportar os custos de transporte. "Já é possível exportar polvo vivo, mas falta encontrar os preços certos e os compradores certos. O custo de transporte é maior, tem de ser por avião e estamos a tentar arranjar clientes", adianta.

No Algarve, o interesse espanhol estende-se à laranja. Pedro Madeira, director da Frusoal, conta que, com maior capacidade de compra, Espanha tem comprado laranja portuguesa a preços acima do mercado e combinado com antecedência o negócio. "É por isso que muita laranja está a ir para Espanha", explica o responsável desta organização de produtores. Em Portugal, diz, as "cadeias de distribuição não acompanham os preços espanhóis e, por isso, temos durante menos tempo laranja nacional à disposição dos portugueses".

O ano passado, a exportação de laranjas para Espanha disparou 58%, chegando perto dos 67 milhões de euros. Nunca foram tão valorizadas como em 2015: em 2013, as exportações valiam 34 milhões de euros (e ocupavam o 6.º lugar entre os produtos agro-alimentares fornecidos a Espanha); em 2014, mais de 42 milhões de euros. Ao mesmo tempo, as laranjas são um dos cinco produtos que Espanha mais exporta para outros mercados, com o valor das vendas a atingir uns expressivos 1160 milhões de euros.

Em termos de cor e sabor, o tomate português é melhor do que o espanhol

Na lista dos dez principais produtos vendidos a Espanha, está o tomate, considerado o melhor do mundo, sobretudo pela indústria alimentar, que depois produz molhos e todo o tipo de sucedâneos. Espanha também vem abastecer-se (desembolsou perto de 35 milhões de euros, segundo o INE) nas versões "fresco e refrigerado".

Miguel Cambezes, presidente da Associação dos Industriais do Tomate (AIT), detalha que os espanhóis utilizam a matéria-prima produzida em Portugal devido à proximidade geográfica e às características do tomate que aqui encontram, com mais cor e sabor. "Há uma organização de produtores que tem a sua zona de influência em Elvas, mais próximo de fábricas espanholas da Estremadura do que das unidades portuguesas do Alentejo. Há contratos [de venda] que são firmados previamente e esta organização não entrega um quilo de tomate a Portugal", conta. Há também fábricas espanholas que arrendam terrenos em Portugal onde produzem tomate para se abastecer, continua.

Há ainda produtores portugueses que, não estando localizados na zona de Elvas, "entregam tomate ao abrigo de contratos firmados com a indústria espanhola e que são usados para a produção de pasta de tomate, sumos ou cubo", adianta. Convivem duas realidades: tomate que é produzido e transformado em Portugal e enviado, depois, para Espanha. E tomate produzido em território nacional e transformado no país vizinho.

De acordo com Miguel Cambezes, Portugal transforma 1 milhão e 507 mil toneladas, enquanto Espanha processa mais de dois milhões e 950 mil toneladas, "onde estão incluídos os tomates portugueses". "Em termos de cor e sabor, o tomate português é melhor do que o espanhol. A cor é reconhecidamente muito boa e quando misturo concentrado feito com tomate português estou a melhorar o meu produto", garante.


Esclarecimento sobre a doença da "Língua Azul"

DGAV

25 de novembro, 2016


A "Língua Azul" é uma doença viral, infeciosa não contagiosa, que atinge os ruminantes não sendo transmissível aos humanos. Estão descritos 26 serotipos do vírus sem imunidade cruzada, que resultam em doenças diferentes.

O agente é transmitido por insetos do género Culicoides, que são os vetores biológicos, dependendo a distribuição geográfica da doença da presença de certas espécies de Culicoides (nomeadamente C. imicola, C. obsoletus e C. pulicaris). Em Portugal encontra-se atualmente em circulação o serotipo 1 da Língua Azul na totalidade do território continental e o serotipo 4 na região do Algarve.
As Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira são livres de "Língua Azul".

O serotipo 1 da "Língua Azul" surgiu pela primeira vez em Portugal em setembro de 2007, na região do Alentejo, tendo-se alargado à região Norte em outubro de 2008.

O acompanhamento e o controlo da "Língua Azul" são efetuadas através da delimitação de áreas geográficas, com imposição de restrições à movimentação animal, através de planos de vigilância clínica, serológica e entomológica que permitem monitorizar a evolução da doença e através de programas de vacinação para controlar a dispersão do vírus.
Estão em curso campanhas de vacinação obrigatória dos ovinos reprodutores e dos jovens destinados à reprodução dos efetivos das áreas consideradas de risco. Fora das áreas de risco é ainda permitida a vacinação voluntária dos ovinos e bovinos, mediante procedimento específico.

Em 2012 ocorreram dois focos de BTV1, sem mais ocorrências nos 3 anos seguintes. A doença ressurgiu em setembro de 2015 na região do Alentejo, com os primeiros focos identificados nos concelhos de Moura, Mértola e Serpa, atingindo outros concelhos da região e também a região do Algarve. Nesta sequência foi determinada a vacinação do efetivo ovino reprodutor adulto e dos jovens destinados à reprodução nas áreas de circulação viral.

Em 2016, na sequência de suspeitas clinicas num efetivo de ovinos do concelho de Benavente, foi confirmado um foco de serotipo 1 de Língua Azul, que determinou a 25 de outubro, o alargamento da área de vacinação obrigatória aos concelhos de Benavente, Coruche, Alcochete, Palmela e as freguesias de Canha e Pegões do concelho do Montijo, através do Edital 41. Posteriormente a circulação do vírus veio a detetar-se em diversos efetivos de ovinos dos concelhos de Abrantes, Chamusca, Setúbal, Sardoal, Proença-a-Nova e Fundão, o que determinou novo alargamento da área de vacinação obrigatória através do Edital 42, publicado a 18 de novembro.


De referir que a região de Lisboa e Vale do Tejo foi afetada por circulação viral de serotipo 1 em 2008 e em 2010, nos concelhos de Montijo, Palmela e Setúbal, sendo estas novas ocorrências de 2016 as primeiras a serem registadas no Ribatejo Norte.
A vigilância clinica é um componente essencial da estratégia em curso pelo que se recomenda aos detentores dos animais e aos médicos veterinários assistentes, que comuniquem aos serviços veterinários oficiais qualquer indício de doença, face á importância de uma deteção precoce.

O Portal da DGAV disponibiliza informação atualizada sobre a doença - www.dgav.pt
Lisboa, 25 de novembro de 2016

A Andaluzia anda feliz com o nosso “ouro verde”


Muita água, que escasseia na Andaluzia, muita terra boa e barata disponível e apoios estatais e da União Europeia trouxeram centenas de agricultores espanhóis, muitos andaluzes, para o Alentejo. Compraram milhares de hectares para olival e estão contentes. Muitos continuam de olho em Portugal.

 Luciano Alvarez

José Luis Robles, 41 anos, vai todos os dias ao seu olival desde que a campanha da apanha da azeitona começou no início de Outubro. Avalia a qualidade do fruto, a forma como a rega é feita, dirige a recolha ali ainda feita à mão e o transporte para a cooperativa onde é transformada em azeite ou segue para embalar como azeitona de mesa. É ele que gere o negócio nas mãos da família há várias gerações. Também produz amêndoas, mas azeite é o seu "grande amor".

O olival fica na região de Estepa, cerca de 120 quilómetros a sudoeste de Sevilha. É uma propriedade pequena, quando comparada com os grandes olivais da Andaluzia. São 140 hectares, onde crescem 28 mil oliveiras, que vão dar cerca de 1,5 milhões de quilos de azeitona no final da campanha — 75% da produção será de azeitona de mesa e 25% vai para azeite. Cerca de 95% do produto será para exportação para diversos países.

Nos últimos oito anos, José Luis Robles fez "várias visitas de trabalho ao Alentejo" à procura de terras para que pudesse "expandir" o negócio. "Na Andaluzia já não há muita terra disponível, especialmente se se procuram muitos hectares. Por isso, Portugal, e em especial a região do Alentejo, onde havia muita terra disponível e de qualidade, foi vista por muitos como uma nova oportunidade de expansão do negócio. Para mim, o Alentejo é uma espécie de nova Califórnia [risos]."

Espanha é o maior produtor mundial de azeite, estimando-se que após a campanha da apanha de azeitona que começou no início de Outubro a produção espanhola em 2016/2017 possa chegar a 50% de todo o azeite que é colocado no mercado mundial. Uma subida de cerca de 9% em relação à campanha de 2015/2016.

50%
de todo o azeite que é colocado no mercado mundial estima-se que venha da campanha espanhola de 2016/2017
Segundo o Conselho Olivícola Internacional, a região da Andaluzia, que faz fronteira com o Algarve e Alentejo, deverá ser responsável por perto de 70% do azeite que é produzido no país. Dos cerca de 2,5 milhões de hectares de olival existente em Espanha, mais de 1,5 milhões estão nesta região. Na Andaluzia as azeitonas são também chamadas de ouro verde.

Com a construção do Alqueva, as terras alentejanas tinham por perto algo que há muitos anos escasseia na Andaluzia: água, muita água. Havia também fartura de terra de qualidade disponível, que na Andaluzia já está quase toda ocupada com os mais diversos cultivos. Terra boa e barata, com o hectare a custar no Alentejo cerca de um quinto do que custava naquela região espanhola.

Na Andaluzia, a água para o regadio, além de cara, é absolutamente controlada pelo governo regional, que estabelece a quantidade de metros cúbicos que cada produtor pode usar, tendo em conta factores como a dimensão das propriedades e o tipo de cultura produzida. O executivo da região autónoma espanhola estabelece ainda preços diferenciados para os períodos do dia em que a água é usada, sendo o período nocturno mais barato, o que leva a maior parte dos agricultores a fazer o regadio à noite.

"Foi a água que levou muitos a expandirem-se para Portugal. Durante as minhas visitas [a Portugal], várias pessoas, algumas do Ministério da Agricultura, garantiram-me que no Alentejo se podem passar cinco anos sem cair uma gota de água do céu; e que a água, toda a água que precisasse, não faltaria. Para um agricultor andaluz, ouvir isso é maravilhoso."

Produção dispara no Alentejo
Quando os agricultores espanhóis começaram a passar a fronteira em direcção ao Alentejo compraram milhares de hectares, prepararam os solos para produções mais intensas, instalaram novos sistemas de rega e maquinaria. Com investimentos de milhões de euros, construíram mesmo um sofisticado lagar (Herdade do Carapetal, em Santiago do Cacém), com capacidade de armazenamento de quase 2,3 milhões de quilos de azeite.

PÚBLICO -Foto
Do olival de José Luis Robles, na região de Estepa, perto de Sevilha, vão sair 1,5 milhões de quilos de azeitona no final da campanha CORNELIA SMET/UNIÃO EUROPEIA
Os resultados começaram a aparecer. A produção de azeite na campanha portuguesa de 2015/2016 atingiu as 109.052 toneladas. Um aumento de 75%, comparando com a campanha 2014/2015 e a terceira maior dos últimos cem anos. Para encontrar valores semelhantes, é preciso recuar a 1953 e 1961, anos de elevada produção. A principal região produtora de azeite foi o Alentejo, com 73% do total nacional, quase 80 mil toneladas. Em 2007, os dados do Alentejo eram de 11 mil toneladas. A Espanha foi o principal cliente, para onde Portugal exportou 49% do total (63.970 toneladas).

Em termos globais, a área destinada a olival no país não cresceu muito em 2015/2016, excepção feita à região alentejana, que já tem 177 mil hectares ocupados com oliveiras, mais 25% em comparação com 2007/2008.

177
mil hectares no Alentejo estão ocupados com oliveiras
José Luis Robles estima que existam cerca de 100 produtores espanhóis com terras no Alentejo, "embora só cinco sejam grandes proprietários" de olival.

O agricultor diz que, "nos primeiros anos", os espanhóis que decidiram investir em Portugal "não tiveram uma vida fácil". "Foram obrigados a fazer grandes investimentos em equipamento, preparação de solo e em novas oliveiras. Tiveram de começar tudo do princípio, pois era tudo muito [pausa]… antiquado. Depois veio a crise, que também não ajudou em nada, mas hoje sei que as coisas estão a correr muito muito bem. Têm bons e produtivos olivais e a qualidade da azeitona e do azeite é muito boa. Está a ser um bom negócio e a crescer."

O pesado investimento que terão sido obrigados a fazer foi de alguma forma atenuado pelo preço da terra. Há cerca de dez anos, quando terá começado em força a "expansão" espanhola, o preço de um hectare na Andaluzia "custava no mínimo 20 mil euros, quando no Alentejo era adquirido por cinco mil", revela Robles. "Hoje já não é bem assim. Na Andaluzia, custa cerca de 25 mil a 30 mil euros ou mais e no Alentejo já anda entre os 10 e os 20 mil euros por hectare. Sei que já houve quem recentemente tenha pedido 20 mil euros por hectare."

O ministro e os espanhóis a ensinar os portugueses
Em 2007, dos 22 mil hectares de novo olival no Alentejo, cerca de 11 mil já pertenciam a investidores espanhóis. Os números foram divulgados pelo ministro da Agricultura da altura, Jaime Silva. O governante fazia esta revelação precisamente durante uma visita à Herdade do Sobrado, um investimento do grupo espanhol Bogaris, que adquiriu 1440 hectares em Ferreira do Alentejo (Beja), 1234 dos quais ocupados com 353 mil oliveiras.

Um investimento que entusiasmou de tal forma Jaime Silva que até teve uma frase pouco simpática para os agricultores portugueses. Salientando a "aposta no regadio" que estava a ser feita no Alentejo e a existência de "terrenos óptimos, que produzem tudo desde que tenham água", afirmou que os espanhóis "perceberam" tudo isto e "vieram a correr" para comprar as terras e começar a produzir azeite, "antes que os portugueses descobrissem que o olival dá um lucro potencial fabuloso".

O apoio dos governos portugueses aos agricultores é outro dos aspectos que José Luis Robles aponta para os investimentos de agricultores em Portugal. E não se refere especialmente aos juros mais baixos no crédito bancário ou ao acesso a fundos comunitários, mas ao facto de os governantes lusos "ouvirem os agricultores".

"Em Portugal, ao contrário do que acontece em Espanha e especialmente na Andaluzia, os agricultores são tidos em conta antes de as decisões serem tomadas. Por outro lado, a gestão da água é muito mais correcta. Na Andaluzia, não há água, mas o Governo permite a instalação de culturas como algodão ou cana-de-açúcar, que precisam de muita água. Creio que em Portugal isso nunca aconteceria", afirma.

Em Portugal, ao contrário do que acontece em Espanha e especialmente na Andaluzia, os agricultores são tidos em conta antes de as decisões serem tomadas. E a gestão da água é muito mais correcta
José Luis Robles
Com tanta vantagem, por que não apostou José Luís Robles em Portugal? "Não encontrei nenhum terreno do meu agrado. Vim muitas quintas, recolhi muita informação mas não havia nada a meu gosto. Talvez tivesse ido tarde de mais e o melhor já estava tomado [risos]", explica. Acrescenta, porém, que não desistiu de se "expandir para Portugal". "A região do Alentejo ainda oferece muitas oportunidades."

Nas várias visitas exploratórias que fez a Portugal, diz que apenas detectou um problema: "O preço do trabalho." "Aqui, nas minhas terras, na altura da colheita, pago 46 euros por dia por seis horas de trabalho a cada funcionário, período para almoço incluído. Sei o que tenho de descontar para a segurança social e o trabalhador sabe a sua parte de descontos. Há uma tabela. Em Portugal, cada angariador de trabalhadores com quem falei dava-me um preço diferente pelo dia de trabalho. Era tudo um bocado confuso e eu não posso fazer contas se não souber exactamente o custo do trabalho", revela.

Portugal é garantia de qualidade
Já sobre o facto de parte de o azeite produzido em Portugal acabar por ir para Espanha a granel, e algum dele poder ser vendido como sendo um produto feito nesse país, Robles não vê qualquer problema. "Estamos na União Europeia, não há nenhuma ilegalidade", afirma.

"Acredito que a maior parte da produção fica em Portugal, mas é natural que alguma venha para Espanha. Somos o maior produtor mundial de azeite, mas também importamos, porque a procura ultrapassa a oferta", acrescenta, salientando o facto de haver muitos produtos agrícolas à venda na Europa ou exportados para outros continentes que "apenas referem que o produto tem origem na UE, sem referir um país específico".

Nesta matéria, Robles tem uma coisa como certa: "Se o azeite vem de Portugal para ser vendido em Espanha ou para ser exportado, é porque o produto é bom. A qualidade do azeite português é hoje muito boa."

Uma garantia que não é oferecida por países como Marrocos, Turquia ou Egipto, que também exportam azeitonas e azeite para Espanha. Conta mesmo uma história de há dois anos, em que a produção de azeitona Gordal (a azeitona de mesa de maiores dimensões) foi fraca. Face à escassez de matéria-prima, um grande produtor andaluz importou várias toneladas do Egipto para exportar para os Estados Unidos. Só que, conta, a qualidade da azeitona "estava longe da que os consumidores estavam habituados" e "no ano seguinte teve uma quebra nas exportações".



De qualquer forma, estas importações de azeitona ou azeite, que são feitas por todos os principais países produtores para conseguirem responder à procura, é algo que não afecta José Luís Robles. O azeite do seu olival, bem como o das outras cerca de 4500 famílias da região de Estepa que se dedicam à produção de azeitona e azeite, é canalizado para um azeite com Denominação de Origem Protegida (DOP) desde 2010. O "Rolls Royce" das certificações da UE que garante que o azeite tem origem numa área geográfica delimitada, com solos e clima característicos e é exclusivamente elaborado com azeitonas de certas variedades de oliveiras.

São cerca de 5,5 milhões de oliveiras espalhadas por 40 mil hectares de terra que garantem uma produção de 25 milhões de quilos de azeite extra virgem de marca Estepa, detentor de vários prémios internacionais.

"Aqui não há misturas de azeites, nem engarrafamentos duvidosos. Tudo é absolutamente controlado por laboratórios certificados. Quem não cumprir as regras é expulso da dominação de origem", garante Moisés Cabalhero, secretário do Conselho para a Dominação de Origem do Azeite Estepa, organismo criado pelos agricultores locais para garantir a qualidade do azeite produzido na região. Diz mesmo ter orgulho em que o conselho que dirige seja considerado como "o mais exigente da UE".

Também ele não vê qualquer problema com azeite importado a granel de Portugal ou de outros países. Azeite que diz ser misturado com outro de menor qualidade para conseguir um produto melhor ou até para o voltar a exportar para outros países quando a procura do "ouro verde" da Andaluzia ou de outras regiões é maior do que a oferta disponível.

Moisés Cabalhero diz desconhecer qualquer tipo de engarrafamento ilegal na região da Andaluzia ou de azeite produzido em Portugal a ser vendido como azeite espanhol.

Já sobre os investimentos de agricultores espanhóis em Portugal, também ele os vê com naturalidade, repetindo os argumentos de José Luís Robles. "Há boa terra, há muita água e é tudo feito de acordo com as regras europeias. Porque não? É uma nova oportunidade."

A "pirataria" italiana
No que respeita a engarrafamentos e vendas enganadoras sobre a origem do azeite, Cabalhero aponta o dedo a Itália, que "não produz tudo o que diz produzir".


Em Fevereiro deste ano, os jornais espanhóis noticiaram a apreensão no Sul de Itália de 2 mil toneladas de azeite extra virgem produzido em Espanha e Grécia entre 2014 e 2015 e que era vendido em Itália com rótulos que garantiam ser 100% italiano.

Segundo revelou a Inspecção Italiana de Repressão à Fraude, o produto era vendido como sendo de alta qualidade, quando na verdade era feito com azeitonas de baixo preço. Na operação foram detidas oito pessoas, que conseguiriam um lucro de 13 milhões de euros se este azeite chegasse ao mercado.

Nessa altura, a maior associação de agricultores de Itália, a Coldiretti, emitiu um comunicado lamentando as "frequentes fraudes" que se cometem ao misturar azeite importado com o italiano, seja para o colocar no mercado seja para o exportar "como azeite italiano de alta qualidade" com "o objectivo de obter preços mais elevados".

Moisés Cabalhero lamenta este tipo de práticas, até porque, dos 25 milhões de quilos de azeite Estepa produzido, 40% é exportado a granel, nomeadamente para Itália, para onde seguem em média 7 a 11 milhões de quilos.

Por que é que vendemos azeite extra virgem a granel para Itália? Deixem de o exportar que a pirataria acaba
José Lopes, agricultor em Córdoba
José Lopes dirige uma empresa agrícola familiar em Fuente Palmera, na província andaluz de Córdoba. Em 2007, especializou a empresa, pertença da sua família há três gerações, na produção exclusiva de produtos biológicos. As maiores áreas estão dedicadas à produção de laranjas, marmelos e romãs, mas produz também 30 toneladas de azeite biológico por ano. Também ele desconhece se há azeite produzido em Portugal a ser vendido ou exportado como espanhol. Sabe, isso sim, que os italianos vendem azeite espanhol como sendo italiano. Chama-lhe "uma verdadeira pirataria". Mas "a culpa não é só dos italianos". "Por que é que vendemos azeite extra virgem a granel para Itália? Deixem de o exportar que a pirataria acaba. Há muito mercado para vender o azeite que hoje vendemos aos italianos. Os italianos, embora não sejam os principais produtores, dominam o mercado de distribuição e por isso fazem o que querem."

De Portugal para Espanha e depois para Itália 
Nestas andanças do azeite, há também produto do olival português que é exportado para Espanha e que depois segue para Itália. A revelação foi feita ao P2 já em 2011 por Miguel Rico, presidente do grupo espanhol Innoliva. Desde 2007 que este grupo investiu cerca de 126 milhões de euros no Alentejo e na Andaluzia na aquisição de 5000 hectares de terras, na preparação dos solos, sistemas de rega, equipamentos agrícolas e na instalação de um lagar.

O grosso da produção da empresa espanhola concentra-se no Alentejo. Entre 2008 e 2011, a empresa plantou olivais em Moura, Cuba, S. Manços (Évora), Figueira de Cavaleiros e Gasparões (Ferreira do Alentejo). Ao todo, são 3500 hectares de olivais superintensivos onde crescem cerca de sete milhões de árvores.

Construiu também um sofisticado lagar de azeite na Herdade do Carapetal, em Santiago do Cacém, que alberga um total de 22 silos, fabricados totalmente em aço inoxidável por uma empresa de Córdoba e cinco centrifugadoras que foram fabricadas na Alemanha. A capacidade total de armazenamento é de quase 2,3 milhões de quilos de azeite, e implicou, numa primeira fase, o investimento de cinco milhões de euros de um total previsto de 7,3 milhões de euros.

Manuel Rico lamentava que um azeite de excelente qualidade que podia valorizar a imagem da região onde é produzido, fosse "vendido sob marcas italianas". "Nem sequer sabemos [exactamente] quais os mercados onde é colocado (…) É vendido a 2,5 euros o quilo, chega ao consumidor americano a 50 euros", afirmou na altura.

Portugueses e espanhóis mais unidos
Na serra de Montilla, a sul da província de Córdoba, a paisagem muda completamente. O verde-escuro das oliveiras que enchem campos a perder de vista mistura-se agora com o verde-claro das vinhas. Bem no meio da serra, fica o lagar Cañada Navarro. São 23 hectares de vinha e dois de olival. O negócio principal aqui é o vinho.

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Para o agrónomo Manuel Guimanez del Pino, a entrada de produtores espanhóis em Portugal "pode ser uma oportunidade para os dois países se unirem mais e se apresentarem em Bruxelas a falar a uma só voz" RUI GAUDÊNCIO
O agrónomo Manuel Guimanez del Pino e o seu irmão Santiago, o enólogo, fazem a partir da uva do tipo Pedro Ximénez 30 mil litros de vinho branco, mil litros de Chardonnay, produzido também a partir desta qualidade de casta e outros mil litros de uva Verdejo.

O vinho é ainda produzido quase como a família o faz desde o século XVIII. O principal "segredo" está no facto de ser fermentado em "tinajas", enormes vasilhas de cimento que dão um gosto único.

Quando o P2 puxa a conversa para os investimentos espanhóis que estão a ser feitos em Portugal, os irmãos entusiasmam-se. Dizem visitar frequentemente o nosso país em turismo e onde têm vários amigos. Elogiam "a qualidade cada vez maior dos vinhos portugueses", onde "já não é só o vinho do Porto a reinar", a "comida fantástica", especialmente o peixe e o marisco, e a "simpatia das pessoas", que os tratam como se fossem família. Sobre os investimentos, dizem que "só podem ser bons para os dois lados". Para Manuel, a entrada de produtores espanhóis em Portugal "pode ser uma oportunidade para os agricultores dos dois países se unirem mais", para "trocarem experiências e conhecimentos" e para "se apresentarem em Bruxelas a falar a uma só voz".

Já Santiago afirma que "seria bom que também os agricultores portugueses investissem em Espanha". "Vivemos num mercado de livre circulação. Investir em Portugal é uma oportunidade, uma nova oportunidade. De certeza que é bom para portugueses e espanhóis. Venham vocês também para Espanha. Serão bem recebidos", garante.

"Mau era voltar a levantar fronteiras"
Fonte da Comissão Europeia ligada à política agrícola admite que existam "más práticas na livre circulação de alguns produtos", mas considera "positivo" que os produtores, "sejam eles de onde forem", possam "investir noutros países da UE". No caso dos investimentos espanhóis em Portugal, "de certeza que é bom para os dois países".

A mesma fonte dá como exemplo a situação dos agricultores holandeses. "No seu país, já não há terra para crescerem e estão a espalhar-se por toda a Europa."

Fala ainda num sector que "está cada vez mais orientado", em que "os agricultores não produzem apenas de acordo com o que dá mais subsídios". "É o sector que decide o que fazer, não as políticas. Por outro lado, os agricultores não querem só produzir, querem produzir melhor, com menores agressões ao meio ambiente, com uma melhor gestão de recursos. Há livre circulação? Há e isso é bom. Mau era voltar a levantar fronteiras", remata.

O jornalista viajou a convite da Comissão Europeia

Previsões apontam para um aumento da produção mundial de açúcar em 2016/2017

21-11-2016 
 
 
A produção mundial de açúcar em bruto chegará a 171 milhões de toneladas na campanha de 2016/2017, o que supõe mais cinco milhões de toneladas frente à campanha anterior.

Este crescimento deve-se às melhores colheitas no Brasil, na União Europeia e na maioria dos 25 maiores produtores, que compensaram reduções na Índia e Tailândia, de acordo com a última informação do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos da América (USDA).

Os preços médios mensais de açúcar, depois de cair ao longo de um ano e chegar a menos de 11 centavos de dólar/libra em Agosto de 2015, mostram uma subida até cerca de 23 centavos/libra em Outubro de 2016. Apesar dos preços altos, prevê-se que o consumo alcance o valor recorde de 174 milhões de toneladas, com quebra das existências até o nível mais baixo desde a campanha 2010/2011.

O défice global de açúcar reduz de 6,7 milhões de toneladas em 2015/2016 para um prognóstico de 2,6 milhões de toneladas. Apesar dos aumentos de produção em 2016/2017, os níveis baixos de existências preveem fortes preços.

Na União Europeia (UE) espera-se que a produção aumente em 1,9 milhões de toneladas (Mt) até 16,2 milhões, devido à maior superfície cultivada. Para o consumo estima-se uma manutenção constante em 18,8 milhões de toneladas e para as importações uma descida. As exportações mantêm-se sem m alterações em 1,5 milhões de toneladas, demarcadas pelos limites da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Nos Estados Unidos prevê-se um aumento da produção de 300 mil toneladas até 8,5 milhões de toneladas, no Brasil, um aumento de 3,1 milhões até 37,8 milhões de toneladas; na china um crescimento de 700 mil até um total de 9,5 milhões de toneladas; Austrália, um aumento de 200 mil até as 5,1 Mt, para a Rússia uma subida de 400 mil até 5,6 MT e no Paquistão a produção poderá subir 460 mil até um total de 5,7 milhões de toneladas e no México a produção pode atingir 6,7 milhões de toneladas.

Pelo contrário, na Índia a produção poderá reduzir 3,6 milhões até 23,9 milhões de toneladas e na Tailândia também se prevê uma baixa de 470 mil, até um total de 9,3 milhões de toneladas.

Fonte: Agrodigital

“Faculdades de Veterinária estão a vender um sonho que não se vai realizar”


Bastonário dos médicos veterinários está convencido de que é uma questão de tempo até animais de companhia passarem a poder acompanhar donos nos restaurantes e noutros locais onde a sua presença ainda está vedada.

ANA HENRIQUES 26 de Novembro de 2016, 8:50

Apesar de a taxa de desemprego dos médicos veterinários em Portugal ser das mais altas da Europa, o ensino superior continua a formar jovens "para o desemprego", diz Jorge Cid, bastonário da Ordem dos Médicos Veterinários, que gostava de ver alguns cursos encerrados.

A Ordem faz este mês 25 anos de existência e esteve nesta sexta-feira reunida em congresso. E este foi um dos temas. "Não olhem para este curso como sendo rentável, porque as saídas profissionais cada vez são menos: o Estado deixou de empregar e o sector leiteiro, que dava muito trabalho, foi concentrado em grandes explorações que empregam um único veterinário", diz o bastonário.

Acredita que um dia irão por diante as restrições ao número de animais de companhia que se podem ter em casa, como chegou a ser proposto pelo anterior Governo?
Vamos opor-nos a isso com unhas e dentes, porque não faz sentido. Se não há uma lei que limita o número de pessoas por apartamento, porque há-de haver para os animais? E é completamente diferente ter dois caniches ou ter dois serra-da-estrela. Então uma pessoa não pode ter quatro chihuahuas num apartamento se não incomodarem os vizinhos? É proibir por proibir. E um apartamento pode ser um T0 ou um T6. É ridículo, não faz sentido. É quase como se dissessem que só se pode ter três filhos se se morar num T3. Restringir vai contra o bem-estar animal: implica que pessoas com grande disponibilidade para dar bem-estar e carinho fiquem impedidas de o fazer, porque já têm outros animais.

PÚBLICO - Aumentar
Embora e lei em vigor já imponha certas restrições a esse nível.
Não é aplicada, ninguém liga muito a isso. Mas seja como for devia ser revista para não restringir as liberdades das pessoas. Não se pode ir a um jardim público com um animal, nem entrar num transporte público...

Tem esperança de que isso mude?
Vai necessariamente mudar, como já sucedeu noutros países da Europa. Quanto melhor um povo trata os seus animais, mais evoluído é. Em França ou Inglaterra entram em todo o lado — vão a um restaurante e ficam sossegadinhos, sentadinhos —, embora também os vejamos a comportarem-se melhor do que em Portugal, provavelmente fruto de uma canicultura mais evoluída. Aqui ainda se vêem animais mal-educados, que dificilmente poderão entrar em espaços públicos porque podem causar perturbações. No metro destes países as pessoas viajam com o seus animais. Aliás, em Portugal também há uma lei para poderem viajar nos transportes públicos. O problema é que ainda se criam muitos entraves a quem tem um animal de companhia — e isso leva ao abandono. Há condomínios que não os aceitam, por exemplo.

Isso é legal?
Há pareceres jurídicos que dizem que sim e outros que dizem que não.

A segurança alimentar pode estar em risco no futuro. [Se hoje os alimentos] são de qualidade, é devido a um esforço brutal dos inspectores sanitários
Jorge Cid
Os centros de recolha de animais, vulgarmente chamados" canis municipais", têm condições?
Existem situações muito boas e situações críticas. Quando vemos fotos de alguns deles até nos sentimos arrepiados. As câmaras nem sempre têm verbas.

Mas a lei permite que funcionem nesses moldes?
Não há alternativa. Como é que são autorizados a funcionar certos lares de terceira idade? Certas pessoas a viverem em condições sub-humanas? A quantidade brutal de animais sem dono que existe exigiria um grande aumento da capacidade de resposta. Mas percebo que se faltam verbas para os tais lares de terceira idade ou para centros de saúde também faltem para os animais.

PÚBLICO - Aumentar
Dentro de menos de dois anos, de acordo com legislação já aprovada, será proibido o abate, nestes canis, de animais saudáveis ou recuperáveis. Haverá condições para tal?
Estou muito preocupado e tenho grandes dúvidas. Fez-se uma lei antes de haver bases para a executar. Não sei se não vai ser mais uma lei de aplicabilidade duvidosa. Não estão a ser ampliados ou criados de raiz em número suficiente os tais centros de recolha. Por outro lado, há sete ou oito anos que não se nomeia um veterinário municipal. É gravíssimo. Há mais de cem câmaras em Portugal que não têm um sequer, e eles é que deviam gerir os centros.

Existem municípios que optam por contratar veterinários no mercado de trabalho à sua conta para colmatar essa falha — quando os seus salários devem ser pagos em parte pela Direcção-Geral de Veterinária. O que pode ser perigoso, porque os inspectores sanitários devem ter uma ligação à entidade reguladora, como garante da sua independência.

Veterinários portugueses são dos mais atingidos pelo desemprego na Europa
Veterinários portugueses são dos mais atingidos pelo desemprego na Europa
Isso reflecte-se na saúde humana?
A segurança alimentar pode estar em risco no futuro.

Os portugueses podem confiar nos alimentos de origem animal que compram?
Se são de grande qualidade e segurança, é devido a um esforço brutal dos inspectores sanitários.

E a contaminação por antibióticos?
A resistência aos antibióticos pode vir um dia a matar mais pessoas do que o cancro. A facilidade com que se usam quer em pessoas quer em animais levou ao surgimento das bactérias multirresistentes, que têm levado à morte de humanos. O controlo da sua utilização tem de aumentar.

sábado, 26 de novembro de 2016

Prémio ADVID 2016 abre candidaturas


por Ana Rita Costa- 22 Novembro, 2016

A Associação para o Desenvolvimento da Viticultura Duriense (ADVID) já abriu as candidaturas para mais uma edição dos seus prémios anuais. De acordo com a organização, o objetivo é distinguir "investigadores de diversas áreas científicas para as especificidades técnicas, culturais e sociais da vitivinicultura da Região Demarcada do Douro".

Poderão candidatar-se a esta distinção "investigadores, alunos de licenciatura, mestrado ou doutoramento, ou equipas de investigação, independentemente da sua nacionalidade, que tenham publicado trabalho inédito em áreas científicas com relevante importância para a vitivinicultura da Região Demarcada do Douro".

O trabalho vencedor receberá um prémio de 5000 euros ou uma bolsa de igual valor, caso os vencedores aceitem desenvolver um projeto de investigação dedicado à vitivinicultura da Região Demarcada do Douro.

As candidaturas podem ser apresentadas até ao próximo dia 31 de dezembro através de um formulário disponível online: http://www.advid.pt/candidatura


Pera rocha é o “hortofrutícola com maior saldo positivo na balança comercial”


por Ana Rita Costa- 24 Novembro, 2016

A Associação Nacional dos Produtores de Pera Rocha promoveu recentemente, no Cadaval, a 19ª Cerimónia da Pera Rocha, uma iniciativa que mais uma vez colocou em destaque a fileira da pera e o setor hortofrutícola nacional.

Para além de diversas figuras do setor marcaram presença no evento o ministro da Agricultura, Luís Capoulas Santos, e o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que aproveitou a ocasião para destacar o papel da agricultura na criação de riqueza para o país. "Estar convosco aqui é estar com quem está, todos os dias, a criar riqueza para Portugal", referiu.

O Presidente da República lembrou ainda que a pera rocha é "o produto hortofrutícola com maior saldo positivo na balança comercial, vendido em mais de 20 países" e aludiu aos 5000 produtores associados da ANP, com uma área de produção de mais de 10 mil hectares, "gerando milhares de postos de trabalho, diretos e indiretos".

Durante a iniciativa houve ainda tempo para distinguir "os melhores produtores, os maiores exportadores, os melhores técnicos e personalidades de destaque do setor". Isabel Patrocínio foi a primeira galardoada da noite, pelo trabalho desenvolvido, desde 1973, no setor das frutas, legumes e flores, ao serviço da hoje designada AICEP – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal.

Já Emídio Martins, emigrante no Brasil oriundo de Bragança, foi distinguido pelo "mérito, visão e empenho na afirmação da pera portuguesa num mercado tão importante como o brasileiro", Pedro Nuno Silva foi reconhecido "por ter dedicado muito da sua vida à fileira da pera rocha", em particular ocupando cargos de dirigente em organizações como a Cooperativa Agrícola dos Fruticultores do Cadaval e a ANP.

Destaque ainda para os prémios 'Melhor Exportador', um galardão que distingue "os associados da ANP que, com o seu esforço e empenho, fazem desta fruta a quinta mais vendida do mundo, chegando a 25 países". Na campanha de 2015/2016 os vencedores foram: em primeiro lugar a Coopval, em segundo lugar a TriPortugal, e em terceiro lugar a Lusopera.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Governo defende que respeitará direitos de propriedade na reforma da floresta

22/11/2016, 14:14

Nas Jornadas Parlamentares do PS, na Guarda, numa intervenção dedicada ao tema da reforma da floresta, Capoulas Santos falou sobre os direitos da propriedade, que serão concluídos em março de 2019.

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Estas posições foram assumidas por Capoulas Santos nas Jornadas Parlamentares do PS, na Guarda
PAULO NOVAIS/LUSA

O ministro da Agricultura afirmou esta terça-feira que os planos regionais de ordenamento florestal estarão concluídos em março e assegurou que o banco de terras, a lançar em 2019, terá período de interdição de venda por 15 anos.

Estas posições foram assumidas por Capoulas Santos nas Jornadas Parlamentares do PS, na Guarda, numa intervenção dedicada ao tema da reforma da floresta.

Um processo que – disse – deveria ter sido feito ao longo da legislatura, mas, em resultado da vaga de incêndios florestais no verão passado, teve de ser definido em dois meses.

Na sua intervenção, o titular da pasta da Agricultura procurou afastar a ideia de que a reforma florestal proposta pelo Governo possa colidir e em última instância desrespeitar direitos de propriedade, sobretudo de pequenos proprietários, como tem alegado o PCP, e prometeu "amplo debate público" sobre esta matéria.

Temos problemas de gestão e ordenamento florestal, de titularidade da propriedade e de defesa da floresta. Temos de quebrar este ciclo vicioso", justificou Capoulas Santos.
O ministro da Agricultura defendeu então o projeto de reforma do executivo, que, numa das suas principais componentes, abre com um período até ao final de 2018 para o registo sem cobrança de taxas da propriedade florestal de cada proprietário, sendo, para o efeito, criado um balcão único de registo predial.

A parte do território florestal que não for legalizada até ao final de 2018, de acordo com o membro do Governo, ficará registada como "terras sem dono conhecido" e agregada num banco de terras, o qual poderá ser cedido pelo Estado a sociedades de gestão florestal, a cooperativas ou autarquias.

O Estado não pode vender nada deste banco de terras por um período de 15 anos. Neste período, o proprietário pode reclamar as suas terras. Não estamos a pôr em causa a propriedade privada", frisou Capoulas Santos.
Outra vertente da intervenção do ministro da Agricultura passou pela defesa da tese de que a floresta portuguesa, assente numa lógica de minifúndio, "precisa de uma gestão profissionalizada" e de maior escala.

Capoulas Santos disse então que o seu ministério terá concluído até março o conjunto de planos regionais de ordenamento florestal, seguindo-se um processo em que as diferentes câmaras do país definirão as suas áreas florestais.

Em termos globais, na sequência deste processo, a área de eucalipto não vai aumentar. Recusamos a eucaliptização do país, mas o eucalipto é uma fileira importante na dinâmica exportadora do país", advertiu o membro do executivo.
Perante os deputados socialistas, Capoulas dos Santos voltou a referir que, nos próximos quatro anos, haverá cerca de 600 milhões de euros para apoiar a floresta e que o Estado só é prioritário em termos de conjunto de três por cento do total da área florestal.

Horticultores da Póvoa de Varzim registam “um dos melhores anos de sempre”

21/11/2016, 7:07271

As duas mil explorações hortícolas da Póvoa de Varzim faturaram cerca de 80 milhões de euros. Metade deste valor é gerado através de exportações.


Os horticultores do concelho da Póvoa de Varzim estão registar "um dos melhores anos de sempre", em contraciclo com outros subsetores agrícolas, e preveem terminar 2016 com os maiores índices de rentabilidade de que têm memória.

Em conjunto e até ao final do terceiro trimestre deste ano, as duas mil explorações hortícolas da Póvoa de Varzim faturaram cerca de 80 milhões de euros, sendo metade desse valor gerado através de exportações, segundo cálculos da Horpozim, uma associação local que reúne vários empresários do setor.

Apesar de preencherem uma área de cultivo relativamente pequena – cerca de dois mil hectares, o que corresponde sensivelmente a dois mil campos de futebol – os horticultores desta região têm maximizado as suas produções, seguindo técnicas passadas de geração em geração, mas também inovando, nomeadamente com a utilização de estufas.

Manuel Silva, que além de produtor é também presidente da Horpozim, considerou que a conjugação de vários fatores levou a que 2016 tenha sido "um dos melhores anos de sempre", ao contrário do que sucede noutros subsetores agrícolas.

"Este verão foi muito quente, e outras zonas não tiveram tanta capacidade para produzir, levando a que os preços tenha sido pagos acima da média", explicou o horticultor.

Além disso, e no âmbito da Horpozim, Manuel Silva explicou que houve uma aposta forte na presença em várias feiras agrícolas para divulgar os produtos, aproximando produtores, distribuidores e consumidores.

"Como a procura e a oferta estabelecem os preços, tal ajudou a proporcionar-nos um ano excecional", completou.

Claro que tudo isto só foi possível porque a qualidade das alfaces, tomates, pepinos ou pimentos que crescem nos solos do concelho poveiro têm agradado os consumidores, contribuindo para isso o que Manuel Silva apelidou de "características únicas da região".

"Como estamos entre os rios Cávado e Ave forma-se aqui um microclima favorável que, conjugado com as condições do solo muito propícias e temperaturas amenas, proporciona produtos de excelência", analisou.

A juntar a tudo isto, o produtor e presidente da Horpozim lembra que a Póvoa de Varzim está "estrategicamente localizada" a cerca de 50 quilómetros das principais das capitais de distrito do Norte, como Porto, Braga ou Viana do Castelo, e a fronteira com Espanha está localizada a 90 quilómetros.

"Cerca de 50 a 60% do que produzimos é destinado ao mercado galego", partilhou Manuel Silva.

O dirigente não consegue prever se nos próximos anos os resultados se poderão repetir, mas lembra que a organização dos produtores numa associação tem boas bases para que o "crescimento continue a acontecer".

"Queremos caminhar para uma associação empresarial agrícola, que abraça não só os produtores mas toda uma fileira de empresas que estão envolvidas no setor. Queremos que no negócio seja bom para todos", contou Manuel Silva.

O presidente da Horpozim alerta, no entanto, "que mais de metade dos produtores locais têm mais de 50 anos" considerando que é preciso atrair mais jovens para o setor, "até porque há espaço para tal".

"Precisamos de mais jovens empresários e quadros com formação, porque a tendência é que as empresas cresçam e produzam mais" tornando "necessária a renovação etária no setor", lembrou Manuel Silva, que vinca que a horticultura na Póvoa de Varzim movimenta mais de 10 mil postos de trabalho diretos e indiretos.

A seguir a recomendação de Manuel Silva, está Pedro Torres, um horticultor de 37 anos, que além de se dedicar ao setor, tem aplicado novas técnicas para otimizar a sua produção de tomates, nomeadamente a hidroponia, um sistema de cultivo caracterizado por não precisar de terra, já que as raízes das plantas ficam dentro da água.

"Os meus pais já trabalhavam neste setor e eu continuei, tentando inovar e evoluir. Tenho usado esta cultura que não precisa de solo, pois toda adubação da planta é feita através da água, permitindo um maior controlo sobre a cultura e conseguindo rentabilizar as produções", explicou.

Pedro Torres reconheceu que, profissionalmente, teve um "ano que apesar de não ser excelente, foi muito bom", exportando grande parte dos seus produtos para clientes "que, mais que a quantidade, apreciam a quantidade".

"Prefiro ter menos área e mais qualidade, mas isso dá muito trabalho e aplicação e não estou a ver muitos jovens aqui da região a seguirem esta atividade", analisou Pedro Torres.

Paulino Almeida, outro produtor da Póvoa de Varzim e também dirigente associativo, considera que o caminho e evolução do setor passam por encontrar mais mão-de-obra qualificada.

Considerou que a organização associativa destes produtores "têm um papel fundamental, não só na transmissão e partilha de informações e práticas no terreno como também na escala que podem ter".

domingo, 20 de novembro de 2016

Capoulas quer dar preferência ao Estado na compra de terrenos de regadio

9/11/2016, 20:45

Ministro da Agricultura admitiu vir a criar legislação para que o Estado possa exercer o direito de preferência na compra de terrenos beneficiados por perímetros de rega

O ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Florestas admitiu nesta quarta-feira vir a criar legislação para que o Estado possa exercer o direito de preferência na compra de terrenos beneficiados por perímetros de rega, para incorporar nos bancos de terra. "Provavelmente vamos produzir legislação para criar direitos de preferência do Estado nos perímetros de rega", afirmou Luís Capoulas Santos, na Assembleia da República, durante a discussão do Orçamento do Estado para 2017.

"Quando alguém que teve essa mais-valia [regadio, financiado por fundos públicos] quer vender o terreno porque não há de o Estado ter preferência e poder comprar?", sugeriu o governante, explicando que esta é uma das ideias para ir renovando o banco de terras.


De acordo com o diploma aprovado no Conselho de Ministros dedicado à reforma das florestas, que está em consulta pública até 31 de janeiro, o banco de terras vai integrar terrenos pertencentes ao Estado, institutos públicos e sem dono conhecido, não podendo estes ser cedidos ou arrendados por um período superior a sete anos, no caso de utilização agrícola, nem superior a 25 anos, para usos florestais.

O Fundo de Mobilização de Terras será o instrumento financeiro de gestão do banco de terras, financiando-se com as receitas provenientes do arrendamento e da venda do património do Banco de Terras para adquirir mais terrenos e ir, desta forma, renovando as parcelas disponíveis.

Segundo o ministro, cerca de um terço das receitas obtidas desta forma vão reverter para o fundo, um terço para a Direção Geral do Tesouro e Finanças e a parte restante será entregue às entidades que cederam o terreno.

O diploma que está em consulta pública refere que a seleção dos candidatos às terras será feita "preferencialmente por concurso, sendo admissível a utilização do ajuste direto, a título excecional, exclusivamente quanto a entidades públicas", em termos a definir posteriormente.

Será dada prioridade aos jovens agricultores (com mais de 18 e menos de 41 anos), candidatos com formação específica adequada ao exercício da atividade, proprietários de terrenos confinantes e refugiados.

Os terrenos sem dono conhecido podem ser devolvidos ao proprietário caso estes reivindiquem a propriedade num período de 15 anos. Neste caso, terão direito a receber o montante correspondente às rendas ou a outros proveitos entretanto recebidos pelo Estado, mas poderão também ter de reembolsar a entidade gestora do Fundo de Mobilização de Terras, "de despesas ou benfeitorias necessárias".

Caso a terra tenha sido arrendada, o proprietário não pode resolver unilateralmente o contrato.

sábado, 19 de novembro de 2016

Assunção Cristas acusa o Governo de paralisar a agricultura


11/11/2016, 16:41

A presidente do CDS-PP, Assunção Cristas, acusou o Governo de paralisar o setor agrícola, argumentando que não há aprovações novas de fundos comunitários nem reembolsos dos projetos já existentes.

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Assunção Cristas acusa o governo de ser culpado da paralisação da agricultura.
MARIO CRUZ/LUSA

A presidente do CDS-PP, Assunção Cristas, acusou esta sexta-feira o Governo de paralisar o setor agrícola, argumentando que não há aprovações novas de fundos comunitários nem reembolsos dos projetos já existentes, o que é dramático para os agricultores.

Os fundos comunitários estão parados, não há aprovações novas de fundos comunitários e não há reembolsos das despesas que as pessoas vão fazendo na execução dos seus projetos, o que é dramático, porque os agricultores avançam com o seu dinheiro e ficam muitos meses à espera dos reembolsos", afirmou Assunção Cristas.


Numa visita à Feira Nacional do Cavalo, na Golegã, a ex-ministra da Agricultura do anterior Governo afirmou que "mais uma vez" o PS fica "com uma fotografia muito feia em matéria de agricultura, o que é pena porque o setor estava motivado, mobilizado, cheio de vontade de ir para a frente, em investir bem, em inovar".

Certamente que continuará todo esse esforço e empenho, mas sem a ajuda do Governo e dos fundos comunitários, o que é muito mais difícil", declarou.
Assunção Cristas chegou a cavalo ao Largo do Arneiro, trajando à amazona portuguesa, acompanhada por Veiga Maltez, antigo presidente da Câmara da Golegã em quatro mandatos, independente eleito pelo PS, e presidente da Assembleia Municipal, por um movimento independente.

A líder centrista esteve acompanhada também pelo coordenador autárquico, Domingos Doutel, e pela deputada eleita por Santarém Patrícia Fonseca.

A presidente do CDS recusou pronunciar-se sobre outros assuntos da atualidade, como as questões em torno da administração da Caixa Geral de Depósitos, para se concentrar nos temas do mundo rural.

Tenho vindo todos os anos à Golegã e certamente este ano não deixaria de vir, para dar uma volta, para estar com as pessoas que trabalham todos os dias pelo mundo rural, todos os dias pelo cavalo, que é um dos maravilhosos produtos que o nosso país tem e que tanto pode ser embaixador de Portugal", afirmou.
"O país tem de ser feito de tudo um pouco, não é só de 'startups' tecnológicas, também de tradições, daquilo que corresponde à nossa identidade. O mundo rural representa muito bem essas tradições e pode ajudar a que elas sejam cada vez mais fonte de riqueza para o país", reforçou.
Questionada sobre uma reunião que teve com o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Pedro Santana Lopes, avançada pelo Observador, Cristas recusou revelar o conteúdo do encontro, cuja realização confirmou ter acontecido na quarta-feira.

Primavera chuvosa e verão quente ditam mau ano agrícola


17/11/2016, 13:37

O inverno pouco frio, a primavera chuvosa e o calor de julho e agosto determinaram um mau ano agrícola para a generalidade das culturas, antecipando-se várias perdas em vários sectores.

Primavera chuvosa e verão quente ditam mau ano agrícola e várias perdas, em vários sectores
PAULO CUNHA/LUSA

O inverno pouco frio, a primavera chuvosa e o calor de julho e agosto determinaram um mau ano agrícola para a generalidade das culturas, antecipando-se perdas de 20% na produção de vinho, 15% nos olivais e 30% nas maçãs.

As previsões agrícolas do Instituto Nacional de Estatística (até ao dia 31 de outubro) indicam que "as adversidades climatéricas, concretamente a primavera muito chuvosa" foram negativas para a vinha, propiciando o desenvolvimento de doenças como o míldio e implicando uma redução de 20% da produção.

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No entanto, embora em menor quantidade, o vinho produzido deverá apresentar boa qualidade tendo em conta que os teores de açúcar foram aumentando ao longo da vinha.

Nos olivais, as previsões apontam para uma diminuição de 15% da produtividade face à campanha passada, "apesar das chuvas outonais terem promovido o aumento do calibre das azeitonas".

Para as produções de maçã, pera e kiwi, afetadas pela falta de frio no inverno e deficientes condições de polinização e vingamento dos frutos, preveem-se quebras de 30%, 20% e 25%, respetivamente.

A qualidade da maçã é "heterogénea", com os frutos da região Oeste a apresentarem um calibre menor do que o habitual, "embora com elevada quantidade de açúcar e consistência", enquanto que em Trás-os-Montes existe uma quantidade significativa de fruta sem "as características mínimas exigidas para o consumo em fresco".

A diminuição de produção nos amendoais deverá rondar os 25%, tendo em conta as condições climatéricas adversas e o facto de muitos amendoais instalados nas regiões tradicionalmente produtoras estarem "bastante decrépitos", enquanto na castanha é esperada uma redução de 5% e frutos com menores calibres.

Os picos de calor em julho e agosto tiveram também impacto no milho, prevendo-se uma produção total de milho para grão próxima das 700 mil toneladas (-15% face a 2015), e no arroz, cuja produção deverá cair 10%.

As elevadas temperaturas condicionaram também o rendimento do tomate para a indústria, estimando-se uma diminuição de 15% da produção.

Apesar disso, o ligeiro aumento da área plantada face a 2015 permitiu produzir mais de 1,5 milhões de toneladas (a segunda maior das últimas três décadas), ainda assim bastante abaixo da campanha anterior (1,832 milhões de toneladas).

Envelhecimento dos produtores na maior bacia leiteira do país alarma setor


19/11/2016, 8:30

A idade média dos produtores de leite de Vila do Conde e Póvoa de Varzim, na bacia leiteira de Entre Douro e Minho, a maior do país, está aumentar a um ritmo "alarmante".

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"Quem herdar alguma coisa ainda poderá pensar em continuar, mas para quem pretende começar do zero, certamente vai perceber que será melhor seguir por outro caminho"
JOSÉ COELHO/LUSA

Segundo dados divulgados pela Agros, a união de cooperativas que domina na região, apesar do aumento da capacidade produtiva nas explorações, restam hoje 1.500 dos 16 mil produtores que a instituição englobava na década de 90, sendo que a maior parte tem já mais de 50 anos.

No seu âmbito, a Agros calcula que os produtores com menos de 40 anos não chegam, atualmente, aos 13%, havendo mais de mil entre os 40 e os 65 anos, sendo que a idade média já ultrapassa os 53 anos.

Numa recente intervenção pública, Fernando Capela, presidente desta união de cooperativas, considerou que "o envelhecimento progressivo é alarmante e urge ser combatido com o estímulo à entrada de novos produtores e incentivos à transmissão familiar das explorações existentes".

As medidas apontadas pelo presidente da Agros são também defendidas por Carlos Neves, líder da Associação de Produtores de Leite de Portugal (Aprolep), que fez à Lusa um retrato inquietante da falta de rejuvenescimento dos operadores do setor.

"O envelhecimento é preocupante, não só porque perdemos massa crítica nas empresas, nas associações e nas cooperativas, mas sobretudo porque teremos, a longo prazo, um decréscimo na produção de leite e mais campos abandonados", anteviu o presidente Aprolep. Carlos Neves reconhece que, atualmente, "o setor não é atrativo para a entrada de jovens", apontando uma série de fatores.

Com o final das quotas leiteiras, devido a uma decisão errada da Europa, o setor sofreu uma crise, agravada com várias medidas da indústria e distribuição que fizeram descer o preço pago ao produtor", afirmou.
Carlos Neves acrescentou que as "burocracias para se iniciar um projeto e obter com licenças de construção e legalização das vacarias são complicadas", levando quem quer entrar no setor ao desânimo. "Se a atividade não é rentável, não há motivação para investir, até porque para se iniciar um projeto é preciso um grande esforço financeiro", apontou o dirigente da Aprolep.

Assim, o parco rejuvenescimento que tem havido no setor, nomeadamente nos concelhos de Vila do Conde e Póvoa de Varzim, tem acontecido com a transmissão familiar de explorações, mas, mesmo neste caso, as dificuldades são grandes.

O desânimo dos novos

Isso mesmo confirmou Miguel Silva, de 35 anos, produtor da freguesia de Mindelo, Vila do Conde, que tenta dar continuidade ao negócio de família, mas ainda sem uma autonomia total. O jovem produtor partilhou que atualmente está a receber 28 cêntimos pelo litro de leite vendido, quando os custos de produção rondam os 34 cêntimos.

"Neste momento estamos com preços tão baixos que não chegam para cobrir os custos que temos para produzir. Isto origina a que jovens como eu não consigam entrar ou vingar na atividade", desabafou. Miguel Silva vai mais longe, e garante que atualmente "avançar com um investimento para novo projeto seria um suicídio", garantindo que "pagar as despesas já tem sido muito difícil".

"Quem herdar alguma coisa ainda poderá pensar em continuar, mas para quem pretende começar do zero, certamente vai perceber que será melhor seguir por outro caminho", completou. O jovem produtor lembrou, também, que o empenho necessário para atividade. "Com 12 horas de trabalho por dia e sem fins de semana é pouco atrativo para os jovens", disse.

Só se tiveram a sorte de ganhar o euromilhões e não tiverem mais nada para fazer. Caso contrário, é perder dinheiro todos os dias. É impossível um jovem instalar-se neste setor com os preços que estão a ser pagos", desabafou.
Apesar do desânimo de Miguel, o seu pai, António Silva, de 68 anos, e que há mais de 40 se dedica à produção de leite, acredita que o cenário poderá inverter. "Estou convencido que as coisas vão, pelo menos, normalizar. Tal como está, não dá para aguentar. Em 2016 foi um grande aperto. Se se alterar, creio que vai animar os jovens para continuarem", perspetivou o experiente agricultor.

António Silva confessou que já "houve tempos em que se trabalhou muito, mas era-se recompensado", apontando uma das principais diferenças em relação há algumas décadas. "O que tem vindo a complicar é que além dos preços pagos aos produtores terem descido, os custos dos fatores de produção, como as rações, o gasóleo ou a eletricidade, não param de aumentar", analisou.

Pai e filho concordaram que "a globalização do setor, com o fim das quotas facilitou a entrada de leite vindo de fora, complicando a vida aos produtores nacionais". Ora para combater isso, a Aprolep tem vindo a sensibilizar o Governo e os consumidores. Estão a ser promovidas ações de promoção do leite e dos produtos derivados portugueses, havendo, para já, segundo refere o dirigente associativo Carlos Neves, uma reação positiva.

"Tem de haver um esforço da indústria e da distribuição para passar o máximo de valor para o produtor, e identificar a origem do leite para que o consumidor que nos quer ajudar possa saber que está consumir leite, queijo ou iogurte realmente português", vincou.