domingo, 7 de dezembro de 2014

A nossa floresta agridoce

OPINIÃO
ARMANDO SEVINATE PINTO 07/12/2014 - 15:16

TÓPICOS
O valor múltiplo da floresta – económico, social e ambiental – é tão expressivo, que se torna óbvio ter de a considerar como um sector fundamental, e até estratégico, para o nosso país. Sobre isso, não há opiniões divergentes.

A multiplicidade dos valores gerados e das funções e serviços que nos presta, muitos dos quais não valorizados pelo mercado, fazem dela, em conjunto com o sector transformador que lhe está associado, um dos mais importantes activos da nossa economia e da nossa sociedade. Infelizmente, também se trata de um sector cheio de contradições, de constrangimentos e de riscos quanto ao seu futuro.

De facto, não só está longe de ter atingido o seu valor potencial, como, nas últimas décadas, tem sido objecto de um processo, lento e complexo, de declínio, com reflexo na redução de algumas áreas florestadas, nos incêndios, na proliferação de pragas e doenças e na redução da produtividade dos povoamentos.

As causas, radicam numa multiplicidade de factores que interagem entre si, envolvidos num verdadeiro círculo vicioso, que ninguém ainda conseguiu resolver, apesar de haver uma clara unanimidade política nos diagnósticos.

 A ausência de gestão activa e o extremo fraccionamento da propriedade, de muitas áreas florestais, conduzem à sua rentabilidade negativa e, consequentemente, ao seu abandono, aos incêndios e às pragas e doenças, que aumentam o risco e o desinteresse dos investimentos.

O círculo vicioso, não só se mantém, como se tem agravado, indiferente às políticas públicas que, mesmo quando generosas, não conseguem mobilizar as alterações necessárias no comportamento dos agentes privados (a maioria esmagadora dos proprietários florestais), no sentido da gestão racional do sector.

A situação, actual e do passado recente, não sendo idêntica para todas as fileiras florestais, tem muitos elementos comuns, quer nas causas, quer nas consequências, apesar de se revelarem com amplitudes diferenciadas.

A mais penalizada é, sem dúvida, a fileira do pinhal, fustigada de forma muito expressiva, pelos incêndios, pelas pragas (sobretudo pelo nemátodo da madeira do pinheiro) e pelo abandono (redução de mais de 250 mil hectares nos últimos 20 anos), com graves consequências económicas e sociais, para o país e para as regiões onde esta espécie é dominante.

A fileira do eucalipto, parece respirar saúde, se tivermos em conta os resultados económicos da indústria transformadora. Contudo, a manter-se a situação actual, não terá razões para prever o futuro com optimismo.

A floresta de eucalipto, a despeito do aumento da área ocupada (cerca de 100 mil hectares nas últimas duas décadas), tem vindo a ver reduzida a produtividade física dos povoamentos, particularmente dos mais envelhecidos, e também se vê a braços com pragas e doenças que a afectam de forma significativa (sobretudo o gorgulho, mas também a broca).

Entretanto, a circunstância que mais pode penalizar o futuro destas duas fileiras, é o crescente desfasamento entre a procura da indústria transformadora e a oferta nacional de matérias-primas, só colmatável através de importações, baratas na origem mas caras no destino que, além de constituírem um recurso muito pouco garantido, retiram competitividade ao tecido industrial e mais-valias potenciais à nossa economia.

Especificamente quanto ao eucalipto, que desde há muito se tornou um assunto de polémica em Portugal, não penso que seja uma árvore maldita, muito pelo contrário.

Ela é biologicamente fantástica, quer pela sua resistência, rapidez de crescimento e mecanismos de defesa, quer pelo facto de ser a espécie que, em Portugal, mais carbono sequestra, o que não deixa de ser importante.

Considero que, de uma forma geral, as campanhas contra o eucalipto são pouco esclarecedoras e pouco fundamentadas. As questões fundamentais deveriam abandonar o ódio à árvore e centrar-se nas condições de exploração dos povoamentos e na sua adaptação ao meio.

Haverá, certamente, áreas onde os eucaliptos não deveriam estar, designadamente, porque aí não têm condições satisfatórias de crescimento, e outras onde deveriam estar a gerar riqueza para os proprietários e para o país, sem prejudicar o ambiente.  

A fileira do sobreiro e da cortiça, bastante mais específica, vive uma situação com pontos comuns com as outras fileiras (declínio, doenças e pragas, produtividade), mas tem vindo a conseguir enfrentar, com sucesso, a ameaça à utilização das rolhas – a principal valorização da cortiça – concentrada na concorrência de substitutos de baixo valor, metálicos e plásticos.

Quanto aos incêndios, tudo tem sido dito, e redito, quer sobre a sua importância, quer sobre as suas causas e consequências. Infelizmente, apesar da protecção divina que nos poupou este ano, os incêndios continuam, sem dúvida, a constituir o principal factor de risco que paira sobre o futuro das nossas florestas.

Como se poderá então quebrar o círculo vicioso? Depois de tudo o que já vi, ouvi e li, o único caminho que permitirá quebrar o círculo vicioso que penaliza e inviabiliza uma parte significativa da floresta, levando lentamente ao seu declínio, é o caminho do associativismo florestal, activo e participado.

Um associativismo consciente, informado e independente. Um associativismo não parasitário e que não se deixe sequestrar por interesses alheios à floresta e aos seus valores e funções. Um associativismo com apoio público, franco e sem reticências, mas que seja permanentemente avaliado pelos seus resultados objectivos e que seja capaz de unir os agentes económicos, todos eles, em torno do interesse nacional.

Há, no entanto, um ponto e este será o final, sobre o qual penso que o Estado tem obrigações especiais, das quais se não pode demitir. Trata-se das doenças e pragas que, segundo os especialistas, atingem mais de 20% das nossas florestas e para as quais não se conhecem antídotos eficazes.

Do meu ponto de vista, isto acontece porque se não investe suficientemente na sua avaliação e combate e porque se não federam capacidades técnicas e cientificas suficientes, alargando-as à Europa e ao mundo, se necessário.

Agrónomo (ISA), ex-ministro da Agricultura

BBC destaca geração revolucionária de "fazedores de vinho" portugueses



Gerações dos anos 80 representam revolução no sector do vinho
Reinaldo Rodrigues/GI
04/12/2014 | 10:13 |  Dinheiro Vivo
O professor de viticultura João Almeida, a enóloga Rita Marques e o professional de marketing Diogo Albino são os três protagonistas do trabalho que a BBC fez sobre os novos nomes do vinho portugueses.
Os jovens que se dedicam ao negócio são a esperança de um sector que é conhecido além-fronteiras, muito mais pelos vinhos fortificados como o Vinho do Porto ou da Madeira do que pelos tintos, brancos e rosés produzidos atualmente.
"Com uma história de séculos (...) os vinhos de mesa portugueses deveriam ser muito mais conhecidos internacionalmente", escreve a BBC, apontando uma das razões para a fraca popularidade: "a maioria deles são feitos de uma maneira que está fora de moda".
A falta de atenção em relação às embalagens e ao marketing é também apontada como um dos fatores que parece mudar nesta nova geração de viniviticultores. "Muito mudou nos últimos 10 anos, e agora há uma nova geração de fazedores de vinho que aliam a tecnologia de ponta a estratégias para poderem sobressair entre a multidão".
Casos como o vinho Camaleao, feito pelo professor de viticultura João Almeida, 33 anos, em Viseu e vendido para Espanha, Reino Unido, Holanda, Japão e Brasil, servem de referência ao artigo da BBC. João explica que, se no primeiro ano de produção arrancou com 1350 garrafas, agora faz mais de 27 mil, anualmente.
Rita Marques, 32 anos, é outra enóloga que decidiu pegar no negócio da família depois de uma temporada de formação no estrangeiro. Depois de passar por vinhas em França, na California, na Nova Zelândia e na África do Sul, Rita decidiu voltar a casa e começar a produzir os vinhos Conceito e Contraste em 2008. Agora, exporta 95% da produção.
"A nossa geração é bem mais pragmática. É bom que as pessoas façam os tipos de vinho em que acreditam, mas no final, temos que o vender.", explica à BBC.

Parlamento desafiado a simplificar legislação do setor agrícola

Sessão sobre Agricultura e Desenvolvimento Rural realizou-se em Santarém. 

O parlamento foi esta terça-feira desafiado, numa sessão sobre Agricultura e Desenvolvimento Rural realizada em Santarém, a "ajudar na simplificação da legislação" para o setor e a acompanhar de perto a aplicação da política agrícola europeia no país. A conferência de presidentes de comissões parlamentares, presidida pela presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, realizou-se no Convento de S. Francisco, em Santarém, tendo sido convidadas a Associação dos Jovens Agricultores de Portugal (AJAP), a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), a Confederação Nacional das Cooperativas e do Crédito Agrícola de Portugal (Confagri), as associações de desenvolvimento rural do Ribatejo APRODER e ADIRN e o economista e professor da Universidade do Algarve António Covas. Aproveitando a presença dos presidentes das comissões parlamentares e de alguns deputados, nomeadamente os eleitos pelo círculo eleitoral de Santarém, entre os quais o vice-presidente do parlamento, António Filipe (CDU), e o presidente da Comissão Parlamentar de Agricultura e Mar, Vasco Cunha (PSD), as organizações pediram ações concretas do órgão legislativo. Luís Mira, secretário-geral da CAP, desafiou o parlamento a ajudar os agricultores, "simplificando a legislação e acompanhando os governos na aplicação da política agrícola europeia", frisando a importância de os fundos comunitários serem "rapidamente postos à disposição do setor" para que este possa continuar a melhorar a sua competitividade.

GPA lança prémio em conjunto com EDIA para distinguir boas práticas agrícolas

05-12-2014 
 

 
O Green Project Awards, em parceria com a Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva (EDIA), instituiu um prémio de reconhecimento de boas práticas em projectos que promovam o desenvolvimento sustentável no Alqueva.

Esta distinção, que visa assinalar os 20 anos da EDIA, visa promover o recurso "água" como factor de desenvolvimento fundamental da região.

O Prémio GPA – EDIA : Boas Práticas em Alqueva terá periodicidade anual e, de acordo com José Pedro Salema, presidente da EDIA, irá «premiar e reconhecer boas práticas em projectos implementados na região de Alqueva, que promovam o desenvolvimento sustentável, como complemento ao movimento de sensibilização para as temáticas da sustentabilidade, alertando e conscientizando a Sociedade Civil para a importância do equilíbrio ambiental, económico e social».

As categorias a concurso ao Prémio GPA – EDIA: Boas Práticas em Alqueva são duas: Boas Práticas em Alqueva e Prémio Inovação em Alqueva. O vencedor do galardão da categoria Prémio Inovação em Alqueva receberá um prémio monetário no valor de 2.500 euros, na cerimónia de entrega de prémios do Green Project Awards, em data a anunciar em 2015.

As candidaturas a este prémio abrem já no próximo ano. Para mais informações, consulte o site: http://boaspraticasemalqueva.com/

Fonte: Greensavers

Nas cadeias nascem leitões, faz-se vinho, azeite e mel


ALEXANDRA PRADO COELHO (texto), ENRIC VIVES-RUBIO (fotografia) e RICARDO REZENDE (vídeo)

Nos estabelecimentos prisionais portugueses, há floresta, vinha e olival, vacas, ovelhas, porcos, dióspiros, nozes, colmeias e até cavalos. E há reclusos a ajudar leitões a nascer, a alimentar vacas, a levar rebanhos a pastar ou a trabalhar nas hortas solidárias que dão toneladas de legumes ao Banco Alimentar contra a Fome. Cá fora, ao ar livre, estão um pouco mais próximos da liberdade

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É quase hora de almoço quando chegamos à casa de António Vidinhas e António Carneiro. O lume está pronto cá fora e os dois homens preparam-se para pôr as febras em cima das brasas. A nossa chegada interrompe-os, mas eles garantem que não tem importância. Não recebem assim tantas visitas ali e além disso vimos acompanhados por José António Silveira, director do Estabelecimento Prisional (EP) de Izeda, Trás-os-Montes, e pelo chefe Cepeda, o responsável pelos guardas.

A casa de Vidinhas e Carneiro fica a quatro quilómetros do EP, os dois homens estão em regime aberto, encarregues de tomar conta da pocilga — não têm telemóvel (o regulamento não permite), mas têm uma velha bicicleta para irem até à prisão quando precisam.

Vidinhas leva-nos a ver as porcas e os leitões. Cada uma tem um espaço separado e os leitões brincam na terra, junto às enormes mães, ignorando a sorte que os espera muito em breve. Vidinhas está aqui, a tratar dos animais, há já 14 anos. Conhece-os como ninguém e percebe-se que adora o que faz.

Antes havia outro recluso a viver na casa, mas entretanto saiu em liberdade, e os responsáveis da prisão resolveram perguntar a António Carneiro, pescador da Póvoa mais habituado aos peixes do que aos porcos, se estava disposto a ir viver para ali. Ele disse que sim, gosta do sossego, e sempre é mais parecido com estar em liberdade. "Somos obrigados a cumprir a pena, mas aqui sempre é melhor, não temos guarda, não temos fecho, nada. Estamos bem. Temos televisão, mas às 9h30, 10h da noite já estamos deitados. E às 7 da manhã já estamos a pé."

Levam-nos a ver a casa. Os quartos arrumados, as camas feitas, a roupa pendurada em cabides. Na sala uma lareira porque "de Inverno isto é um horror, chega a fazer 7 ou 8 graus abaixo de zero". A televisão está ligada e ouve-se o noticiário. Abrem o frigorífico, onde guardam a comida que lhes é trazida por um funcionário do EP e que eles cozinham todos os dias.

Vidinhas descreve o quotidiano. "De manhã, quando nos levantamos, tomamos o pequeno-almoço. Botamos de comer aos animais, vemos se estão bem ou não. Depois é ver se há porcas para trazer para aqui e ficarem isoladas se forem ter filhos. É ver se os leitões estão bem, fazer a limpeza às barracas, moer cereais quando é preciso, e pouco mais… botar água, lavar as pias, enchê-las para os animais terem sempre água limpa."

Abre uma porta para nos mostrar um porco que não foi vendido (os animais aqui são de raça bísara e são todos vendidos para a Associação Nacional de Criadores de Suínos de Raça Bísara) e que ficou a criar ali. "Os animais foram sempre a minha vida. Em casa também tinha e cuidava deles, mas aqui ganhei mais experiência. Se algum está doente, entro em contacto com o veterinário, claro, mas sou eu quem dá as injecções."

Há um cão que salta, brincalhão, junto às nossas pernas, e que brinca com os gatos pequeninos. À frente da casa há uma horta, e um pouco mais longe um terreno onde, conta o director do EP, a ideia é vir a criar faisões. No Natal, vai provavelmente fazer muito frio, mas este ano nenhum dos dois homens vai a casa (já estão ambos abrangidos pelas saídas precárias, que lhes permitem visitas regulares à família). Estão muito longe dos outros reclusos, por isso é muito importante que se entendam. "Se estivermos dois que não se dêem bem, já não dá para o trabalho", resume Vidinhas.

Mas ambos sabem que estão numa situação de certa forma privilegiada. "Lá dentro era impossível termos as garantias que temos aqui", diz. "Aqui não temos chave à porta. Porque se for preciso pormo-nos a pé às dez ou onze da noite para ver de alguma porca, temos de sair. Quem souber levar a vida em condições tem as regalias. Saber levar esta vida conta muito."

 
António Vidinhas toma conta da pocilga, com uma produção anual de 400 leitões. Vive em regime aberto numa casa fora do edifício principal do EP
Vidinhas e Carneiro são dois dos 288 reclusos que nos estabelecimentos prisionais portugueses trabalham em explorações agrícolas. A Revista 2 visitou três destes EP: Izeda (Trás-os-Montes), Santa Cruz do Bispo (Matosinhos) e Pinheiro da Cruz (Grândola), com diferentes produções agrícolas. Trabalho não falta — basta dizer, por exemplo, que Izeda tem 154 hectares de terrenos — e os directores gostariam de ter mais reclusos em condições de trabalhar no exterior. O problema é que só podem usar reclusos que beneficiem do Regime Aberto no Interior (RAI, decidido em função do comportamento e do tempo de pena cumprido) e estes são ainda uma percentagem pequena do total da população prisional.

Izeda fica no final de uma estrada e ergue-se no horizonte de quem se aproxima de carro não tanto como uma edifício de prisão mas mais como um colégio interno, com torre de igreja e tudo. E, na verdade, este estabelecimento começou por ser aquilo a que antigamente se chamava uma "casa de correcção", onde os menores que cometiam pequenos crimes — os "corrécios" — eram colocados. O guarda Cepeda, que nasceu na região, lembra-se muito bem de ouvir dizer que quem não se portasse bem "ia para os corrécios".

O facto de o edifício ser semelhante a um colégio ainda hoje traz preocupações à direcção. Não era suposto que das janelas das celas os reclusos pudessem ver quem entra e sai pelo portão principal, mas não há muito a fazer quanto a isso. O nosso carro aproxima-se e à direita vemos um campo de futebol cheio de… vacas. "Costumamos pô-las ali a pastar", explica o director, "porque estão num espaço controlado e porque vão cortando a relva do campo." Parece, visto daqui, um jogo de futebol com jogadores pouco motivados para correr.

Mas há mais coisas que não parecem encaixar na imagem que se tem de uma prisão. O director leva-nos a visitar a vacaria e a zona onde vivem os presos que estão em regime aberto. É uma fileira de casas, com quartos com vários beliches, os sapatos todos arrumados lá fora, as camas feitas. Um dos reclusos está a cortar vegetais na cozinha para fazer a refeição para o grupo. Outros trabalham no exterior. Ali ao pé galopam quatro cavalos brancos. Um preso monta num dos animais e galopa à nossa frente, o vento a bater-lhe no rosto. É este homem que está encarregue de tomar conta dos cavalos que o EP recebeu, mas quando ele vai a casa em precária a tarefa passa para outro, Avelino Marques dos Santos, que vamos conhecer um pouco mais longe, no campo das nogueiras.

"Estou cá fora há três ou quatro meses", conta-nos Avelino, apanhando as nozes que caem no chão enquanto outro recluso, empoleirado em cima de uma árvore, abana os ramos, e a cadela Micas corre de um lado para o outro. "Faço um pouco de tudo, apanhar a noz, olhar pelos animais, cortar milho. [Estar fora] dá mais liberdade, temos a possibilidade de ficarmos fora do perímetro da cadeia, está-se melhor. Fiquei a saber aqui que há nozes fêmea e macho. Aprende-se muita coisa", diz. Mas o que o tem entusiasmado mais são os cavalos. Abre um sorriso. "Até do cavalo abaixo já caí, são experiências que lá dentro nunca iria ter."

 
A maior parte dos terrenos do EP de Izeda são olival e por ano produz-se 6 a 8 mil litros de azeite
José António Silveira, o director, tem pena que a nossa visita aconteça já no fim da época da noz e antes de se começar a campanha da azeitona. "A maior parte dos nossos terrenos são olival e conseguimos uma produção anual de azeite de 6 a 8 mil litros, que vendemos quase todo a funcionários dos nossos serviços." Na pocilga onde trabalham Vidinhas e Carneiro, há entre 60 e 70 porcas, com uma produção anual de 400 leitões. Na vacaria, 30 vacas de raça mirandesa e 19 vitelos, actualmente — todos os animais com escoamento garantido. Quanto às nogueiras, a produção este ano foi de duas toneladas de nozes.

"Toda a actividade agrícola esteve parada uns sete anos", explica o director. "Ficou tudo ao abandono." Com a ajuda do engenheiro agrónomo António Padrão, desde 1996 que se foram recuperando os campos — com a dificuldade acrescida de que os 150 hectares (dos quais apenas nove são de pinhal, cinco de mato, e 25 de olival) estão espalhados por muitas parcelas, o que torna mais complicado levar para trabalho no exterior grandes números de reclusos. Mas a aposta é forte e em breve será feito um investimento de 200 mil euros, que permitirá ter novas maternidades para as porcas e novas alfaias e estufas.

Falta-nos ainda conhecer o rebanho de 262 ovelhas. Vamos no jipe até ao local onde estão o senhor Luís, que é o pastor civil que anda com os animais, e Pedro Nuno Crista, o recluso que o acompanha. Apoiado num pau, de palhinha ao canto da boca, Crista conta que está neste trabalho há um mês e meio mas que já estava habituado a lidar com animais. "Aqui é outra liberdade", diz. E não se atrapalha. Ainda há pouco teve que trazer de volta do campo uma ovelha que tinha acabado de parir. "Já é a terceira vez que faço isso, não custa nada."

"Neste momento temos 15 homens a trabalhar no exterior", relata o director do EP. "Costumo dizer-lhes, quando vêm cá para fora, para aproveitarem bem porque é um primeiro passo para a liberdade definitiva. Enquanto no interior têm sempre alguém a controlar-lhes os passos, cá fora podem gerir o seu tempo, não têm guardas em permanência e, para quem está privado da liberdade, isso é uma enorme benesse."

Claro que se "poderia atingir outros resultados em termos de produtividade se houvesse mais recursos", salienta José António Silveira. "Se tivéssemos mais reclusos a beneficiar de medidas de flexibilização, poderíamos colocar mais a trabalhar neste tipo de actividade." E os riscos de fuga? "Felizmente são situações pontuais, que raramente acontecem. Os reclusos valorizam muito esta oportunidade que lhes é dada. Temos de apostar neles, não podemos ficar com medo de que as coisas não corram bem, porque há muita gente com competências que só necessita que lhe dêem um caminho para poderem ser úteis no futuro."

É esse também o discurso de Licínio Lima, subdirector da Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais. "As nossas prisões não são cárceres, são centros de reabilitação e reinserção", afirma. "O nosso maior receio é que um indivíduo que é libertado continue preso a estigmas e modelos de vida."

O que a direcção-geral tem vindo a fazer nos últimos tempos é recuperar as actividades económicas "que no passado foram uma imagem de marca dos EP e que foram morrendo". O objectivo é "o aproveitamento económico dos equipamentos e de todo o potencial de patrimónios que os serviços têm" e, ao mesmo tempo, "tentar que os reclusos estejam ocupados o máximo de tempo possível e que recebam algum dinheiro, o que lhes dá maior autonomia e evita negociatas dentro do estabelecimento". Há outro ponto muito importante: "Quanto mais ocupados os reclusos estão, menor é o consumo de medicação" como antidepressivos.

Neste momento, segundo dados do 1.º semestre do ano, a população prisional é de 13.760 indivíduos (número de 1 de Julho), dos quais, 3599 estão a trabalhar em actividades organizadas pelos EP e 1202 em trabalhos que resultam da colaboração com entidades externas. Mas muitos destes trabalhos são de manutenção do próprio estabelecimento e não implicam ir para o exterior.

O caso das actividades agrícolas é particular e por isso envolve números ainda baixos: 189 indivíduos nos produtos hortícolas (com receitas de 45 mil euros em 2013), 66 em viticultura (142 mil euros) e olivicultura (perto de 29 mil euros), 29 em produção animal (24 mil euros de receitas com leite, 110 mil com animais e 4 mil com ovos) e 4 em lenha (12 mil euros). O total de receitas ascende aos 368 mil euros, com os produtos a serem escoados essencialmente para dentro do próprio sistema prisional, nos EP e entre os funcionários.

Há ainda 36 homens envolvidos em trabalho nas Hortas Solidárias, projecto que resulta de um protocolo com o Banco Alimentar Contra a Fome, ao qual, no ano passado, foram entregues perto de 50 toneladas de produtos hortícolas cultivados nos estabelecimentos prisionais.

 
O estabelecimento prisional de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos, tem 22 hectares de área agrícola
É época dos dióspiros quando chegamos ao estabelecimento prisional de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos. Aqui, o portão parece o de uma prisão, mas depois de entrarmos temos a mesma sensação que tivemos em Izeda: a antiga propriedade, que terá pertencido à rainha Santa Mafalda, parece mais uma quinta, com palacete e tudo, do que um estabelecimento prisional.

A dimensão é bastante menor do que a de Izeda, são cerca de 30 hectares, 22 dos quais de área agrícola e o restante de floresta que também é explorada para a venda de madeira. A principal produção aqui é de leite — a cada dois dias, uma grande empresa industrial vem buscar cerca de 500 litros. O director, Hernâni Vieira, e o engenheiro agrónomo, Hilário Pinto, acompanham-nos numa visita. Cruzamo-nos com alguns detidos que trazem caixas cheias de dióspiros. As árvores estão carregadas, e alguns, demasiado maduros, caíram já ao chão.

Mais à frente está um rapaz a tomar conta de algumas ovelhas. Não é um rebanho grande como o de Izeda, mas é perto de uma dúzia de animais, e o pastor improvisado é um dos inimputáveis que estão neste estabelecimento, explica o director, e que beneficia muito deste trabalho junto aos animais. É que Santa Cruz do Bispo, onde estão detidos cerca de 500 homens, tem algumas especificidades: aqui estão presos do regime geral, mas há também uma unidade de psiquiatria e saúde mental, para os considerados inimputáveis (é a única no país e recebe actualmente 156 homens), e ainda uma Unidade Livre de Drogas para programas terapêuticos destinados aos reclusos que querem deixar o consumo.

Deixamos as ovelhas para trás e percorremos os caminhos da quinta. Há recantos românticos como o lago coberto de líquenes, com um repuxo no meio. E, à frente, um grande campo de milho atravessado pelo rio Leça, cuja água é usada para a rega, onde está a trabalhar um tractorista (que não é recluso, porque estes não estão autorizados a guiar tractor), acompanhado por um detido que o ajuda. Depois, o milho vai para a silagem — e aí encontramos vários reclusos que ajudam a despejar o que acaba de ser colhido para dentro de silos onde fica a fermentar até poder ser dado às vacas.

Na vacaria trabalha outro homem. Não é hora da ordenha, isso acontece mais cedo de manhã e novamente ao fim do dia, mas a nosso pedido ele traz uma vaca até ao sítio onde são ordenhadas. O animal parece meio confuso, até porque o passeio revela-se inconclusivo: ninguém lhe tira leite a esta hora, foi mesmo só para a fotografia.

Aqui há também horta, tudo biológico, e este ano a produção da batata tem sido extraordinária. "Há três semanas, oferecemos meia tonelada ao Banco Alimentar", conta Hernâni Vieira. "No caso da batata, não damos vazão." Os restantes legumes são vendidos aos cerca de 240 funcionários num mercadinho à entrada do EP. E outra parte é vendida à empresa fornecedora da alimentação no estabelecimento.

Passamos pela Unidade Livre de Drogas. Uns cinco ou seis reclusos estão no pequeno terreno exterior, agarrados a umas enxadas, cavando e preparando a terra para a sementeira. Aqui são acompanhados por técnicos especializados em toxicodependência e, embora não sejam obrigados a trabalhar, é importante que se mantenham ocupados.

Aliás, neste EP, sublinha o director, entre 75 e 80% dos homens têm algum tipo de ocupação, seja nas oficinas, onde fazem arranjos do material da prisão, das camas aos armários, seja na escola, que visitamos de seguida, onde um recluso pintou nas paredes excertos da história de O Principezinho de Saint Exupéry. Entre eles, o diálogo com a raposa: "O que é que estar preso quer dizer? […] Quer dizer que se criaram laços com alguém. Se tu me prenderes, a minha vida fica cheia de sol."

 
As vinhas de Pinheiro da Cruz estão em solo pobre, mas o vinho é comercializado nos supermercados
Se em Izeda falhámos a apanha da azeitona, em Pinheiro da Cruz chegamos na altura certa para vermos a vindima. No passado, o vinho de Pinheiro da Cruz conquistou fama e ainda hoje se continua a produzir, apesar de o solo arenoso ser um desafio.

A praia não fica longe dali. No Carvalhal ou na Comporta, os banhistas comem peixe grelhado e mergulham no mar, mas o EP de Pinheiro da Cruz também tem uma praia própria, com uma frente de quatro quilómetros — afinal estamos a falar de uma área total de 1500 hectares de terreno, embora a maior parte seja floresta.

Já iremos à vinha. Primeiro, a directora, Maria da Ressurreição Moura, convida-nos a conhecer as oficinas. Num estabelecimento com perto de 650 homens, "há mais pedidos de trabalho do que oportunidades", explica. E a maior parte dos homens prefere as oficinas às actividades agrícolas, apesar de já nos anos 50 do século XX Pinheiro da Cruz ser uma "colónia penal agrícola". "As colocações são atribuídas de acordo com a data do pedido, a situação económica e familiar do indivíduo (damos prioridade a quem não tem apoio ou enquadramento no exterior) e o comportamento disciplinar."

Há carpintaria e serralharia, oficinas grandes com mais máquinas do que homens, onde se fazem, por exemplo, as camas de ferro para os estabelecimentos prisionais e de onde podem também sair candeeiros de rua ou cadeiras de jardim, se houver encomendas de fora. Mas o grande orgulho de Pinheiro da Cruz é a oficina da Tecnidelta, onde a marca Delta põe a arranjar as máquinas de café.

Vários homens trabalham aí. "Neste momento, somos seis, quatro na mecânica e dois pintores", afirma Nuno Nunes, um dos trabalhadores. "Cada um tinha a sua profissão diferente e recebemos formação dos técnicos da Delta." Ocupados, "o tempo custa menos a passar". Nuno não tem dúvidas quanto a isso: "Ter a mente ocupada é essencial para o recluso. O estar desocupado não seria bom para mim." Além disso, "de hoje para amanhã, é uma mais-valia, são outras aptidões que se vão buscando".

Todos repetem o mesmo. "Quero trabalhar porque é a minha profissão", diz Paulo, que está na carpintaria. "Preciso de trabalhar, ganhar dinheiro, estar ocupado. Aqui é que me sinto bem." Antes esteve na "brigada da cal", uma invenção da direcção do estabelecimento para que os detidos ajudassem a caiar o edifício, mas o que o entusiasma mesmo é a oficina: "O melhor é estar ocupado, e logo na minha profissão, é ouro sobre azul."

"A ocupação dos reclusos é fundamental no processo de reinserção social", sublinha também a directora. "Muitas vezes é através dela que proporcionamos a aquisição de rotinas e de hábitos que nunca foram consolidados ao longo do percurso dos indivíduos no exterior."

Mas, perguntamos, o objectivo principal é ocupar os reclusos ou rentabilizar os EP? "Rentabilizar não é o objectivo primeiro, mas essa preocupação existe", reconhece Maria da Ressurreição Moura. "Só rentabilizando as explorações económicas e conseguindo algumas receitas é que podemos dinamizar, fazer novos investimentos e dar garantia de continuidade a estas iniciativas."

Os homens que trabalham ganham uma quantia simbólica (cinco euros por dia, no caso das Hortas Solidárias) mas mesmo assim é um investimento — e se não há mais homens a trabalhar é, em parte, também por as verbas para lhes pagar serem curtas.

Licínio Lima, da Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, reforça: "Queremos aproveitar os terrenos e as oficinas que temos e que estavam pouco aproveitadas."

Foi nos anos 90 que o interesse pelas actividades económicas dentro dos EP começou a reduzir-se. "Muitos dos serviços que eram feitos pelos reclusos passaram a ser feitos por empresas exteriores, como aconteceu com a alimentação. Além disso, pensou-se na altura em alienar vários estabelecimentos prisionais, o que não chegou a acontecer." Desinvestiu-se. Agora, a perspectiva é outra. "Estamos empenhados em aproveitar tudo para ocupar os reclusos e contribuir para a auto-sustentabilidade do sistema."

Dificuldades? Ter mais reclusos em regime aberto no interior, o que implica também mais guardas para os acompanhar quando eles estão a trabalhar nos campos, explica Licínio Lima. Há falta de guardas, tal como há "muita falta" de técnicos superiores de reabilitação e reinserção, que acompanhem cada preso no percurso que, desejavelmente, lhe vai permitir passar para o regime aberto. "O indivíduo que chega a esse regime já nos dá garantias de que o que quer é trabalhar e cumprir a sua pena." É por isso que "não temos casos de fuga neste regime, os casos de fuga acontecem com presos do regime comum, geralmente no início das penas e que ainda não assimilaram a ideia de que têm de as cumprir".

 
No EP de Izeda, há 15 homens a trabalhar no exterior, onde tratam das vacas, fazem a apanha das nozes e das azeitonas para fazer o azeite, e ainda cuidam de cavalos
Outro ponto que Licínio Lima faz questão de esclarecer: "As nossas actividades económicas têm como objectivo o mercado, mas não para concorrer com as actividades privadas." Seria concorrência desleal, dado que a mão-de-obra é mais barata. "Por isso, queremos desenvolver produtos que não se encontram no mercado, como o milho tradicional para fabrico da broa de milho."

Uma das apostas da direcção-geral é precisamente nos protocolos com empresas ou instituições exteriores, como a Delta. "Neste momento, temos 20 protocolos a aguardar a assinatura da ministra [da Justiça], o que significa que a comunidade se vai abrindo", afirma. E sublinha: "O nível de reincidência é muito alto e o combate a esse problema tem de ser feito por todos. Quem tem de acolher o ex-recluso é a sociedade."

Mas o objectivo da nossa vinda a Pinheiro da Cruz era ver a produção agrícola e em particular do vinho. Saltamos para o jipe e partimos. Solo de areia, pinheiros, pinheiros, já se sente o cheiro do mar lá ao fundo, mas não chegamos à praia, vamos só até ao meio da floresta à procura das colmeias que produzem o mel cuja venda se anuncia à porta do EP. A directora conta que difícil mesmo foi arranjar um recluso que aceitasse tratar das colmeias, mas finalmente conseguiu-se um.

Depois, seguimos até à vinha. Chegamos ao mesmo tempo que a camioneta que traz os reclusos — camisolas sem mangas, casacos amarrados à cintura, lenços amarrados à cabeça, luvas grossas para proteger as mãos. Não, não tinham experiência nenhuma de vindima, dizem. E não, não se importam muito de fazer este trabalho, se bem que, diz um, noutra cadeia já trabalhou na biblioteca e preferia, sempre dá menos dores nas costas. "Não tem nada a ver", diz, "os livros aqui são as uvas". Os guardas andam ali à volta, vigiando, e dando uma ajuda. Esta "brigada das vindimas" é a mesma que faz limpeza da mata, corta lenha, limpa a praia.

"Não fazer nada é stressante", declara um dos homens, cortando calmamente mais um cacho de uvas. "Psicologicamente, é pior, aqui o tempo passa mais rápido e sempre é alguma coisa que a gente leva, mais uma experiência." E sorri. "Não é por estarmos presos que deixamos de sorrir, além disso se viermos para aqui tristes contagia o grupo."

O engenheiro António Matias, antigo guarda prisional, olha para os homens a trabalhar. Só lamenta que "esta seja a vinha do país instalada em solo mais pobre", numa terra que "não tem qualquer fertilidade". Mas o facto é que já há muito tempo que há vinhas aqui, mesmo antes da criação do EP no início da década de 1950. "Nos primeiros anos, o vinho era de má qualidade e servia para dar aos reclusos, que nessa altura podiam beber dentro do estabelecimento. Mas depois foi ganhando nome e reconhecimento e começou-se a comercializar." Os principais clientes ainda são os funcionários dos serviços prisionais, mas algumas garrafas chegam aos supermercados com a marca Pinheiro da Cruz.

Há sobretudo tinto — uma produção de 10 mil litros, enquanto o branco não ultrapassou no último ano os dois mil. No entanto, a procura de branco tem vindo a aumentar e António Matias decidiu reconverter parte das vinhas velhas plantando castas brancas. Na adega, os homens fazem a selecção das uvas à entrada. No ar, há já o cheiro típico dos lagares, e a máquina que desengaça as uvas faz um barulho que dificulta qualquer conversa.

Quando a "brigada" terminar o trabalho e se for embora, quem fica a tomar conta de tudo isto é Paulo Isaac Sousa, recluso já a beneficiar de regime aberto e que vive aqui, numa casinha junto à adega. "Vendo o engenheiro a explicar vou aprendendo, aprendo depressa", assegura. De agricultura, antes, sabia muito pouco. "Tenho aprendido tudo aqui. Às vezes, quando o pessoal do monte [os reclusos que tratam dos animais] sai de precária, eu vou dar uma ajuda com os porcos e as vacas. Estou sempre a mexer, há sempre coisas para fazer." Mesmo assim, quando sair, vai voltar para a profissão que tinha antes: "Mecânico, do ramo automóvel."

De três em três meses, tem licença para ir a casa durante uma semana. "É a única coisa que tenho na vida, a minha mãe, a minha mulher, que amo muito, e os miúdos. Quanto mais depressa sair, mais depressa estou ao pé dela e dos miúdos. Tenho de lutar por isso. Estou sempre com saudades deles. A cada dia que passa dói-me o coração."

 
Paulo Isaac Sousa, do EP Pinheiro da Cruz: "Aqui mudei muito"
Sentado à porta da sua casa, ao lado da adega, desabafa: "Uma pessoa quando vai a casa vai sempre contente, mas depois tem de voltar. A gente errou, eu errei, temos de cumprir as nossas obrigações. Eu sempre cumpri, um dia que me for embora, vou ficar com uma boa imagem, um bom comportamento." Fala rápido, comovido: "É assim a vida. O crime não compensa. Estou aqui há 14 anos, é muito tempo. Faço 45 anos em Dezembro. Chorei muito, pensei muito, sei que fiz mal, nunca chorei tanto. Mas tenho de aguentar, tenho de cumprir. Aqui mudei muito, cada vez estou mais velho. Quando sair, já vou com 46 ou 47, a gente já pensa de maneira diferente. Temos de cumprir. Já falta pouco."

O trabalho na adega tem ajudado a passar o tempo, tal como o cuidar das porcas tem dado ânimo a António Vidinhas. À porta das suas casas, em Izeda ou Pinheiro da Cruz, ou a tomar conta de ovelhas e a apanhar dióspiros em Santa Cruz do Bispo, estão mais próximos da ideia de liberdade. "Aqui andamos à solta", diz Pedro Crista, o "pastor" de Izeda, nos montes a ajudar ovelhas que acabaram de parir.

"Sempre se está melhor ao ar livre do que dentro de muros", diz Avelino Marques dos Santos, sorrindo quando fala nas suas quedas do cavalo. "Tenho de cumprir a minha pena, e tenho, mas estou melhor aqui fora", diz António Carneiro, o ajudante de Vidinhas, pescador da Póvoa olhando as porcas e pensando no dia em que irá sair e "voltar para o mar". Quando estes homens forem novamente livres, é a comunidade que tem a obrigação de os acolher e os reintegrar, lembra Licínio Lima. Porque "toda a gente é maior do que o seu próprio erro".    

Prémio de Melhor do Mundo para Selo de apicultura nacional


17 de novembro, 2014

No passado dia 31 de Outubro, foi atribuído o prémio NEXOFIL, na categoria de impressão mista, ao selo português de 2013 "Apicultura- Portugal Continente" do Pintor José Projecto. A cerimónia foi presidida pelo Secretário de Estado do Fomento do Governo de Espanha, na Casa de la Moneda em Madrid.

O Grupo NEXO é espanhol e actua na área da Edição On Line desde 2000. Em colaboração com o conhecido jornal espanhol especializado "Eco Filatelico" (70 anos de publicação ininterrupta) organizou e patrocinou estes prémios, pela primeira vez neste ano de 2014, referindo-se a selos emitidos em 2013.

Os prémios foram atribuídos por um Júri Internacional Independente, formado por 40 membros de grande prestígio, entre os quais: Presidentes das Federações de Filatelia dos EUA, Brasil, Canadá, México, Argentina, Chile, Reino Unido, Itália, Áustria, Espanha e Portugal. Para além destes, o júri foi formado, pelos representantes da Academia Europeia de Filatelia (AEP) e da Real Academia Hispânica de Filatelia.

Engenheiro cria rebanho para produzir leite de cabra

Jovem tem uma unidade de produção em Benafim, no concelho de Loulé Sem resposta aos currículos que enviou depois da universidade, um jovem engenheiro de produção animal regressou à terra dos avós, Benafim, no concelho de Loulé, onde tem uma unidade de produção de leite de cabra, tendo atualmente 139 exemplares. "Era o mais lógico a seguir, porque não havendo emprego, não havendo oportunidades, acho que apostar naquilo que já tinha, nos terrenos que eram dos meus avós e não deixar as coisas ao abandono é uma boa perspetiva de vida", disse José Gonçalves à agência Lusa. Em 2008, 'arregaçou as mangas' e transformou a ideia num projeto, que está a ser apoiado em cerca de 20% pelo programa comunitário PRODER (Programa de Desenvolvimento Rural), que tem agora reunidas as condições e as instalações para encetar a produção de leite de cabra. O seu objetivo é produzir leite de cabra de raça algarvia e "conseguir ter uma vida digna e gerar valor" para o país. Apoio da família Filho de um médico e de uma engenheira química, José Gonçalves, de 32 anos, admite que os pais teriam inicialmente outras expectativas para si, mas com a sua paixão e empenho conseguiu obter o apoio da família, que vinca ser um alicerce vital do projeto. "Enquanto não tive as vedações, estive durante cerca de quatro anos em pastoreio direto com elas [cabras] no campo", contou explicando que em determinados períodos chegava a fazer seis horas diárias de pastoreio. Atualmente, o dia está recheado de outras tarefas como o tratamento do estábulo, das áreas de alimentação e recolha de leite, o auxílio no nascimento dos cabritos ou o semear ração para o rebanho, e, embora já não leve o rebanho a pastar, continua a conhecer cada animal pelo nome que a mulher escolheu. O campo e os animais já faziam parte das suas memórias junto dos seus avós e ganharam outro peso com o curso de produção animal e o projeto empresarial agora em desenvolvimento. José Gonçalves comentou ainda as dificuldades burocráticas para aprovar o projeto. "Na agricultura ou em qualquer outro investimento, quando uma pessoa investe também tem um plano para vir a receber [lucro] dentro de certo tempo, no entanto, o maior entrave que tive foi o tempo com as legalizações", lamentou. Atualmente, o jovem e a mulher contam com a ajuda de dois estagiários e têm vindo a privilegiar os profissionais locais para construir a estruturas necessárias à instalação da empresa como forma de gerar impacto na economia local.

Embargo russo gerou queda drástica dos preços agrícolas em Portugal


João Ramalhinho
02 Dez, 2014, 10:08 / atualizado em 02 Dez, 2014, 10:13

A pera rocha representa quase metade do valor das exportações de produtos agrícolas portugueses para a Rússia. Este ano há mais pera e de calibre superior, mas os produtores da região Oeste não têm motivos para festejar.
Com o embargo russo, os mercados conquistados até agora por Portugal foram invadidos por pera mais barata de outros países, como a Holanda ou Bélgica.

Com a concorrência, os agricultores são obrigados a vender pera rocha a preços muito baixos, há quem fale mesmo numa redução de 40 %.

"Hi-tractor" para diminuir mortes com máquinas agrícolas e industriais


Lusa
25 Nov, 2014, 14:09

Uma pequena caixa cinzenta, alguns sensores, fios e tecnologia de ponta fazem do "Hi-tractor", um dispositivo de alerta para acidentes com máquinas agrícolas ou industriais, sendo já um novo "aliado" dos operadores destes tipo de veículos.
Este tipo de máquinas, apesar de úteis, são "perigosas" quando são operadas em condições "extremas ou por pessoas com poucas habilitações para o efeito", sendo responsáveis por um número "considerável" de mortes todos os anos, disse à Lusa o mentor do projeto.

Por este motivo o "Hi-tractor" assume-se como um elemento de "socorro urgente" e ao mesmo tempo "um dispositivo eletrónico salva vidas".

Em declarações à agência Lusa, Adriano Menino disse que o dispositivo passa por um conjunto de elementos de computação móvel, sensores e atuadores que, em conjunto com um software específico, monitorizam a posição de um veículo de trabalho que esteja a operar em qualquer tipo de terreno.

O aparelho já começou a ser testado e promete "revolucionar" o socorro em caso de acidente com tratores agrícolas, quando estes estão em movimento em terrenos morfologicamente mais acidentados e assim ajudar a reduzir o número de mortes.

"O dispositivo dá em tempo real as coordenadas do local às equipas de socorro ou outros elementos que o operador da máquina queira avisar com antecedência em caso real de acidente", acrescentou o investigador.

Para além destes dispositivos, há um segundo elemento que assume igualmente um papel de relevo em caso de doença súbita ou de outros acidentes que não envolvam a máquina agrícola.

"Trata-se de um pulseira SOS que poderá ser utilizada de forma manual pelo agricultor e assim espoletar um pedido de ajuda, quando por vezes, não há condições para pedir auxílio de imediato", explicou Adriano Menino.

Quem utiliza máquinas agrícolas no seu trabalho diário considera positivo o projeto deste investigador trasmontano natural e residente em Torre de Moncorvo, no distrito de Bragança.

"Eu acho que este dispositivo vai dar resultado. Trata-se de uma coisa boa porque trabalhamos em sítios perigosos e se isto der resultado as pessoas são alertadas mais depressa e, em caso de acidente outra fatalidade, o socorro é mais rápido ", disse António Ferreira, tratorista há 35 anos.

Pelo meio dos olivais do Baixo Sabor, o agricultor acrescentou que caso o "Hi-tractor" seja aprovado deveria ser "comparticipado" pelo Estado à semelhança do que acontece com outros dispositivos de alerta, para assim evitar que haja mais acidentes mortais com os tratores e outras máquinas agrícolas.

O mentor do dispositivo sempre foi dizendo que o aparelho de localização não será mais dispendioso que outras alfaias agrícolas utilizadas nos tratores.

O Hi-tractor é tido pelo seu criador como "um projeto inovador" que promete ajudar quem trabalha em terrenos de difícil acessos como os campos agrícolas no Nordeste Transmontano ou em qualquer outra parte do mundo.

Produção de vinho caiu menos do que o esperado


04 Dezembro 2014, 16:13 por António Larguesa | alarguesa@negocios.pt

As baixas expectativas em Agosto e a chuva durante a vindima apontavam para cenário mais desfavorável. A quebra de 0,8% é mais ligeira do que nos concorrentes Espanha e Itália e permite "dar resposta à procura" externa.
Os vitivinicultores portugueses produziram um total de 6,2 milhões de hectolitros de vinho em 2014, o que representa uma ligeira quebra de 0,8% face à campanha anterior. Os maiores problemas durante o período de floração afectaram sobretudo o Norte e Centro do País, onde a produção caiu 10%, mas que acabaram por ser quase compensados pelo crescimento nas regiões do Alentejo (9%), Tejo (17%) e na Península de Setúbal (22%).
 
Segundo o Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), que disponibilizou estes dados oficiais, as excepções a este cenário aconteceram em Trás-os-Montes, onde a produção aumentou 12%, e a quebra de 12% registada no Algarve. As reduções "mais relevantes", pelo volume em causa, aconteceram no Minho (-14%), e no Douro (-8%).
 
O presidente do IVV, Frederico Falcão, assinalou que esta diminuição total de 0,8% é "pouco significativa e vai contribuir para [manter] o equilíbrio nos stocks e dar resposta à procura internacional". Até Setembro, a exportação de vinhos engarrafados aumentou 5% face ao mesmo período do ano passado. Em 2013, as exportações do sector aumentaram 2,4%, ascendendo a 725 milhões de euros.
 
Portugal é o 12.º maior produtor e o nono maior exportador a nível mundial, vendendo no exterior perto de 60% da produção, em valor. Os receios quanto a uma evolução mais negativa no volume de produção advieram das expectativas transmitidas pelas diferentes regiões produtoras antes da colheita. E foram acentuados pelas condições climatéricas durante a vindima, em que ocorreram chuvas fortes.
 
Os números em Portugal são, ainda assim, bem melhores do que as estimativas comunicadas a Bruxelas pelos países europeus concorrentes na produção de vinhos. Em Espanha, a quebra na produção deverá ascender a 18% e em Itália a 15%. A posição concorrencial portuguesa poderá sair fortalecida face aos concorrentes do chamado "Novo Mundo" (Argentina, Chile, Estados Unidos Austrália ou Nova Zelândia), já que a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) já reportou uma estimativa de quebra mundial a rondar os 6%.

Vila de Frades recebe nesta sexta-feira, e durante o fim-de-semana, a edição 2014 da Vitifrades – 17ªs Festas Báquicas.



 Luís Amado: Ganhar ainda mais força e dinâmica no futuro
Vila de Frades volta a ser, durante três dias, palco do maior certame português do vinho de talha, numa iniciativa que se assume como a grande festa do vinho do Baixo Alentejo. Concertos de música, degustações de vinhos, rota das adegas e concursos fazem parte do programa.

Luís Amado, presidente da Junta de Freguesia de Vila de Frades, que recebe e promove esta iniciativa, frisou que este ano realiza-se mais uma mostra deste produto sazonal, de qualidade, que alavanca também, em termos económicos esta localidade.

Luís Amado prosseguiu, dizendo que este certame deve ainda, juntar, no futuro, mais parceiros, para manter o seu vigor e ganhar mais força e dinâmica.

Nesta noite de sexta-feira, os espetáculos são com o Grupo Coral e Instrumental "Os Vilafradenses" e o Grupo "300 And Friends", no recinto da Vitifrades, a partir das 21.30 horas.

Neste sábado, as propostas vão para "A Moda Mãe & Bafos de Baco", também no recinto da feira, às 21.30 horas, e à meia-noite pode ouvir João M e Miguel P.

Domingo é dia de Rota das Adegas e de cantares alentejanos, a partir das 15.00 horas.

Há 10 mil empresas agrícolas no País e gerem um terço da área cultivada


28 Novembro 2014, 13:40 por Isabel Aveiro | ia@negocios.pt


A dimensão média das explorações agrícolas em Portugal aumentou 15% entre 2009 e 2013, revelam os últimos dados do INE, aproximando-se da média europeia. A rentabilidade, contudo, continua longe dos parceiros comunitários.
A agricultura ocupa metade do território português. O ano de 2013 terminou com 264,4 mil explorações agrícolas em Portugal (menos 40,8 mil que em 2009) que ocupavam, no final do ano passado, 4,6 milhões de hectares, "o que corresponde a 50% do território nacional", contabiliza o último "Inquérito à Estrutura das Explorações Agrícolas", divulgada esta sexta-feira, 28 de Novembro.  
 
Entre 2009 e 2013, o indicador Superfície Agrícola Utilizada (SAU), manteve-se nos 3,6 milhões de hectares. Representava no final d ano passado 39,5% da superfície do País e 78,7% das explorações – de fora ficam "matos e povoamentos florestais sem culturas".
 
A Superfície Agrícola Não Utilizada (SANU) das explorações registadas no inquérito do INE ocupava naquele ano 2,2% da superfície das explorações. A "área com potencial mas sem utilização agrícola" existente em Portugal  diminuiu ainda 20,9% entre 2009 e 2013.
 
Empresas a céu aberto
 
"A empresarialização da agricultura portuguesa é uma realidade em crescimento, com impacto significativo na estrutura das explorações", defende resumo do INE, que dá como argumentação a área que passou a ser gerida por empresas agrícolas.
 
Os últimos dados do organismo oficial de estatística contabilizam em 10 mil sociedades agrícolas as existentes em Portugal a 31 de Dezembro de 2013. Há, isso é visível, mais concentração de terra produtiva sob gestão empresarial.  
 
É que apesar das sociedades agrícolas representarem apenas 3,8% do total das explorações agrícolas existentes no final de 2013 no País, um terço da Superfície Agrícola Utilizada (SAL) do País estava, há pouco menos de 12 meses, a ser gerida por empresas, que produzem ainda 45,6% do efectivo pecuário.
 
O INE salienta que "cada sociedade agrícola explora 114 hectares de SAU e 93 cabeças normais [de gado]". Isso representa 12 vezes mais do que a área média gerida por produtores singulares. E, no caso da pecuária, o rácio empresa versus produtor singular aumenta para 21 vezes mais.
 
Espanha não é já ali
 
"A empresarialização da agricultura, expressa pelo crescimento do número de sociedades agrícolas, tem contribuído para o aumento da eficiência do sector devido à adopção de processos de gestão mais profissionais e economias de escala", argumenta ainda o relatório do INE relativo a 2013.
 
Mas, e apesar do crescimento da área sob gestão de sociedades ter aumentado no total explorado, a dimensão económica das explorações agrícolas em Portugal continua longe da média da União Europeia e a léguas do centro e Norte da Europa, dominada por explorações agrícolas de dimensão muito grande com produção mecanizada.  
 
Na comparação com os nossos parceiros da Politica Agrícola Comum (PAC), Portugal está agora mais próximo da média comunitária em termos de área explorada. Houve um aumento da dimensão média das explorações, entre 2009 e 2013, de 12 hectares para 13,8 hectares. É um crescimento de 15% e coloca o País mais perto da média da União Europeia, que é de 14,4 hectares por exploração agrícola.
 
É na rentabilidade da terra que Portugal revela maior atraso. O INE adianta assim que a dimensão económica – medida com base no Valor de Produção Padrão Total da exploração – "cada exploração agrícola nacional gera em média 17,1 mil euros de VPPT".
 
Embora o indicador até tenha "evoluído positivamente" entre 2009 e 2013, afirma o INE sem contabilizar no resumo do Inquérito, aquele valor compara com a média da União Europeia, a 28 Estados-membros, que "atingem os 25 mil euros por exploração".
 
Tendo 2010 como referência, a líder destacada em termos de dimensão económica por exploração é a Holanda, acima dos 250 mil euros por exploração, seguida da Dinamarca (200 mil euros) e da Bélica.
 
Espanha, que entrou na União no mesmo ano que Portugal, já ultrapassou os 25 mil euros por exploração europeus em 2010.

O inspector Gadget do vinho mundial é português



06-12-2014 9:00 por Inês Alberti

Nunca produziu vinho, mas é considerado uma das melhores promessas na indústria. Copos inteligentes, uma rede social e um código mundial para identificar vinhos são algumas das invenções de André e da sua equipa.

É difícil concentrar numa palavra a profissão de André Ribeirinho. Com 36 anos, este engenheiro informático é um amante de vinhos, um embaixador dos produtos portugueses, um criador de ideias inovadoras e uma grande promessa na indústria mundial vinícola. 

Em 2010 foi eleito Personalidade do Vinho do Ano e a revista britânica "Harper" nomeou-o, em Novembro passado, "rising star" (estrela em ascensão). 

Surpresa: André Ribeirinho não vem de uma família de enólogos, nem produz vinhos. Foi a sua abordagem diferente à indústria que lhe valeu e à sua empresa o reconhecimento. Copos inteligentes, uma rede social e um código mundial para identificar vinhos são algumas das suas invenções.

"A área do vinho tem muito para dar e é uma área que tendencialmente também é mais conservadora", diz à Renascença. "Portanto, tem muito para descobrir e muitas coisas que têm de ser melhoradas. Para nós, são sempre oportunidades de negócio, de descobrir e às vezes até de criar novos produtos". 

Uma abordagem diferente 
André entrou na área "numa altura em que ainda não bebia vinho", com a criação de uma rede social para amantes da bebida de Baco. 

"Achei que seria interessante desenvolver uma aplicação que ajudasse os consumidores a escolher o vinho quando estão a frente de uma prateleira de supermercado. Então, decidi criar com mais duas pessoas a rede social Adegga", conta. 

Dez anos depois, a rede social é visitada por mais de 100 mil pessoas por mês. Procuram recomendações e críticas sobre o que de melhor se produz na área. 

Nos anos seguintes André e a sua equipa criaram ainda uma base de dados a nível mundial de identificação por código de cada vinho – o código AVIN (comparável ao ISBN dos livros) – e passou a organizar, desde há cinco anos, o Adegga Wine Market que reúne produtores e consumidores de vinho. 

Este sábado, das 15h00 às 22h00, no Hotel Florida, em Lisboa, há mais uma edição. O evento, no qual é possível provar e comprar os vinhos, contará com 40 produtores seleccionados. 

O copo de vinho do futuro 
Foi num destes eventos que André teve mais uma das suas ideias inovadoras: o "Smart Wine Glass" (copo de vinho inteligente). No Adegga Wine Market será possível experimentá-lo. 

"Nós apercebemo-nos de que as pessoas iam para casa e não se lembravam dos vinhos que tinham provado. Tentámos perceber como é que esse problema podia ser resolvido e uma das coisas que criámos foi um copo inteligente que tem um 'chip' electrónico que identifica a pessoa e o vinho que a pessoa está a beber. As pessoas vão passando o copo nos vários sensores que cada mesa tem e quando chegam a casa recebem um e-mail a dizer os vinhos que provaram", explica. 

A criação do "Smart Wine Glass" valeu o prémio WBIS (Wine, Business and Inovation Summit), em Munique. 

André considera uma vantagem não ter raízes na indústria do vinho. Argumenta: quem esteve sempre "ligado ao vinho tem quase um conjunto de regras porque viram as coisas a serem feitas sempre de uma determinada forma e, às vezes, não estão abertos para criar alterações ou criar coisas novas". 

De "alien" a apaixonado 
Há dez anos, André ainda nem bebia vinho e era visto como um "alien" (extraterrestre) pelos produtores mais conservadores. Agora, já não se imagina a voltar à engenharia informática. 

Justifica: "depois de uma pessoa se apaixonar por vinho é muito difícil deixar de gostar de vinho".

"Uma das coisas mais fantásticas do mundo do vinho é que quanto mais vinhos novos conhecemos mais queremos conhecer mais vinhos e regiões novas e países novos". 

Para 2015, André Ribeirinho tem planeada a "exportação" do seu evento, o Adegga Wine Market, para a Alemanha.

Desperdício de comida no campo e na fábrica dá para encher todos os caixotes do lixo do país


ANA RUTE SILVA
Um terço dos alimentos produzidos para consumo humano perde-se ou desperdiça-se em todo o mundo. Em 2013, o total desperdiçado (300 quilos por habitante, em média, de acordo com a FAO) equivalia a 30% da superfície agrícola mundial. Na Europa, entre 30 e 40% da comida perde-se até chegar ao consumidor: são 179 quilos por habitante, 42% dos quais em casa.
 
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A maçã Fuji que Joaquim Cabral Menezes segura na mão tem carepa. Uma mancha castanha que destoa no tom vermelho e lhe dá uma aparência meio tosca. "É sinónimo de doçura, torna a maçã melhor, mas não entra nos supermercados. Tal como estas", diz, enquanto aponta para uma enorme caixa cheia de maçãs com os mais variados defeitos. Pintas a mais, tamanho a menos, longe da perfeição. É uma espécie de selecção natural. Nesta central fruteira da Quinta de Vilar, em Cabril, uma pequena aldeia do concelho de Viseu, de um lado estão as frutas perfeitas, que conquistaram o direito à prateleira. Do outro as rejeitadas pela aparência.

Nem sempre foi assim. O engenheiro civil que toma conta de um negócio familiar que começou no século XIX ainda se lembra do tempo em que defeitos como a carepa não eram motivo de rejeição por parte dos clientes. Mas hoje o consumidor manda. Manda fruta e legumes perfeitos, com bom ar, viçosos, gostosos, que toca, cheira, selecciona até à exaustão na zona de frescos dos supermercados. Dos pomares da Quinta de Vilar — 40 hectares de macieiras impecavelmente alinhadas —, o grosso da produção é vendido nas cadeias de distribuição. A mais recente campanha rendeu cerca de 1200 toneladas de fruta, mas entre 20 e 30% não vão chegar, no seu estado natural, à casa dos portugueses porque, numa sociedade cada vez mais exigente com a alimentação, os olhos também comem.

"A lei descreve as condições em que a maçã deve chegar ao consumidor, diz o tipo de defeitos e distingue os calibres mínimos. E os supermercados vão além dessas exigências, seguem as melhores práticas da União Europeia", afirma Joaquim Cabral Menezes, acrescentando que as perdas no transporte das maçãs, do campo para as lojas, "são poucas". "Há mais desperdício com a devolução. Os clientes chegam a devolver paletes inteiras só porque há duas ou três maçãs que não cumprem os critérios", lamenta.

Aos 20% de fruta que não chega a casa dos consumidores, junta-se entre 1 e 2% de maçã que apodreceu no campo ou durante o curto percurso entre a árvore e a central fruteira, o local onde máquinas e homens seleccionam o produto de acordo com o seu tamanho (calibre). Sem condições para poderem ser consumidas, são consideradas lixo. Regressam ao campo para enriquecer o solo ou são utilizadas na alimentação animal.

ADRIANO MIRANDA
No extenso pomar, as árvores agora estão despidas e no chão quase não se vêem vestígios de fruta. Só uma ou outra maçã que apodreceu. Basta o vento para arrancar um fruto, diz Joaquim Menezes ao volante de um jipe, conduzindo na estrada de terra batida. Para aproveitar os tais 30% de fruta, a sociedade agrícola criou os Vilarzitos, snacks de maçã desidratada que até 2013 eram vendidos num reduzido número de lojas. Um dia, Filipe Simões comprou um desses pacotes e teve a certeza de que tinha, ali, um negócio com futuro. Um amigo que conhecia outro amigo ajudou-o a chegar aos donos do produto. E foi assim que nasceu a Frueat, detida a meias pela Quinta de Vilar e a ADD.

Os Vilarzitos foram substituídos pela Fruut e ganharam toda uma estratégia de marketing que nasceu numa altura em que as tendências da comida saudável começaram a assaltar a mente dos consumidores. Comer fruta num pacote em alternativa às batatas fritas aliciou as vendas, que cresceram de 20 mil embalagens para mais de um milhão. O aumento da procura teve um efeito: a fruta que é descartada para venda ao público já não chega para abastecer a fábrica da Fruut, instalada na quinta. Mas o problema do desperdício nos pomares ficou resolvido com esta parceria.

Na produção agrícola, o desperdício alimentar reveste-se de muitas formas. Está nas culturas deixadas no campo porque o preço é tão baixo que não compensa gastar dinheiro em apanhá-las, nos danos provocados durante a colheita, nas doenças e pragas, na dificuldade em escoar produtos ou na selecção rígida que os consumidores fazem do que querem colocar no carrinho de compras — neste caso, a indústria alimentar aproveita o que sobra, nomeadamente para fazer sumos. O Projecto de Estudo e Reflexão sobre o Desperdício Alimentar (PERDA), da autoria do Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa, calcula que no campo e no armazenamento, no sector da pecuária e nas pescas, todos os anos são desperdiçadas 332 mil toneladas de alimentos em Portugal, valor que ultrapassa o desperdício que é feito pelos próprios consumidores (324 mil toneladas de comida deitadas fora).

Somando as 77 mil toneladas perdidas na indústria que processa os alimentos, entre o campo e as fábricas, desperdiçam-se no total 409 mil toneladas por ano. Pondo as coisas em perspectiva: a comida desperdiçada daria para encher os 320 mil contentores de lixo que existem no país.

30 a 40%
da comida perde-se até chegar ao consumidor: são 179 quilos por habitante, 42% dos quais em casa dos europeus
Domingos Almeida, professor no Instituto Superior de Agronomia, que há muito investiga o sector da fruta, também tem números impressionantes. Numa recente reunião do Instituto Pós-colheita de Pomóideas, que está a tentar juntar empresas e investigadores para travar o desperdício que ocorre entre a colheita e o consumo, avançou que só em pêras e maçãs as perdas ultrapassam os 20 milhões de euros por ano. "Entre 30 e 45% das frutas e legumes produzidos e colhidos são desperdiçados na cadeia de abastecimento antes de serem cozinhados ou preparados para consumo", diz à Revista 2, acrescentando que dois terços destas perdas podem ser eliminados. E, aqui, não estão incluídos os defeitos de formato, mas sim quebras provocadas por doenças, acidentes fisiológicos, em suma, produto estragado. "O que é dramático é que uma grande proporção destas perdas pode ser reduzida com a capacitação dos operadores", lamenta, referindo-se à falta de eficiência, por exemplo, na conservação destes alimentos.

Os números globais do desperdício são, muitas vezes, colocados lado a lado com os da fome, num desequilíbrio tão gritante que leva Hélder Muteia, representante em Portugal da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), a questionar como é que se pode deitar fora comida, "fonte de vida", sem sentimentos de culpa. Um terço dos alimentos produzidos para consumo humano perde-se ou desperdiça-se em todo o mundo. Em 2013, o total desperdiçado (300 quilos por habitante, em média, de acordo com a FAO) equivalia a 30% da superfície agrícola mundial. Na Europa, entre 30 e 40% da comida perde-se até chegar ao consumidor: são 179 quilos por habitante, 42% dos quais em casa. Em Portugal, estima-se que 17% do que é produzido seja desperdiçado (um milhão de toneladas). Ao mesmo tempo, um sexto da população mundial passa fome e 870 milhões de pessoas estão em estado de subnutrição.

Ao argumento moral, Hélder Muteia junta o económico. Deitar comida fora, mesmo em casa, faz aumentar os preços. "É uma agressão contra os mais pobres porque encarece os alimentos. Se não deitamos fora e consumimos as sobras, não vamos comprar mais no dia seguinte. Usamos o que temos disponível em casa e, por isso, os alimentos mantêm-se no mercado e o preço não sobe", explica. Se, pelo contrário, desperdiçamos continuamente, temos de regressar ao supermercado, comprar mais, valorizando o produto e aumentando os preços.

Enquanto o mundo se abastece, há ainda recursos naturais (solo, energia e água) usados e esgotados "ao serviço da produção destes alimentos desperdiçados", refere o PERDA. "Nos Estados Unidos, estima-se que a produção de alimentos desperdiçados consuma 300 milhões de barris de petróleo e 25% da água potável", lê-se no documento. Comemos muito, comemos cada vez mais.

Em 2010, os investigadores Julian Parfitt, Mark Barthel e Sarah Macnaughton apontaram três motivos para o aumento do desperdício. O primeiro é a mudança de hábitos alimentares nos países emergentes, com elevada densidade populacional. Na China e na Índia, a apetência por dietas mais ocidentais fez pressão na cadeia alimentar, aumentando a exigência de comida que até então não era característica destes países (como o leite na China, por exemplo). Segue-se a urbanização e a "contracção do sector agrícola" e, por fim, a globalização do comércio. Estes fenómenos levam a "cadeias de aprovisionamento mais longas, o que gera mais oportunidades de desperdício", referem os autores, citados no relatório do PERDA. Ou seja, com a população cada vez mais concentrada nas cidades, são precisos complexos sistemas logísticos que assegurem o transporte desde o campo e, antes dessa etapa, o armazenamento. São muitas mãos a manusear alimentos.

A verdade é que é muito fácil deitar fora comida. Na horta de João Sardinha, por exemplo, as contas são sempre imprevisíveis, mas é quase certo que, no final, haverá sobras. Excesso e escassez convivem lado a lado: muitos legumes, poucos clientes. "O que se estraga na horta deve dar para alimentar quatro famílias. O problema é que não se consegue vender a quantidade que se prevê", lamenta o militar na reserva que, nos últimos quatro anos, está a vender regularmente no mercado de Beja.

João Machado, presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), aprofunda a ideia. "Quando, por exemplo, se verifica um excesso de produção num determinado ano, os preços podem baixar a ponto de não ser rentável sequer proceder à colheita ou ser preferível encaminhar o produto diariamente para a alimentação animal. Estas situações acontecem sobretudo nos produtos mais perecíveis, sem possibilidade de armazenamento", detalha. A Comissão Europeia tem mecanismos para compensar financeiramente os produtores e escoar a produção de forma a "manter as condições de mercado que permitam cumprir o ciclo de produção", recorda. Aos motivos para um produto não chegar ao mercado, juntam-se ainda factores que podem até ser alheios ao próprio agricultor, como o actual embargo russo à fruta, legumes, carne e peixe de origem europeia.

Esta medida política — a resposta de Moscovo às sanções económicas da União Europeia, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Noruega adoptadas face ao conflito na Ucrânia — está a alterar o mercado e a fazer baixar os preços, já que os produtos que eram, até Agosto, vendidos naquele mercado, inundaram outros países. O excesso de oferta leva a uma descida de preços. E isto "tende a colocar em risco a continuidade de determinadas produções e a originar situações de potencial desperdício", continua João Machado.

O presidente da CAP diz que a organização colabora com o Banco Alimentar para que os agricultores possam encaminhar fruta ou legumes para as instituições sociais. E aplaude iniciativas como a da cooperativa Fruta Feia, uma "mais-valia para os produtores em produtos que o mercado não valoriza". Maçãs como as que a Quinta de Vilar usa na indústria ou legumes disformes estão a ser vendidos a 480 clientes de Lisboa em cabazes de quatro quilos por 3,5 euros, ou de oito quilos por sete euros. Há mais duas mil pessoas à espera de vaga para poder comprar o cabaz e Isabel Soares, a mentora do projecto, tem planos para expandir a cooperativa a nível nacional. "A principal motivação era o combate ao desperdício alimentar, mas por um motivo muito específico: a aparência. Na maioria, estes produtos não eram colhidos no campo porque o produtor não ia conseguir vender. Outra solução era a indústria dos sumos, mas economicamente inviável porque não paga sequer o custo de produção", conta à Revista 2.

Isabel Soares diz que a comercialização de fruta obedece a normas, que categorizam o produto consoante a sua apresentação e qualidade, mas "nada na lei impede que se venda fruta descalibrada ou abaixo do calibre". "O que existe é uma exigência por parte dos grandes distribuidores, que só aceitam determinados calibres", sustenta. De acordo com a informação disponível do Gabinete do Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP) do Ministério da Agricultura, a União Europeia identificou dez produtos sujeitos a uma norma específica de comercialização (chegaram a ser 36), a grande maioria fruta. Todos os outros regem-se por normas gerais. Assim, há a categoria Extra, para frescos "de excelente qualidade e com apresentação especial", a categoria I, para os que têm "boa qualidade sem defeitos importantes" e a categoria II, de "qualidade razoável, embora com alguns defeitos ao nível da forma, coloração, pequenas manchas e marcas".

No caso das pêras, a norma vai ao pormenor de definir detalhes como o comprimento dos defeitos da epiderme. Se estiverem dentro da categoria Extra, por exemplo, não podem exceder quatro centímetros de comprimento "no caso dos defeitos de forma alongada". O pedúnculo deve estar intacto e a "epiderme deve estar isenta de carepa", a mesma mancha castanha que encontrámos nas maçãs da Quinta de Vilar, em Viseu. Regras que, como se lê no site do GPP, contribuem para a "lealdade do comércio e a transparência dos mercados" e eliminam "dos mercados os produtos de qualidade insatisfatória e não aptos a serem comercializados".

Mas Isabel Soares acredita que o consumidor mudou. Antes, escolhia a maçã maior e mais bonita, a exigência estética era dele. Agora, procura sabor. "Quantas vezes já não ouvimos alguém dizer que comprou umas pêras lindas mas que não sabem a nada? Esta mudança também se vê pela adesão que estamos a ter", sublinha, acrescentando que, em breve, a grande distribuição também irá atrás das novas tendências.

A exigência por produtos bonitos é do consumidor. A dinâmica concorrencial no sector é muito grande e não é só a qualidade e o preço que levam à compra, o produto também tem de ser sexy

Ana Isabel Trigo Morais
Conseguirão os agricultores vender estes produtos feios nas principais cadeias? Ana Isabel Trigo de Morais, directora-geral da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED), acredita que sim, se esse for o desejo do consumidor. Mas sublinha que o mais importante é existirem canais diversos de venda e oferecer aos clientes a maior diversidade e escolha possível. "A exigência por produtos bonitos é do consumidor. A dinâmica concorrencial no sector é muito grande e não é só a qualidade e o preço que levam à compra, o produto também tem de ser sexy. Mas vemos com muito agrado este tipo de iniciativas, porque abrangem outros consumidores, mais opções de escolha e contribuem para reduzir o desperdício alimentar e para remunerar o produtor, o que é muito importante", diz.

Questionada sobre a devolução de produtos que não cumprem os critérios contratados, Ana Trigo de Morais defende que a grande distribuição tem encontrado "medidas para caminhos alternativos para esses produtos", nomeadamente a doação a instituições sociais. "O que carecia de intervenção é a desburocratização do processo de doação de alimentos, que envolve desde guias de transporte a facturas, documentos que tornam o processo complexo e oneroso", defende.

Certo é que a Fruta Feia vem alterar as regras do jogo. Gigantes do sector hortofrutícola, como a Luís Vicente, dizem não poder vender estes produtos porque têm de cumprir as normas de comercialização. "Se a Luís Vicente quisesse ir para o mercado com estes produtos, não podia, porque todas as empresas de grande distribuição cumprem o que está acima das normas e porque os clientes finais assim o exigem", diz Manuel Évora. O administrador da empresa portuguesa que produz fruta em Portugal, Brasil e Costa Rica, emprega 200 pessoas (a que se juntam mais 150 nos picos de trabalho) e está Angola, Holanda e Espanha com estruturas logísticas e administrativas. Manuel Évora, que também é presidente da Portugal Fresh, associação que promove o sector hortifrutícola, estima que 75% das vendas de frescos se façam nas grandes cadeias de retalho. E é lá, na prateleira, que os portugueses acabam por ditar as regras, escolhendo uns e rejeitando outros.

O desperdício na Luís Vicente está identificado ao detalhe. Em dez mil toneladas de pêras, Manuel Évora estima que se percam 4 a 5% de forma natural. "Refiro-me à perda de peso e no final de uma campanha. A fruta perde água", explica. Entre 7 e 10% é rejeitada pelos clientes e é encaminhada para a indústria, nomeadamente de sumos ou compotas. "São as que têm defeitos, doenças epidérmicas ou calibres não conformes." Por fim, há ainda cerca de 1 a 2% da produção que é imprópria para consumo e vai para o lixo. Contas feitas, 15% do total não chega ao prato.

Fruta, legumes e pão são os alimentos mais desperdiçados pelas famílias, mas o estudo do PERDA, o único disponível sobre o tema em Portugal, também analisou o desperdício na produção de carne de porco e concluiu que a "eficiência da indústria é elevada": tudo o que é comestível é aproveitado. O que sobra é usado para consumo animal e a maior parte do desperdício acontece na fase final da cadeia, ou seja, em casa. Já no caso do peixe, o problema é maior.

"Portugal é altamente dependente das importações, apresentando um grau de auto-aprovisionamento que não passa dos 49%. É por este motivo que as baixas perdas da cadeia, 33 mil toneladas por ano, ganham relevância quando comparadas com o volume de pescas nacional. Apesar de as perdas serem baixas, representam quase um quarto do que efectivamente pescamos", diz o documento. A maior fatia de desperdício acontece no mar, com as devoluções de peixe, e em produtos que chegam à lota sem valor comercial e são encaminhados para a indústria das farinhas ou usados como isco.

No passo seguinte deste percurso, a transformação dos alimentos, há menos comida no lixo. A tecnologia dá uma ajuda e quase toda a matéria-prima que não é usada na produção acaba por ter um outro destino, como a alimentação animal. É mais fácil de controlar. O estudo do PERDA estima que 77 mil toneladas de comida se desperdicem nesta fase devido a danos no embalamento ou durante o próprio processo de fabrico. Contudo, para Pedro Queiroz, director-geral da Federação das Indústrias Portuguesas Agro-alimentares (FIPA), este valor é apenas "um ponto de partida para se começar a interpretar melhor a actual situação".

"Os resultados apresentados indicam que é na etapa da transformação industrial que se gera menos desperdício, o que tem certamente origem no trabalho de optimização feito pelas empresas nas suas linhas de produção. Quanto ao valor concreto, julgo que devemos ser cautelosos e procurar obter novos dados que permitam a sua confirmação ou não", comenta.

Nos últimos anos, com a crise a apertar o rendimento das famílias, a redução do desperdício também passou a estar incluída nas estratégias comerciais da indústria alimentar. É, aliás, uma das grandes tendências de 2014 identificadas pela PortugalFoods, que promove a inovação e a internacionalização do sector. Está presente não só na preocupação com a eficiência do fabrico, mas também na procura de novas técnicas que permitam aumentar os prazos de validade, ou na utilização de embalagens mais pequenas. Nas prateleiras, passaram a existir pacotes de meio quilo de açúcar ou embalagens de 50 gramas de alface já lavada, em vez dos convencionais 100 gramas. "A redução das embalagens — que implica alterações ao nível da porção — tem como objectivo fazer, não só, face à redução do poder de compra registada nos últimos anos, como também ir ao encontro das crescentes preocupações ambientais, sociais e nutricionais", diz Pedro Queiroz.

JOANA BOURGARD/ARQUIVO
Ainda assim, é da indústria alimentar que saem as "versões familiares" de produtos, pacotes gigantes que, pelo preço habitual, oferecem mais 50% de quantidade, tantas vezes deixada na despensa das famílias sem ser consumida. Até que ponto este sector é responsável pelo combate ao desperdício feito em casa?

O compromisso é de todos, responde Pedro Queiroz. "Exige responsabilidades partilhadas, troca de conhecimento e o estabelecimento de parcerias. A indústria tem um importante papel no fornecimento de informação aos consumidores, nomeadamente ao nível da conservação e confecção", sustenta.

Num primeiro passo para alargar a discussão e definir metas de redução do problema, duas dezenas de associações empresariais e entidades - que representam a produção (como a CAP, por exemplo), a distribuição (APED), as direcções gerais do consumidor, de saúde ou a FAO e a Fundação Calouste Gulbenkian, só para citar algumas - assinaram em Outubro um guia de compromisso promovido pelo Ministério da Agricultura e do Mar. A criação de um selo de reconhecimento pelas boas práticas na prevenção do desperdício alimentar é uma das medidas previstas no documento, onde se definem as regras a seguir por todos os sectores de actividade que intervêm directamente na produção, distribuição e consumo de alimentos. A adopção de incentivos fiscais "direccionados à doação de alimentos" ou uma maior flexibilização das normas de contratação pública — para que seja possível comprar mais nos mercados locais — são outras das preocupações mencionadas. A intenção é criar uma Plataforma Nacional de Conhecimento sobre o Desperdício Alimentar, já que é unânime que os dados disponíveis no PERDA estão subavaliados face à realidade.

Em Viseu, as maçãs feias entram em máquinas eficazes, que as descascam, descaroçam e laminam a uma velocidade impossível de imitar. A produção de fruta desidratada deu emprego a 23 pessoas, 17 na fábrica que está a laborar em dois turnos diários. Até final de Abril de 2015, um novo investimento vai aumentar a capacidade de produção de 1,5 milhões de embalagens para oito milhões. "Desde o início da actividade, foram aproveitadas 600 toneladas de maçã, o que equivale em termos unitários a mais de 4,2 milhões de maçãs, 90% das quais com defeitos na casca", conta Filipe Simões. A fruta com mau aspecto, descartada pelo consumidor na prateleira é, assim, comprada com outra roupagem e a custar 20 vezes mais.

Na próxima edição desta Série Especial: O desperdício no comércio alimentar

Incêndio em aviário de Tondela mata cerca de 11 mil pintos

6/12/2014, 13:39
Um incêndio num aviário no concelho de Tondela provocou a morte a cerca de 11 mil pintos, disse à agência Lusa fonte do Comando Distrital de Operações de Socorro de Viseu.


Paulo Cunha/LUSA

Um incêndio num aviário no concelho de Tondela provocou este sábado a morte a cerca de 11 mil pintos, disse à agência Lusa fonte do Comando Distrital de Operações de Socorro de Viseu.

O incêndio, cujas causas são ainda desconhecidas, eclodiu cerca das 07:00 e consumiu parcialmente o aviário situado na zona industrial de Vilar de Besteiros, adiantou a mesma fonte.

No local estiveram os bombeiros de Tondela e Campo de Besteiros, com 12 operacionais, apoiados por três viaturas, que dominaram as chamas por volta das 07:35.

Jovens agricultores com apoios majorados no próximo QCA

Ministra da Agricultura foi uma das oradoras do congresso "Política Agrícola Horizonte 2020", organizado pela Acriguarda na semana passada 


O Governo quer que jovens agricultores continuem no setor «passados cinco ou dez anos», afirmou Assunção Cristas
O Governo quer que jovens agricultores continuem no setor «passados cinco ou dez anos», afirmou Assunção CristasA ministra da Agricultura afirmou, na Guarda, que o país deve continuar a apostar na agricultura, setor que «dá os sinais mais positivos» da economia nacional.
Assunção Cristas participou no congresso "Política Agrícola Horizonte 2020", organizado pela Acriguarda - Associação de Criadores de Ruminantes do Concelho da Guarda no passado dia 26, onde afirmou que «os últimos números do ano passado dizem que a nossa produção aumentou em valor em 12 por cento, no ano anterior tinha sido de 9 por cento. É uma tendência que vem, no final de dez anos sempre a perder valor acrescentado, isso é extraordinariamente positivo». A governante destacou também que as exportações continuam a crescer e apelou à internacionalização, à continuação do investimento e à inovação «o mais possível». Perante uma plateia de cerca de 600 agricultores e dirigentes associativos, Assunção Cristas desafiou ainda os profissionais do setor a «organizarem-se e juntarem-se» para «acrescentar valor às produções».

Na Guarda, a ministra revelou também que o Governo já fechou com Bruxelas as medidas para a instalação de jovens agricultores, no âmbito do novo Programa de Desenvolvimento Rural (PDR) 2020. Para a titular da pasta da Agricultura, o Governo quer ter jovens agricultores a instalarem-se, mas sobretudo «que eles continuem no setor, passados cinco ou dez anos». Nesse sentido, no próximo quadro comunitário eles beneficiarão de «uma majoração maior do apoio ao investimento, que passará a estar na casa dos 60 por cento». À margem do congresso, várias dezenas de agricultores e dirigentes da Associação Distrital dos Agricultores da Guarda (ADAG) manifestaram-se pedindo um «regime de exceção» em termos fiscais para os pequenos produtores e para a agricultura familiar. Mário Martins, vice-presidente da ADAG, adiantou aos jornalistas que há pequenos agricultores no distrito da Guarda «desesperados com os atrasos em determinados pagamentos».

Dia Mundial do Solo


A Assembleia Geral das Nações Unidas de 20 de dezembro de 2013, aprovou a resolução n.º 68/232 que estabeleceu o dia 5 de dezembro como Dia Mundial do Solo e o ano de 2015 como Ano Internacional do Solo, tendo por base as seguintes constatações:

Os solos são fundamentais para a sustentação da vida na Terra, pois constituem a base para o desenvolvimento agrícola, para as funções dos ecossistemas essenciais e segurança alimentar;
A sustentabilidade dos solos é fundamental para enfrentar as pressões de uma população em crescimento e que o reconhecimento, defesa e apoio para a promoção gestão sustentável dos solos pode contribuir para solos saudáveis e assim para a segurança da produção de alimento a nível mundial e para os ecossistemas estáveis e sua utilização de forma sustentável;
A boa gestão das terras e dos solos têm uma importância económica e social determinante, reconhecendo-se particularmente o seu contributo para o crescimento económico, a biodiversidade, a agricultura sustentável e segurança alimentar, erradicação da pobreza, e capacitação das mulheres, o combate às alterações climáticas, melhoria da disponibilidade de água, salientando que a desertificação, a degradação dos solos e a seca são desafios de dimensão mundial, que continuam a representar sérios desafios para o desenvolvimento sustentável de todos os países, em especial os países em desenvolvimento;
A necessidade urgente, em todos os níveis, para aumentar a consciencialização e promoção da sustentabilidade dos recursos limitados de solo, utilizando a melhor informação científica disponível e tomar como base todas as dimensões do desenvolvimento sustentável;
O Dia Mundial do Solo e do Ano Internacional de Solos podem contribuir para a sensibilização para a desertificação, a degradação dos solos e a seca, de acordo com o objetivo da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação nos Países com graves Seca e / ou desertificação, particularmente em África;
Reconhecendo estas razões, proclamou, ao mesmo tempo, designar 05 de dezembro como o Dia Mundial do Solo e declarar 2015 o Ano Internacional de Solos.

Ministra do CDS quer criar nova taxa

6/12/2014, 21:37
Ministro Pires de Lima criticou "as taxas e taxinhas" mas criação de nova taxa, sobre os suplementos alimentares, está a ser preparada por ministra... do CDS.


Assunção Cristas, ex-deputada, é ministra da Agricultura
JOSE COELHO/LUSA

O Ministério da Agricultura quer criar uma nova taxa sobre a comercialização de suplementos alimentares. Segundo a proposta de decreto-lei, a que o Observador teve acesso, trata-se de uma taxa que será cobrada quando se colocar à venda pela primeira vez no mercado português um suplemento alimentar.

"Pelos atos praticados pela autoridade competente no âmbito do processo de notificação dos suplementos alimentares são cobradas taxas a fixar por portaria conjunta dos membros do Governo responsáveis pelas áreas das finanças e da agricultura, a qual define o montante específico e a atualização anual das mesmas", lê-se na proposta de decreto-lei, que já foi distribuída às entidades do setor, numa altura em que ao mesmo tempo o ministro da Economia, também do CDS, António Pires de Lima se insurgia contra as "taxas e taxinhas", a propósito do caso da autarquia de Lisboa, liderada por António Costa.

Em 2013, o Ministério da Agricultura já tinha colocado em cima da mesa esta hipótese. O projeto de portaria que circulou para consultas, nessa altura, previa a criação de taxas até aos 500 euros e foi redigida pela direção-geral de Alimentação e Veterinária.

Estas novas regras decorrem de uma diretiva comunitária, que obriga a mais controlo e segurança nas autorizações para o comércio de suplementos alimentares. Há países europeus que cobram taxas e outros, como a generalidade dos países da Europa de leste onde o processo de autorização é gratuito.

Nessa portaria, os valores a cobrar eram justificados pelos custos acrescidos com «a remuneração dos peritos cujo parecer seja necessário no âmbito de uma notificação».

O Ministério da Agricultura justificou a medida, que não chegou a entrar em vigor, com a necessidade de «envolver os operadores económicos nos custos decorrentes do controlo oficial dos géneros alimentícios» e disse que o valor das taxas foi feito depois de consultar as taxas congéneres aplicadas noutros estados membros e que esses valores «são muito variados, inferiores ou superiores aos valores em estudo».

Mais tarde, em audição no Parlamento, a ministra garantiu que o Governo não queria avançar com qualquer taxa. Dia 14 de março, declarou na Assembleia que «não está em vista criar mais nenhuma taxa», sendo seu objetivo «reduzi-las, racionalizá-las e até acabar com algumas».

Assunção Cristas, no entanto, parece ter mudado de ideias. O preâmbulo da nova proposta de decreto-lei fala na necessidade de "criar regras relativas à notificação de um suplemento alimentar, aquando da sua comercialização, definir as obrigações dos operadores económicos e fixar os encargos financeiros a suportar por estes, decorrentes da verificação de conformidade do cumprimento da lei aplicável".

Não foi possível obter comentário, até ao momento, do Ministério da Agricultura.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Ministra da Agricultura garante que nova lei acautela soluções para a Casa do Douro

"A nossa preocupação é que os viticultores sejam bem representados"
A ministra da Agricultura garantiu hoje que a nova lei acautela todas as soluções para a Casa do Douro (CD) e que a grande preocupação é "resolver o problema crónico da dívida" e que os viticultores "sejam bem representados".

"A nossa preocupação é que os viticultores sejam bem representados, tenham estruturas fortes que lhes dêem voz, que zelem pelos seus interesses e, por outro lado, resolver o problema crónico da dívida, que no fundo impedia que isto pudesse acontecer", afirmou Assunção Cristas, à margem de um simpósio, em Vila Real.

O Governo preparou um plano de resolução dos problemas da CD que inclui um acordo de dação em cumprimento, que troca dívida de 160 milhões de euros por vinho, e uma alteração legislativa que transforma o estatuto de direito público e inscrição obrigatória em associação de direito privado e de inscrição voluntária.

Para o efeito foi necessário aprovar um novo diploma na Assembleia da República e, em Outubro, foi publicado o decreto-lei que concretiza a alteração estatutária e leva à extinção da actual CD a 31 de Dezembro.

Nesse período deveriam ter sido realizadas eleições na CD ou mandatada a actual direcção, liderada por Manuel António Santos, para liderar o processo de transformação para associação de direito privado.

Mas os prazos foram ultrapassados sem que se tenham reunido no conselho regional da instituição os conselheiros suficientes para aprovar estas decisões.

Se a actual organização não fizer a passagem para associação de direito privado de forma voluntária, será aberto um concurso em Janeiro, ao qual se poderão candidatar as organizações interessadas.

Questionada sobre o processo CD, Assunção Cristas limitou-se a garantir que todas as soluções "estão previstas na lei". "Seguir-se-á aquilo que foi definido pelo parlamento e pelo decreto-lei em vigor", salientou.

"Os dois caminhos seguem-se em paralelo, o problema da dívida por um lado e o problema da Casa do Douro por outro e pela primeira vez nós temos um enquadramento legal que encontra a solução", referiu a ministra.

Assunção Cristas sublinhou que "está nas mãos dos viticultores encontrar as melhores soluções". "Da nossa parte nós fizemos o enquadramento legal e faremos a monitorização, para que a solução seja efectivamente aplicada", sustentou.

A nova organização poderá continuar a usar o nome "Casa do Douro" e fica com a sede situada na cidade de Peso da Régua, as delegações e ainda com a participação na Real Companhia Velha.

Com a extinção da CD é também extinto o quadro de pessoal da instituição.

Em Julho, dos 37 trabalhadores do quadro privado da instituição, 13 encontravam-se com salários em atraso, tendo seis suspendido o contrato de trabalho

Dos trabalhadores públicos que são colaboradores da CD, 12 aguardam reforma e 18 vão ser integrados nos serviços do Estado.

Com Lusa