domingo, 3 de dezembro de 2017

Como se faz um Vintage de 100 pontos?


Se um vinho recebe da crítica mundial 100 pontos em 100, isso quer dizer que esse vinho é perfeito, certo? Bom, a perfeição é algo subjectivo. Mas os Porto Vintage da Taylor's, da Dow's ou da Noval que nos últimos anos mereceram esta distinção estão lá perto. Porquê? A natureza do Douro dá respostas, mas os detalhes da perfeição devem-se a uma combinação imbatível entre a memória e a ciência.
MANUEL CARVALHO  1 de Dezembro de 2017, 1:52


David Guimaraens chegou ao final da vindima nas quintas da Taylor's e da Fonseca no Douro e não esconde o seu optimismo. "Este ano foi muito parecido com os de 1945 e de 1863", diz, recorrendo ao enorme manancial de memória histórica acumulada ao longo de várias gerações. A comparação não é inocente. Se a expectativa se cumprir, a vindima de 2017 dará origem a Porto Vintage condenados a tornarem-se lendários, como os de 1945 e de 1863. E se tudo correr pelo melhor, David Guimaraens (a grafia antiga do nome foi herdada do seu antepassado Manoel Pedro Guimaraens, um liberal nortenho que fugiu para Inglaterra em 1822), pode voltar a ser autor de um Vintage premiado com 100 pontos em 100 em publicações mundiais prestigiadas como a revista norte-americana Wine Spectator ou a Wine Advocat, do influente crítico norte-americano Robert Parker. Não seria a primeira vez: as duas marcas do grupo Fladgate têm, nada mais, nada menos, do que sete vintages produzidos entre 1927 e 1994 classificados com 100 pontos nas duas revistas – para lá do Scion, um Porto com mais de 150 anos envelhecido em casco.

Conseguir um vinho com 100 pontos em 100 não é apenas um prodígio em termos de perfeição: é igualmente uma façanha que muito poucas empresas ou regiões do planeta vinho conseguem obter. O que impõe uma pergunta lógica: como se consegue? A primeira resposta que a maioria dos viticultores e enólogos do vinho do Porto darão aponta para as características únicas do vale do Douro, onde o regime de chuvas é bondoso, onde o calor amadurece as uvas, onde o xisto permite que as raízes das videiras atinjam vários metros de profundidade, onde há vinhas centenárias, onde se cultivam dezenas de castas adaptadas à dureza do clima da região. Mas o sucesso do Porto Vintage ou as expectativas de um ano grandioso como o de 2017 não se justificam apenas pela natureza. Jamais haveria vinhos com 100 pontos se o Douro não fosse um lugar que acumulou séculos de um saber empírico que, nos últimos 40 anos, foi capaz de incorporar nas suas vinhas ciência, inovação, experimentação e desenvolvimento.

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No seu discurso da rentrée política este ano no Algarve, o primeiro-ministro António Costa citou o exemplo do vinho como um caso de sucesso que se explica pela sua capacidade de se abrir à ciência. Tem razão. No caso do Douro, porém, a ciência mais avançada coexiste com um esforço para recuperar práticas ancestrais. António Magalhães, engenheiro viticultor, trabalha há 25 anos nas quintas da Taylor's e admite que "o trabalho mais interessante da minha passagem pela empresa foi perceber o impacte das diferentes gerações da vinha no produto final". Nuno Magalhães, professor jubilado da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e pioneiro na aplicação da vanguarda científica no Douro depois de 1980, subscreve esta tese ao afirmar que o novo Douro tem de manter um pé no futuro e outro no passado. Não só para continuar a fazer grandes vinhos; também para "recuperar o equilíbrio que foi perdido entre a vinha e os agricultores".

Passado e presente e futuro fazem um tripé por natureza instável e incerto, ainda mais quando a base sobre a qual se sustenta se faz de botânica, de genética, de engenharia, de informática e de senso comum. Numa região que faz vinho há mais de 2000 anos, as singularidades do saber popular podem ser muito mais que caprichos. Por exemplo, o velho hábito de plantar na mesma vinha dezenas de castas diferentes (a prática nacional e internacional varia entre uma ou um pequeno conjunto de variedades) era já explicado em 1532 numa memória de Lamego com a necessidade de garantir produções estáveis; a alta densidade de plantas nos socalcos tradicionais ia muito para lá das preocupações com a quantidade. O suposto empirismo da velha viticultura não era tão empírico assim. A casta mais importante do Douro, a Touriga Franca (ou Francesa) resulta de um cruzamento entre a Touriga Nacional e a Mourisco feito na região; a Tinta da Barca foi "inventada" por um viticultor da zona do Pinhão há mais de 100 anos. "Nós lemos pouco as memórias dos séculos XVIII e XIX. Muitas vezes andámos a descobrir a roda", costuma dizer António Magalhães.

O sistema de saberes antigos foi posto em causa quando Portugal beneficiou de um empréstimo do Banco Mundial para renovar e mecanizar as vinhas do Douro. Com essa mudança, o perfil da vinha e do vinho sofreu um abalo. Estávamos na década de 1980 e o vale assistiu a uma pequena revolução que mudou a face de 2500 hectares das suas vinhas. Em vez de uma multidão de castas, as novas vinhas foram plantadas com cinco variedades estudadas, entre outros, pelo recentemente chegado da Universidade de Montpellier João Nicolau de Almeida. Os muros de pedra desapareceram e em seu lugar nasceram os patamares ou as vinhas plantadas ao alto, que contrariavam as curvas de nível. Se nas vinhas antigas se plantavam entre 5500 e 6000 videiras por hectare, nos patamares cabiam apenas 2500 ou 2700. O modelo pensado para calcular a produção através de uma vinha alterou-se para o cálculo das produções de cada planta. Os porta-enxertos tradicionais foram trocados pelo "cibernético" R99, um híbrido talhado para chegar a esse fim. As podas mudaram e muitas castas ancestrais foram consideradas menores.

A busca pela modernidade provocou uma "mutação na viticultura tradicional", diz Nuno Magalhães. Foi "um salto sem rede" porque desconhecia-se o "impacte que as novidades iriam ter na vinha e no vinho", acrescenta. A abertura à ciência foi fundamental para minar vícios do arcaísmo, mas menorizara o saber tradicional. Hoje, acontece o contrário: a ciência tenta coexistir com o saber tradicional. O Douro contemporâneo que obteve em 2007 mais duas classificações com 100 pontos (as marcas Dow's e Noval Nacional) e que em 2011 regressou ao cúmulo do juízo dos críticos da Wine Spectator (com o Noval Nacional, de novo, mas também com o Dow's, eleito como o melhor vinho do mundo desse ano) é já o resultado desse esforço de equilíbrio. Hoje, como nunca, o Douro é um campo aberto à experimentação sustentada nos saberes antigos. A ciência, pode comprar-se; os saberes antigos não. Nem a natureza. Os grandes vintages são por isso a expressão de mundo exclusivo que é o Douro português.

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A quinta do Junco, uma majestosa propriedade pouco acima do Pinhão, é um bom lugar para se dar conta desse reencontro com a memória. Os vinhos ali produzidos fazem parte do lote final dos Taylor's clássicos, que juntamente com os Fonseca, os Dow's, Graham's e Noval são os mais procurados pelos apreciadores e coleccionadores de todo o mundo. Dos seus 82 hectares, 41 são plantados com vinha e desta área há 11 hectares de socalcos são anteriores à devastação da filoxera (um insecto) no final do século XIX. Aí, a dupla David Guimaraens/António Magalhães cuidam de cada videira centenária como se cada videira tivesse um nome próprio. Os muros históricos foram reconstruídos e no meio da biodiversidade da vinha há castas que são certezas e outras que ainda pairam no limbo da dúvida. Magalhães pegou em varas de duas variedades quase ignoradas, a Casculho e a Cornifesto, plantou-as em microblocos e aguarda que o tempo lhe dê respostas sobre o seu potencial real. Em outros casos, as castas foram preservadas apenas por zelo. "Há uma que nos intriga e só preservamos por dever: a Tinta Malandra", justifica o viticultor.

Se a Taylor's estuda estas castas antigas é por uma razão evidente: a criação de um Vintage de classe mundial é tão exigente que um pequeno aroma, um toque especial de tanino, ou um rasgo de acidez podem fazer toda a diferença. Na procura de um vinho quintessencial, no limiar da perfeição, com fruta, volume, estrutura, garra e potencial para resistir a décadas na garrafa, os detalhes contam. Manter as vinhas tradicionais, as castas tradicionais, com densidades de plantação tradicionais é fundamental para essa missão. Desde que as vinhas possam ser mecanizadas para aliviar a "penosidade do trabalho manual", que as castas resultem de apurados processos de selecção clonal, que sejam tratadas com rigor científico para evitar a propagação de pragas, ou que a densidade não implique o recurso a produtos químicos para combater ervas ou infestantes.

Na Quinta do Noval, na estrada entre o Pinhão e Favaios, a procura dos grandes vintages na vinha parece mais simples. Perto da casa da quinta há um tesouro único que justifica não só os 100 pontos que vários vintages da casa conquistaram como a distinção conferida ao se Vintage de 1931, considerado pela Wine Spectator como o terceiro melhor vinho do mundo do século XX – a tentativa de escolher vinhos assim é arriscada, como é óbvio. Numa área de 1,7 hectares está plantada a vinha que faz o Noval Nacional. Aí, as suas seis mil videiras são plantadas no regime de "pé franco" – ou seja, sem os porta-enxertos americanos que se usam desde o final do século XIX para combater a filoxera. Zelar por esse jardim é uma das principais obras do enólogo António Agrellos: "Não mexemos em nada. Quando uma planta morre, vamos ao viveiro que temos ao lado e substituímo-la", diz.  

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Uns 70 ou 80 quilómetros em direcção a Espanha, o grupo Symington segue os passos da ciência num campo experimental da sua Quinta do Ataíde, no vale da Vilariça. Nesse terreno, estão plantadas 53 castas destinadas a servir de balão de ensaio à equipa liderada pelo viticultor Fernando Alves. "Queremos conhecer melhor o seu ciclo vegetativo, o seu mecanismo fisiológico e a sua adaptação às mudanças climáticas", diz Fernando Alves. Depois, os ensaios permitirão ainda verificar a "simbiose" entre as castas e diferentes porta-enxertos. O campo de Ataíde tem uma réplica no Pinhão apenas com castas do Douro, o que permitirá estudar o comportamento de cada variedade em ecossistemas distintos. É afinal a continuidade de um campo montado na Quinta da Lêda, da Sogrape, nos anos de 1980 pelos académicos Antero Martins e Nuno Magalhães. Os 197 clones aí trabalhados foram adoptados pela maioria dos produtores nacionais e estão na origem da revolução da viticultura que se seguiu. "Introduzimos aí modelos de genética quantitativa, que ainda hoje é uma inovação a nível mundial", diz Nuno Magalhães.

Todas as grandes empresas mantêm nos dias de hoje uma relação de enorme proximidade com a vinha – o que não acontecia outrora. "Uma grande parte das empresas acolheu laboratórios de experimentação", confirma o professor da UTAD. Conhecer as videiras é o primeiro passo para se conhecer o vinho. No grupo Taylor's, por exemplo, sabia-se na Primavera do ano passado que as suas vinhas albergam 1.2 milhões de videiras, das quais 270.608 tinham mais de 70 anos ou que 338.745 tinham menos de 15 anos. No grupo Symington, por altura do "pintor" (quando a cor escura chega aos bagos das castas tintas), são produzidas imagens aéreas com infravermelhos nos 1050 hectares geridos pelo grupo, "uma espécie de TAC que nos permite avaliar a saúde interna das folhas e o vigor das plantas", diz Fernando Alves. Cada imagem encaixa-se depois num sistema de georreferenciação, o que permite à equipa de viticultura tratar pequenas zonas onde haja problemas de nutrição ou doenças nas videiras. No Noval, a dimensão da tarefa é menor, mas "é normal que em véspera da vindima andemos pela vinha fora a ver as videiras uma a uma e a decidir quais são os cachos que ficam fora do lote final", diz António Agrellos.

Todo este conhecimento é fundamental também para determinar com precisão a data da colheita. Decidir o dia em que se apanham as uvas no perfeito estado de maturação é uma tarefa ciclópica para empresas que, como a Sogrape ou os Symington têm várias propriedades ao longo das encostas do Douro. Muitas vezes, na mesma propriedade tem de haver datas de vindima diferentes, porque as parcelas junto ao rio amadurecem mais cedo em virtude de "a temperatura média mais alta e de índices de precipitação mais baixos", diz António Magalhães. Na Quinta do Junco, comprada pela Taylor´s em 1998, o desnível varia entre os 200 metros e os 480 metros, o que pode fazer toda a diferença. E para tornar o exercício da previsão rigorosa do momento da colheita ainda mais labiríntico, acrescente-se que o ciclo das videiras nas zonas do Baixo Corgo, junto à Régua, é muito diferente do que se regista nas zonas semiáridas do Douro Superior, junto a Foz Côa.

Quando as equipas de enologia e de viticultura marcam as datas da vindima, em tese já sabem para onde vão as uvas da zona A da vinha B. Há décadas que as grandes empresas e enólogos experimentados como David Guimaraens, Dirk Niepoort, Luis Sottomayor (da Ferreira), Charles Symington ou António Agrellos conhecem o potencial de cada "terroir" sob a sua gestão. Cada lote de cada vinho é vindimado separadamente, enviado para os vários centros de vinificação que as empresas têm espalhados pelo Douro, e trabalhados no lagar. Fazer um vinho do Porto de classe superior exige uma atenção especial para se conseguir extrair das uvas o máximo da cor, dos aromas de fruta e também dos taninos, a base estrutural do vinho que há-de garantir a sua consistência e longevidade. Para esse efeito, a pisa das uvas é crucial. Em algumas adegas, as empresas instalaram robots que fazem a pisa mecânica; mas para os lotes superiores, todo este trabalho continua a ser feito pela pisa humana, mais cara mas que garante a melhor extracção dos componentes essenciais para o vinho.

Depois de o mosto começar a fermentar, acontece o momento mágico do vinho do Porto: a adição de lotes de aguardente vínica que trava a transformação do açúcar natural em álcool e conserva o carácter doce e frutado dos grandes Porto. No processo produtivo destes vinhos, esta, como todas as etapas da vinificação, é razoavelmente simples de fazer e os enólogos fazem-no de uma forma mecânica. O mais importante para eles vem a seguir. Quando, depois de um repouso de alguns meses nas adegas, os diferentes lotes de vinho novo começarem a ser estudados e combinados até se apurar a fórmula final que no prazo mínimo de três anos vai chegar às mesas dos consumidores. É nesse momento de criação que os enólogos vestem a pele de alquimistas, definindo uma base para o vinho, procurando detalhes que o engrandeçam, acrescentando pormenores que sejam capazes de criar uma identidade – um estilo, como se diz no sector – para cada uma das marcas.

Neste capítulo, António Agrellos é um homem feliz. O melhor do Douro, incluindo a sua enorme diversidade, encontra-se no Noval. À sua mão estão vinhos mais maduros que vêm das vinhas junto às margens do rio Pinhão, há vinhos mais frescos das zonas altas, há vinhos com singularidades resultantes de uma maior ou menor exposição a poente. E há também a vinha onde nasce o Noval Nacional, o vinho que de alguma forma pode ser considerado como o ex-libris dos vintages contemporâneos. As condições dessa vinha plantada em 1924, de onde saem no máximo 3000 garrafas por cada vindima, permitem que todos os ingredientes dos grandes Vintage estejam presentes. Numa prova recente de Vintage de 1963 com todas as grandes marcas de vinho do Porto, o Nacional destacava-se pela sua potência e pela sua singela juventude.

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Escolher lotes finais também não é grande problema para Charles Symington ou para David Guimarães. Na maior parte dos anos, eles limitam-se a refinar uma fórmula que herdaram dos seus pais. Por exemplo, sabe-se que os vinhos da Quinta da Ribeira são a base dos Vintage da Dow's, por definição mais austeros, poderosos e estruturados. Ou que Vargellas é o solar dos grandes Taylor's. Sabe-se também que as vinhas velhas garantem "complexidade, personalidade e individualidade", enquanto as vinhas modernas, plantadas depois de 1980, garantem "intensidade de fruta e de cor". Quando partirem para a criação dos lotes finais da vindima de 2017, os enólogos sabem ainda pelas suas notas de vindima (ou pela memória) que uma vinha produziu uma paleta de aromas, que outra acrescentou um toque de fruta especial, que uma terceira adicionou uma acidez fina que também ajuda ao envelhecimento.

Quando David Guimaraens acompanhava a recta final das vindimas na Quinta da Terra Feita, em meados de Setembro, cada um dos lagares vinificados e entretanto metidos em cascos ou em cubas de inox tinha já um bilhete de identidade atribuído. No mundo estratificado das vinhas e dos vinhos que produz, Vargellas, com os seus 11 hectares de vinhas muito velhas, em alguns casos com 110 anos, tem um lugar especial – até porque dão origem a um produto próprio da casa, o Vargellas Vinha Velha. Esta vinha belíssima instalada no dorso da montanha já no Douro Superior, produz vinhos com uma forte componente floral que explicam a elegância e a graça dos Vintage da Taylor´s. Mas a esta componente, David sabe que tem de acrescentar vinhos de Terra Feita, uma propriedade junto ao Pinhão, que acrescentam ao produto final estrutura, músculo e profundidade.

Saber se 2017 vai ser um grande ano Vintage é para já um pequeno mistério. A forma como o ano decorreu, a condição dos mostos no lagar e, principalmente, a memória, dizem que sim. Saber se 2017 vai ser um ano extraordinário como 1863, 1894, 1912, 1931, 1945, 1963, 1977 ou 2011 é ainda um mistério insondável. Tudo depende da forma como os vinhos evoluírem e permitirem aos enólogos a aplicação das suas artes de alquimistas. Aconteça o que acontecer, quando os Vintage deste ano chegarem ao mercado (os preços variam, mas as edições recentes apontam sempre para valores acima dos 60 euros por garrafa) o que estará á disposição dos apreciadores será muito mais do que um vinho. Os grandes Vintage são uma poderosa síntese de um país antigo que persiste em usar memórias e saberes tradicionais, mas que os adapta com uma abertura à ciência que aplica a genética na selecção clonal, os laser no desenho das vinhas, a robótica nos lagares, a georreferenciação no tratamento das videiras ou a microbiologia no estudo dos mostos. Por muito que tenha uma data recente, um Vintage de 100 pontos acaba sempre por ser também uma distinção das gerações que, por intuição ou senso comum, fizeram o Douro que hoje existe.

Outono deste ano foi o mais seco desde 1971

Valor médio da temperatura do ar durante o mês de Novembro é o mais alto desde que há registos.
PÚBLICO e LUSA 1 de Dezembro de 2017, 13:48 Partilhar notícia


O Outono deste ano foi o mais seco desde 1971 e o segundo mais seco desde que estas medições começaram a ser feitas, há 86 anos. Segundo os registos do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), o valor médio da temperatura do ar durante o mês de Novembro foi o mais alto desde 1931.

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"O Outono de 2017 (Setembro, Outubro, Novembro) em Portugal continental foi quente e extremamente seco", lê-se na nota do IPMA, que sublinha a forte diminuição da chuva este ano: "O défice de precipitação agravou-se nos últimos meses, sendo Novembro o 8.º mês consecutivo com valores de precipitação inferiores ao normal."

Esses oito meses, entre Abril e Novembro deste ano, foram os mais secos desde que há registos, com cerca de 30% do valor normal de precipitação. "A actual situação de seca, no final de Novembro, em comparação com situações anteriores, é a que apresenta maior percentagem de território nas classes de seca severa e extrema (97% do território)", diz o IPMA.

Ainda assim, no final de Novembro "verificou-se um aumento da percentagem de água no solo, em particular nas regiões do litoral Norte e Centro", com valores acima dos 40% — mas em alguns locais do interior Norte e Centro, e também no Sul, "os valores de água no solo são ainda inferiores a 20%". No final de Novembro, 3% do território de Portugal continental estava em seca moderada; 46% em seca severa; e 51% em seca extrema.

Também em relação a Novembro, a temperatura média em Portugal continental foi "cerca de 0,5% superior ao normal", com uma maior variação na amplitude — a máxima foi a quinta mais alta desde 1931 e a mínima foi a quinta mais baixa dos últimos 17 anos.

Câmaras combatem desperdício
Entretanto, a agência Lusa reuniu as medidas anunciadas publicamente e respostas enviadas por câmaras municipais, abrangendo um total de 103 dos 278 municípios do continente português. De entre as dezenas de autarquias que responderam às questões colocadas, poucas são as que não iniciaram medidas especiais de contenção e de combate ao desperdício de água.

As medidas comuns à generalidade destes municípios são a diminuição da frequência das regas em jardins e canteiros, o encerramento de fontanários, repuxos e espelhos de água ornamentais que não funcionam em circuito fechado, a redução das lavagens de arruamentos e a racionalização do uso de água nos equipamentos municipais.

Estas eram medidas propostas num relatório de 30 de Outubro do grupo de trabalho de apoio à Comissão Permanente de Prevenção, Monitorização e Acompanhamento dos Efeitos da Seca, criada pelo Governo.

Além destas medidas gerais, quase todos os municípios iniciaram campanhas de sensibilização para que as populações estejam mais atentas a rupturas e poupem água — nomeadamente com banhos mais curtos e evitando usar águas da rede em regas ou lavagem de carros.

A maioria das autarquias recorreu também a origens alternativas de águas, como poços e furos, para a agricultura e pecuária. Algumas autarquias instalaram ainda sistemas de telemetria inteligente para detectar fugas de água e reduzir as perdas e redutores de caudal.

Poluição no Tejo? “ninguém tem coragem para enfrentar o poder das celuloses”


Jornal Económico com Lusa
Ontem 20:07

A deputada do BE Mariana Mortágua aponta o dedo ao PSD e ao Ministério do Ambiente.


A deputada do BE Mariana Mortágua considerou hoje, em Abrantes, que "o combate à poluição no rio Tejo não se faz porque ninguém tem coragem para enfrentar as indústrias de celulose", dirigindo críticas ao PSD e ao Ministério do Ambiente.

"Estamos hoje aqui para prestar contas sobre o esforço e a luta do BE no combate a esta chaga da poluição que se faz muito sentir nesta zona do rio Tejo", disse Mariana Mortágua à agência Lusa, criticando o PSD, que age nesta matéria "conforme os ventos", e o ministro do Ambiente, ao considerar que o "combate à poluição não se faz porque ninguém tem coragem para enfrentar o poder das indústrias de celulose e das grandes empresas", a nível local e nacional.

Em declarações no âmbito da sessão pública "Contra a Poluição no Tejo – Por uma consciência ambiental", que hoje decorreu no Parque Tejo, em Rossio ao Sul do Tejo, no distrito de Santarém, Mariana Mortágua criticou o deputado do PSD Duarte Marques, eleito por Santarém, referindo ser "muito fácil agitar um papel e dizer que quer mais dinheiro para fiscalização, quando foi o PSD que votou contra a imposição à Celtejo da redução dos níveis de poluição para valores decentes. O mais difícil é chegar aqui e enfrentar as grandes empresas".

O deputado bloquista Carlos Matias, por seu turno, referiu que Celtejo, empresa de celulose instalada em Vila Velha de Rodão, "tem uma licença especial para que possa poluir acima daquilo que o Tejo comporta, produzindo mais do que a capacidade instalada para tratar dos efluentes que lança no rio".

Para Marina Mortágua, "tudo isso define a coragem, o timbre e a ideologia de cada partido", tendo assegurado, perante cerca de uma centena de pessoas, entre pescadores, autarcas, ambientalistas e populares, que o BE vai manter uma "guerra sem quartel e sem medos de enfrentar os grandes interesses económicos" para a defesa do Tejo.

Na sessão de hoje intervieram também Joana Pascoal, deputada na Assembleia Municipal de Abrantes, e o vereador Armindo Silveira, ambos eleitos pelo BE.

O deputado Carlos Matias aproveitou para lembrar que o BE vai levar novamente a debate no parlamento o Projeto de Resolução para a redução de produção na Celtejo, na terça-feira.

"A cumplicidade com a poluição está nesta licença passada à Celtejo, e é uma licença que tem de ser alterada, e esperemos que o PSD vote agora favoravelmente", afirmou.

Terras de regadio onde já foram lançadas sementes de sequeiro



José Palha trocou as culturas intensivas de milho por sementes menos exigentes em termos de água  |  LUÍS BRANCO/GLOBAL IMAGENS
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Agricultura foi obrigada a mudar o rumo às culturas. Na Herdade da Bencoca, onde o regadio foi pioneiro, optou-se por lançar sementes de trigo em vez do milho, que exige mais água

Entre os extensos 220 hectares de terras de barros com generosas produtividades, o milho e o girassol já foram reis anos a fio na Herdade da Mencoca, nos campos que circundam Montoito (Redondo), desde que a barragem da Vigia passou a dar luz verde às campanhas de primavera/verão. Foi por aqui que se instalaram dos primeiros pivôs de rega no Alentejo, no início da década de 80 do século passado, abrindo portas a densas manchas de milheirais a perder de vista.

Mas este ano José Palha travou a rega a fundo. A seca obrigou o agricultor a mudar o rumo às culturas. Em vez de esperar pela próxima campanha de rega, já há duas semanas lançou à terra sementes de sequeiro. Há trigo duro e trigo mole distribuídos ao longo de 90 hectares, que deverão estar no ponto lá para junho para serem colhidos.

"Semeámos à espera que chovesse, mas não choveu nada", lamenta resignado, enquanto se põe de cócoras para pegar num torrão de terra seca que se desfaz assim que fecha a mão. "Como isto está agora", desabafa, esclarecendo que estas terras terão sempre torrões, mesmo depois de lavradas, embora o mais importante é que haja "uma boa cama de sementes", justifica, reparando como um grão desenterrado na zona mais periférica da sementeira dá sinais de germinação. "Já viu o que é a natureza? Espantoso. Mesmo sem água está a crescer por efeito da humidade da noite", diz, avançando pelo trilho até chegar ao pivô que poderá entrar ao serviço por estes dias se a chuva teimar em não cair por aqui.

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Apesar de a Vigia estar a 10% da sua capacidade de armazenamento, sendo já reforçada por 200 metros cúbicos de água por hora a partir da barragem de Alqueva, acredita que a associação de beneficiários irá libertar os recursos hídricos que precisa para a sua propriedade.

Alega estar a viver uma situação de exceção, pelo que ao ter deixado de parte as culturas intensivas de milho, precisa que também o sequeiro entre nas contas de quem gere a rega por estas paragens.

"Estou a fazer culturas menos exigentes em recursos e hoje não faz sentido não dar água ao sequeiro para a tentar guardar para o regadio de primavera/verão. Se a seca continuar, nessa altura, pode não haver recursos hídricos para regar as culturas e hoje estaria a penalizar-se quem está a pensar mais à frente", alega o produtor, acrescentando que há contas relevantes neste processo, na medida em que a rega dos cereais deverá contribuir para duplicar a produção a colher lá para junho de 2018.

Aliás, José Palha tem as contas de cabeça. Um hectare de milho custa 2 mil euros ao produtor e gasta mais de 7 mil metros cúbicos de água por campanha. Pode dar umas 15 toneladas, hoje a preços de 160 euros, depois de em 2012 ter chegado aos 230/250. "Os custos estão altíssimos e a rentabilidade é baixa", constata o produtor, avançando que os cereais de outono/inverno, como trigo duro ou mole para massas alimentícias - os mais rentáveis - poderão chegar às duas toneladas e meia, subindo até às cinco com rega. Garantem um preço de 200 euros por cada mil quilos, gastando entre mil a 1500 metros cúbicos de água por hectare.

"Num ano como este os cereais voltam a ser uma boa opção, até perante a queda do milho nos mercados", diz, admitindo que em terras banhadas pela albufeira de Alqueva, onde há limitações à rega, ou no Ribatejo "se continue fazer milho como sempre". Até porque a silagem de milho nunca será dispensada das muitas vacarias de leite, para alimentar os bovinos, tendo de ser feita em zonas com garantias totais de água, ao contrário do girassol, outro grande consumidor de recursos hídricos.

Ou seja, explica, "se o girassol for regado com metade da água pode apenas baixar a produção, mas o milho perde-se mesmo e morre, se não tiver a água necessária", diz, o que ajudou a justificar a decisão da família este ano. E se um dia faltar milho em Portugal? José Palha diz que a hipótese é quase nula, mas que, ainda assim, a solução passaria sempre pela importação a partir de Espanha, ressalvando que a silagem de milho nunca será um produto que possa ser comprado na Ucrânia, Brasil ou Estados Unidos devido ao elevado custo do transporte.

A dúvida que assalta José Palha nos dias de hoje passa pela sementeira que se segue entre os cerca de cem hectares ainda disponíveis. "Se virmos que o inverno vai ser seco, vamos para a cevada até fevereiro", diz, admitindo que a maior certeza aponta à aposta nos cereais mediante as dúvidas em torno da capacidade da albufeira da Vigia em poder regar na próxima primavera .

Daí que apostado em semear já o trigo eliminando o risco de ficar "muito condicionado", já que dentro de umas semanas só lhes restava a possibilidade de fazer cevada, explica, garantindo que estas terras são facilmente adaptáveis às culturas de outono/inverno. Isto apesar do histórico de regadios que aqui entrou pelas mãos de José Ervideira, o avô de José Palha, há cerca de 40 anos, tendo sido um dos pioneiros do regadio no Alentejo à boleia da construção da barragem da Vigia, logo após o período do 25 de abril.

"Aqueles oito pivôs foram uma revolução na agricultura regional e fomos os primeiros a produzir milho que viria a ser uma tradição de família", relata, para assumir que, mesmo assim, não precisou de pensar muito nos últimos tempos para mudar a agulha da produção à medida que a falta se foi avolumando nos últimos três anos.

"O nosso clima mediterrânico está vez mais parecido com África e há que tomar medidas sérias", reconhece o produtor, para quem só os regadios privados vão conseguir dar de beber às culturas mais exigentes em água que não são abrangidas pelo perímetro de rega de Alqueva.

Derrubar velhos preconceitos

A atual realidade agrícola "empurrada" pela seca está a deitar por terra um velho preconceito que vinha conotando a produção de cereais com uma atividade ultrapassada pela falta de tecnologia. "Há o conceito de que quem só faz cereais é quem não sabe fazer mais nada, quando de facto é uma cultura exigente com aspetos interessantes no mercado", diz José Palha, para quem a sua aposta na mudança de culturas é um dos exemplos do que começa a ser uma prática entre alguns produtores alentejanos como resposta à falta de chuva.

A própria Associação Nacional de Produtores de Cereais a iniciar a segunda edição do curso de formação técnica em cereais, onde o tema da adaptação à falta de chuva tem estado em foco, numa parceria com Instituto Nacional de Investigação Agrícola, Estação de Melhoramento de Plantas de Elvas e Instituto Politécnico de Beja, com o reforço de investigadores franceses.

E se no ano passado houve 25 formandos inscritos, este ano já são 30, tendo o curso o objetivo de adequar o itinerário técnico com o potencial económico da cultura de sequeiro ou de regadio.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Eduardo Oliveira e Sousa: "Já estamos a viver uma verdadeira catástrofe"


02 DE DEZEMBRO DE 2017 - 00:00

O presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal quer mais projetos como o do Alqueva no país e mais rapidez no apoio a agricultores afetados por incêndios e pela seca.

Eduardo Oliveira e Sousa: "Já estamos a viver uma verdadeira catástrofe"

Engenheiro agrónomo, empresário agrícola e de florestas no Ribatejo, Eduardo Oliveira e Sousa foi técnico superior no Ministério da Agricultura durante mais de três décadas. Desempenhou funções em múltiplas organizações ligadas à agricultura e à floresta e este ano tornou-se líder da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP).

Já é possível quantificar os prejuízos da seca e dos incêndios para os agricultores?
Em termos de quantificação, não será possível sequer ter um valor objetivo de milhões ou centenas de milhões diretamente relacionados com a seca. Neste momento, sabemos que a média generalizada de prejuízo dos cereais de inverno da época passada que, de uma maneira geral, são de sequeiro, tiveram, a nível do país, uma perda de 25% a 30%. Mas houve regiões em que essas perdas chegaram aos 100%. A seca que estamos ainda a viver tem origens em 2016 e 2017, logo muito cedo começou a mostrar que não ia ser bom. Acabou por ser catastrófico, acho que já estamos a viver uma verdadeira catástrofe com a seca com consequências que neste momento ainda não são mensuráveis.

As ajudas disponibilizadas que se conhecem são adequadas?
Tomei posse do cargo que ocupo em meados de abril e nessa altura fizemos um apelo às instituições nacionais e comunitárias, mas principalmente ao ministro da Agricultura, para serem estabelecidas medidas de apoio para combater a seca. Foram-me dadas aquelas indicações muito típicas dos portugueses: "Talvez não seja preciso, se calhar ainda vai chover, a primavera ainda está a começar." As primeiras ajudas objetivas começaram a surgir em julho, quando já havia agricultores com a corda na garganta, muitos animais a precisarem de ser ajudados e havia medidas que poderiam ter sido tomadas logo em maio.

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Pecam por tardias? 
Pecam por tardias. Depois vieram medidas que estão associadas a uma burocracia que não liberta as ajudas. Para ter uma ideia: dificuldades de abeberamento dos animais é um problema gravíssimo, porque um animal sem comer sobrevive dois a cinco dias, mas sem beber as coisas são diferentes. As medidas para encontrar soluções começaram no final de julho e as que estão consubstanciadas em valores ainda não chegaram aos agricultores; zero de candidaturas aprovadas de medidas estabelecidas em julho, em agosto e em setembro. Algumas, poucas, estarão já decididas favoravelmente e o que é facto é que as pessoas não tiveram acesso a essas verbas.

Presidente da CAP diz que ajudas aos agricultores são tardias
Os agricultores atingidos pela seca deveriam ter as mesmas ajuda dos atingidos por incêndios? 
São duas coisas distintas. Os incêndios têm duas vertentes: uma de tragédia social, houve mortos e perdas absolutas. O incêndio de outubro pode ter sido ainda mais intensamente devastador do que o de junho, porque apanhou o ciclo final de uma seca que já era prolongada. Depois houve aquele fenómeno do furacão Ophelia. As medidas para essas pessoas têm obviamente de ser diferentes. Tenho defendido que para além das ajudas associadas à reposição da capacidade produzida, deveria haver ajudas indemnizatórias para que as pessoas não abandonem o território. O pior que pode acontecer é o território entrar num processo de desertificação acelerado, porque dá sempre origem a mais incêndios. As ajudas da seca, desde a agricultura, a pecuária e as reservas de água para efeitos futuros são outros assuntos que deveriam ter uma comissão permanente que, embora exista, é muito repleta de institucionalidade, com muitos organismos e não há um gabinete de crise. Precisávamos de um sítio de fácil acesso para resolver, quase que na hora, medidas de apoio, quer aos agricultores que estão abrangidos pela seca quer aos agricultores e proprietários abrangidos pelos incêndios.

Só as culturas de regadio não foram tão afetadas. É justo que o preço da água suba? 
Não é bem verdade, foram mas não tanto. Nos sítios onde houve possibilidade de completar o ciclo cultural, as perdas associadas têm mais que ver com as características atípicas do ano: temperaturas elevadas que podem dar origem a menor qualidade; algum stress noutras culturas que podem dar fruta de menor dimensão, chapadas pelo sol... A preocupação vem a seguir, porque as reservas foram esgotadas.

Os agricultores estão a fazer dezenas de quilómetros para o transporte de água para animais. A rede de abastecimento de água para fins agrícolas devia ser equacionada? 
Com certeza que sim, mas essa rede de abastecimento de água é de abastecimento às culturas. O governo aprovou alguns milhões de euros agora para reforçar o crescimento de regadio do Alqueva e outros que estão projetados de novo e outros para serem melhorados.

Concorda com o plano do governo de avançar com o plano nacional de regadios?
Não só concordo, como gostaria que fosse mais ambicioso, em dois sentidos: na criação de programas, como já houve em tempo, de ajuda aos pequenos regadios, que são uma forma de incentivar os agricultores a desenvolver projetos que possam beneficiá-los isoladamente ou em grupo, e também novos projetos de grandes áreas de regadio. O exemplo de Alqueva é paradigmático, veio demonstrar a utilidade de uma reserva estratégica de água e aquele modelo terá de ser replicado noutras regiões do país. Serve para a agricultura, serve para abastecimento de populações e serve para desenvolvimento industrial, além da produção de energia elétrica. O país tem de se debruçar de uma forma muito séria sobre a forma de armazenar mais água no interior do país, em particular.

Faltam grandes investimentos em mais barragens? Lembro-me da do Alvito, na região do Zêzere... é desse tipo de barragens que estamos a falar e que não tendo a dimensão do Alqueva, podem minorar a situação?
Exatamente. O Alvito vem ajudar à gestão da água no Tejo, um rio internacional, submetido ao acordo para passagem do caudal. Mas por exemplo, Espanha está habituada a caudais semanais e nós queremos que passem a diários. Se cumprirem a obrigação que têm no fim de semana, fica depois toda a semana com pouca água a correr no Tejo.

Esta relação com Espanha é sempre um ponto de tensão e vai agudizar-se com a seca...
Pode agudizar-se, porque a seca é tão grave aqui como é em Espanha. Os espanhóis têm um plano muito mais desenvolvido, muito maior capacidade de retenção de água e um programa muito complexo e vasto de transvases. Em Portugal não temos essa complexidade, nem essa extensão, e estamos a jusante. Mas eles também estão neste momento com impossibilidade de fazer essa gestão da água, simplesmente não existe. A nascente do Douro voltou a brotar, mas é horroroso olhar para a sequidão toda no Tejo. Seguramente que estamos num ciclo de menos quantidade de chuva e de chuva que, quando chega, chega de forma diferente. Por isso é que as reservas são importantes. Se a chuva vem com maior intensidade, temos de ter maior capacidade de a reter. Não podemos retê-la toda e também há que ter em atenção que as reservas subterrâneas poderão entrar em alguma... falência, não são fontes inesgotáveis.

Falando de barragens, que grandes investimentos é que são necessários? Isso, de alguma forma, foi quantificado pela CAP?
O processo é contínuo, não podemos dizer "temos aqui dez novas barragens e o problema fica resolvido". Sabemos que são necessárias mais barragens e empreendimentos de maior dimensão. Falamos do Alvito, podemos falar do Pisão, que também é na zona do Alto Alentejo, que também vai beneficiar uma região de bons solos onde a agricultura pode fazer bons produtos. Nada se faz hoje, em termos empresariais, se não tiver dimensão e acesso à água. A zona do interior do país mais a norte; Castelo Branco, Bragança, Mirandela, regadios de região de Trás-os-Montes. O Oeste é uma região de enorme intensificação cultural nos últimos anos, muito associada à exportação da fruta, como a pera rocha, e agora os frutos vermelhos; o Oeste alentejano associado aos pequenos frutos, aos produtos hortícolas.... Há todo um conjunto de potencialidades a desenvolver que têm de ter segurança de abastecimento de água e essa segurança não significa apenas quantidade, mas também o preço e a energia. É um assunto extraordinariamente grave que Portugal enfrenta: o preço da energia para os agricultores é muito elevado.

É preciso replicar o modelo do Alqueva afirma o presidente da CAP
O regime de seguros agrícolas funcionou na situação de seca? 
Não. Os seguros, infelizmente, não seguram as secas, porque para o fazerem teriam de segurar rendimentos e os seguros, tal como estão previstos, apenas seguram efeitos de acidente: uma trovoada, uma tromba de água, um incêndio provocado por um raio... O seguro seria ótimo se fosse tendencialmente universal, assim como o seguro automóvel. Falando de uma forma genérica, o valor podia diminuir. Só que a agricultura é uma atividade a céu aberto, está sujeita a riscos e obriga a uma intervenção por parte do Estado através do Orçamento do Estado ou de verbas comunitárias e esse trabalho está aquém daquilo que pretendemos. Espanha já faz seguros ao rendimento e isso é um assunto que merece ser estudado num futuro breve.

O preço da água pode subir significativamente em 2018?
O único preço, que eu saiba, que é estabelecido de uma forma administrativa é Alqueva, que está associado a um mega investimento que ainda está em fase de amortização e há um preço administrativo por parte do Estado. Com o problema da seca, com o problema da economia do país, que não está completamente segura, com as questões do endividamento dos agricultores associados aos prejuízos da seca, não creio que haja condições para aumentar o preço da água. Mas há medidas associadas à água que podem aligeirar, como a de uma taxa que é cobrada para o Ministério do Ambiente, que é a dos recursos hídricos. Num ano como este, esta taxa devia ser automaticamente abolida.

Falando das potenciais consequências, os prejuízos agrícolas ainda não foram repercutidos nos mercados. Quando é que os consumidores vão pagar a fatura da seca?
Esta pergunta é muito complexa. Vivemos numa sociedade em que o comércio é livre. Suponha que as hortícolas ou os frutos de origem nacional começavam a faltar no mercado. Com muita facilidade as estruturas comerciais carregam no botão e chega mais fruta da África do Sul, Chile, de Israel. Não há uma falta de alimentos imediatos nos supermercados. O pão subiu 20%, mas não ouvi ninguém dizer que isso tem origem no aumento do preço do trigo. Ora, se há um aumento do pão e o pão é feito com trigo, porque os agricultores não recebem uma parte desse aumento? Esses aumentos estão associados a outros itens, como a energia. Os mecanismos de relacionar preços ao consumidor com o preço à produção nunca são muito diretos e como Portugal é autossuficiente, porque o setor agrícola já conseguiu ter uma balança positiva, nunca teríamos uma relação direta. Um produto onde possamos vir a sentir qualquer coisa será o arroz. Se este ano houver um decréscimo de 40%, 50%, 60% na produção, devido à falta de água nas barragens, no ano seguinte terá de vir arroz de fora.

Falemos ainda da floresta. É necessário limitar o eucalipto ou a questão não assenta aí?
Custa-me que problemas de caráter técnico sejam resolvidos com medidas de caráter político. A proibição do eucalipto, tal como está neste pacote florestal anunciado em março é uma medida política e não posso, à partida, estar de acordo. Sou o primeiro a reconhecer que pode haver eucaliptais que não estão onde deviam estar, estou de acordo que há muito trabalho a fazer com os eucaliptais, principalmente nas pequenas manchas florestais. Dizer no papel que é proibido fazer eucaliptos para se atingir uma determinada indústria, carregando isso com uma ideologia política, luta de classes e o capitalismo, para mim a conversa está desajustada em relação ao que o país precisa. Somos um país pequeno, temos uma economia débil e o setor florestal é um enorme motor na balança comercial e nas exportações. O eucalipto encontrou em Portugal uma região onde se adapta bem e temos de tirar partido disso. Temos de reconhecer o que está mal feito e fazer bem feito. Fazer as coisas à força ou proibir por proibir, sou contra.

Concorda com o cadastro rural, florestal, uma das medidas que o governo está a iniciar? 
É outra questão que merece ser discutida, retirando a parte emocional do assunto. O cadastro é um desenho e a maior parte das parcelas que não estão cadastradas, sabe-se onde estão e até é possível desenhá-las. O cadastro é fundamental, mas tem de haver outro tipo de medidas, como a estrutura da propriedade. Não é possível continuarmos a ter propriedades com poucos metros quadrados com 30 ou 10 herdeiros. Há que iniciar um processo de aumentar a propriedade, para ser gerível, se não estão a ajudar as pessoas a cometer os erros do passado. Por isso dei tanta importância aos apoios de caráter social. Há determinadas pessoas que têm propriedades com determinado tipo e ocupação e que estão na origem de potenciais fogos. Há trabalho a fazer para saber se aquela propriedade vai ser gerida pelo próprio, pelo herdeiro, por alguém que a compra ou por uma entidade que a vai agrupar com outras para criar dimensão. E esse processo não pode ser feito à pressa. A ajuda de caráter social é urgentíssima.

Quanto à futura PAC, o que poderá vir aí de bom e de menos bom? Qual é a sua expectativa em relação às ajudas e a estrutura de apoios?
Em relação à PAC não tenho muito para dizer, porque temos um processo a decorrer na UE que se chama brexit, ainda enevoado, e não sabemos como vai acabar. O orçamento da UE deverá ter um decréscimo e a PAC pode também sofrer alguma coisa com isso. Mas a PAC precisa de ser muito mais simplificada. No entanto, para países como nós, é muito importante que haja as ajudas diretas associadas ao fazer e as medidas de caráter agroambiental e investimentos. Somos por haver uma aproximação aos valores que os agricultores da região mais rica da Europa recebem, promovendo a aproximação do valor médio das ajudas e se isso for possível é provável que o valor do pacote global da PAC que é destinada a Portugal não sofra uma grande alteração. Em termos processuais, haverá alguma modificação ao nível dos comportamentos agroambientais, a Europa é muito sensível a essas questões, mas eu gostaria que finalmente percebesse que há duas Europas: a do Sul, que tem uma enorme carência de água, e a do Norte, que tem problemas associados ao excesso de água. A Europa do Sul: Portugal, Espanha, Itália, Grécia e alguma parte de França têm necessariamente que olhar para o problema da água e enquadrá-lo na PAC, rever questões ambientais, alguns limites e alguns conceitos porque precisamos de água como de pão para a boca.

Seca chega a números nunca vistos no fim de novembro


01 DE DEZEMBRO DE 2017 - 00:00
Chuva dos últimos dias ajudou pouco. Seca severa ou extrema afeta 97% de Portugal Continental.



Os meses de setembro, outubro e novembro de 2017 tiveram o valor médio de temperatura máxima mais alto desde que há registos em Portugal, ou seja, desde 1931. O balanço é do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) num resumo sobre o tempo vivido nos últimos meses pelo país.

A análise sublinha que estes três meses bateram alguns recordes e foram os segundos mais secos desde 1931: menos chuva que em 2017 só em 1971.

Novembro foi o oitavo mês seguido com chuva abaixo do normal, sendo que o período de abril a novembro é mesmo o mais seco desde que há registos, com uma precipitação que se fica, apenas, pelos 30% do habitual.

Em consequência, nunca houve tanto território do Continente em seca severa e extrema como neste final de novembro: 97%.


O mês que agora terminou teve uma temperatura média do ar meio grau acima do normal e a chuva foi apenas 50% da média do passado, tendo sido o sétimo mês mais seco desde 2000.

A chuva que tem caído nos últimos dias fez aumentar a percentagem de água no solo, em particular nas regiões do litoral Norte e Centro, mas em alguns locais do interior Norte e Centro e na região Sul os valores de água no solo são ainda inferiores a 20%, algo anormal para a época.

No fim de novembro, 3% do território estava em seca moderada, 46% em seca severa e 51% em seca extrema.

Floresta. ‘Nova’ empresa já existe e tem sede em Lisboa



01.12.2017 às 20h00

 
LUIS BARRA
Chama-se Lazer e Floresta, está na Parpública e terá um impacto orçamental de €5 milhões em 2018

O anúncio foi feito a 14 de novembro por Capoulas Santos, ministro da Agricultura. Decorria a discussão na especialidade da proposta do Orçamento do Estado para 2018 quando prometeu a criação de uma empresa pública para a gestão da floresta. Queria que fosse o Estado a dar o exemplo de uma gestão "pró-ativa" naquele sector.

Acontece que, em vez de criar uma empresa de raiz, o Governo vai 'reciclar' uma que já existe. Chama-se Lazer e Floresta, é detida a 100% pela Parpública e tem sede na Avenida Defensor de Chaves, em Lisboa. É presidida Francisco Rodrigues Cal, que chegou a ser apontado para administrador da ANACOM, entidade reguladora das telecomunicações.

O Expresso sabe que a empresa pública de gestão das florestas irá ter um impacto de €5 milhões no Orçamento do Estado de 2018. Não servirá para gerir as matas e florestas públicas (isso ficará para o ICNF — Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas) mas sim as propriedades dos privados. Daqueles que, sabendo-se quem são, não estão interessados em assumir eles próprios a gestão do seu ativo, ou de áreas florestadas mas cujo dono se desconhece.

O Governo dará prioridade ao arrendamento e só em casos muito extremos optará pela compra dos terrenos florestados.

"Se o arrendamento de um hectare de floresta pode custar entre €130 a €150 por ano, com os €5 milhões que o Governo diz que vai disponibilizar para a tal empresa poderia perfazer cerca de 30 mil hectares de floresta. Não é mau, mas a prioridade do momento nem sequer é essa", nota Vasco Campos da CAULE, uma das maiores organizações de produtores florestais em Portugal. O que é urgente, agora, é "garantir a construção de parques para o armazenamento da madeira queimada, para que os produtores afetados possam minimizar as suas perdas", acrescenta aquele dirigente associativo, da região de Oliveira do Hospital.

Pedro Ochôa, investigador na área florestal e professor no Instituto Superior de Agronomia, considera que esta medida do Governo surge desgarrada da realidade. "Se não tivessem existido as catástrofes de junho e de outubro provavelmente esta empresa pública para a floresta nem teria sido anunciada."

CONTINUA A FALTAR UMA VISÃO ESTRATÉGICA
Este especialista critica o facto de continuar a não existir uma visão estratégica e coordenada para a floresta e de as medidas avulso se sobreporem constantemente ao trabalho de fundo que continua por fazer: pensar a floresta como um recurso nacional fundamental. E diz ainda que o ICNF permanece tecnicamente limitado na sua intervenção sobre o território florestado.

O Governo quer que, nesta tarefa de gestão das florestas, sejam envolvidas também as autarquias, as associações, as cooperativas e até as fundações.

O sector das frutas 
e dos legumes 
foi responsável por €1,3 mil milhões de vendas ao exterior em 2016 
O sector das frutas 
e dos legumes 
foi responsável por €1,3 mil milhões de vendas ao exterior em 2016
GETTY
AGRICULTURA. €2,4 MIL MILHÕES INVESTIDOS EM DOIS ANOS
Intenções de investimento atingem os €7 mil milhões. Agricultores queixam-se de morosidade na aprovação dos projetos

Desde outubro de 2015 a 17 de novembro deste ano foram aprovados 15.567 projetos agrícolas, a que corresponde um volume global de investimento da ordem dos €2,4 mil milhões.

Deste valor, perto de €1,2 mil milhões correspondem a apoios públicos, conforme adiantou ao Expresso Luís Vieira, secretário de Estado da Agricultura e Alimentação, que nega que estes apoios tenham ficado reféns de cativações orçamentais. Admite, porém, que possam ter surgido algumas críticas dos agricultores, "mas mais devido ao tempo de espera nas aprovações dos processos". E nega que haja falta de capacidade de resposta das estruturas do Ministério da Agricultura.

Aquele responsável explica ainda que as 43.064 candidaturas apresentadas no âmbito do Programa de Desenvolvimento Rural — PDR 2020, até agora, correspondem a uma intenção global de investimento da ordem dos €7 mil milhões. Destas, estão já analisadas 34.000, o equivalente a 79% do total.

São números que deixam Luís Vieira radiante e aproveita para tecer elogios aos agentes do sector, "que têm sabido inovar, investir e internacionalizar os seus produtos". Nota que, em 2016, o agroalimentar exportou €6,2 mil milhões e admite que este ano se possa chegar aos €7 mil milhões. "Estamos a falar de um crescimento anual da ordem dos 9% e com tendência para se manter a este ritmo, o que é absolutamente notável". Com a particularidade de se estar a falar de vendas a mercados "muito exigentes e competitivos, com níveis de concorrência muito elevados", o que exige um elevado grau de profissionalismo por parte dos operadores nacionais.

Só o sector das frutas e dos legumes foi responsável por €1,3 mil milhões de vendas ao exterior em 2016, prevendo-se que este ano suba aos €1,5 mil milhões (o objetivo traçado pela Portugal Fresh — organização que representa todo o sector — aponta para €2000 de exportações em 2020). Uma trajetória que, de acordo com o secretário de Estado, "conduziu à redução do défice comercial em €443 milhões" ao longo da última década.

FRUTAS E LEGUMES EM ALTA
De janeiro a novembro deste ano, as exportações de frutas e legumes registaram uma taxa de crescimento de 20% relativamente ao período homólogo de 2016, segundo Luís Vieira, que sublinha ainda que na última década as exportações cresceram a uma taxa média anual de 9%.

Este sector, que na passada terça-feira reuniu perto de duas centenas de produtores no seu 3º congresso, em Lisboa, está a apostar também na inovação tecnológica em parceria com organizações do sistema académico e científico. Em 2017, foram já lançados 22 projetos de investigação, no valor de €7,5 milhões, os quais garantiram um apoio público de €5,7 milhões. No evento desta semana, que decorreu na escola de negócios AESE, o Governo condecorou a título póstumo Manuel Évora, fundador da Portugal Fresh, que faleceu no passado mês de abril. Foi também ele que lançou o Clube de Produtores da Sonae, em 1998.

“European Conference on Xylella fastidiosa 2017”


Paris, 01 dez (Lusa) - Os estados-membros da União Europeia, incluindo Portugal, e a Comissão Europeia estão "todos empenhados" na luta contra a 'xylella fastidiosa', a bactéria que destrói várias plantas e árvores, disse à Lusa o secretário de Estado da Agricultura e Alimentação.
Luís Medeiros Vieira, que participou, hoje, em Paris, numa reunião de alto nível sobre a 'xylella fastidiosa', explicou que os estados-membros, a Comissão Europeia, os institutos nacionais de investigação e os próprios agricultores devem "colaborar para debelar esta praga".
Trata-se de uma bactéria que afeta o xilema, tecido das plantas onde circula a seiva, e é disseminada por insetos (mais de 300 espécies), que afeta as culturas agrícolas e espécies florestais de grande importância económica, como árvores de fruto ou videiras. 
"Estamos todos empenhados, quer os estados-membros quer a Comissão, no sentido de podermos criar condições para evitar que a praga se propague cada vez mais na União Europeia, portanto, que haja uma contenção. Ao mesmo tempo, também temos que envolver todos os interessados: os nossos institutos de investigação, os nossos agricultores", afirmou o governante.
A reunião juntou representantes de dez estados-membros, incluindo o ministro francês da Agricultura e da Alimentação, Stéphane Travert, e o comissário europeu da Saúde e da Segurança Alimentar, Vytenis Andriukaitis, e, por sugestão de Portugal, as conclusões vão ser apresentadas ao conselho de ministros europeus da Agricultura, em janeiro, e vai ser criado um grupo de trabalho para elaborar um código de boas práticas para deteção e controlo da 'xylella'.
Luís Medeiros Vieira explicou que hoje "foi dado um passo importante que foi sensibilizar a União Europeia para poder também compensar os agricultores" em termos financeiros se forem afetados pela destruição das suas árvores.
"A Comissão está empenhada no reforço em termos de verbas financeiras que permitam, no caso de se verificarem situações que levem à destruição das árvores atingidas, poder também haver uma comparticipação unitária para os agricultores atingidos", declarou.
O secretário de Estado da Agricultura e Alimentação destacou, ainda, que "existe uma verba na ordem dos 10 milhões de euros que a União Europeia disponibiliza para efeitos de apoio à investigação e à prospeção", que vai desde "o apoio ao pagamento das análises, ações de sensibilização" e ações de investigação "com vista a encontrar soluções para debelar esta doença". 
O governante sublinhou, também, que "o objetivo último é a erradicação" da 'xylella fastidiosa' mas como "neste momento ainda não existem formas de a erradicar", os estados-membros devem tomar um conjunto de medidas de prevenção.
"É necessário tomar um conjunto de medidas em todos os estados-membros que vão desde a vigilância, desde a deteção precoce da própria praga e, ao mesmo tempo, também cuidados acrescidos nas relações comerciais entre os vários países, nomeadamente, na importação de plantas que provêm de países que possam ter casos detetados desta praga", continuou.
Luís Medeiros Vieira vincou que "até ao momento não foram detetados quaisquer casos" em Portugal e que há um controlo ao nível das fronteiras que permite detetar que o material vegetal importado não tem qualquer problema", assim como planos de vigilância em execução e um plano de contingência nacional. 
O governante acrescentou que a reunião de Paris pretendeu "encontrar uma posição solidária de todos os estados-membros da União Europeia" para "o maior problema, até ao momento registado na União Europeia, de caráter fitossanitário" e que "Portugal também é um país de risco".
"Sim, estamos preocupados. Portugal também é um país de risco. É um país mediterrânico, tem condições em termos climatéricos e, ao mesmo tempo, também a sua exposição em termos atlânticos. São [condições] propícias para a propagação deste doença", concluiu.
A bactéria 'xylella fastidiosa' foi detetada pela primeira vez na Europa em 2013, em oliveiras adultas, na região de Apúlia, em Itália, onde devastou uma extensa área de olival. 
Em 2015, foram detetados focos em plantas ornamentais na Córsega e no sul de França e, em 2016, em plantas de aloendro na Alemanha e em plantas de cerejeiras num viveiro nas Ilhas Baleares, em Espanha.
O mais recente caso de presença da bactéria na Europa foi confirmado no passado mês de junho num pomar de amendoeiras em Alicante, na região de Valência, em Espanha, tratando-se do primeiro caso na Península Ibérica.
CAYB (LL // JNM) // PJA
Lusa/Fim

O Alentejo “está a acordar” mas com alguma “superficialidade”

Portugal devia ter anunciado ao mundo a sua história com o vinho de talha há muito mais tempo, defende Virgílio Loureiro.

ALEXANDRA PRADO COELHO (Texto) e RICARDO LOPES (Forografia) 30 de Novembro de 2017, 5:22 Partilhar notícia


Há vinte anos que Virgílio Loureiro vinha falando com paixão sobre o vinho da talha – mas eram poucos os que davam ouvidos a este professor do Instituto Superior de Agronomia hoje aposentado. "Antecipar o futuro faz-nos passar por lunáticos", ironiza perante a recente onda de entusiasmo com esta forma de fazer vinho, herdada dos romanos.

"Felizmente que o Alentejo está a acordar, mas com mais superficialidade do que eu gostaria", comenta. É muito importante, diz, distinguir "vinho da talha e vinho feito em talha, é uma diferença como do dia para a noite". Critica, por exemplo, quem coloca as talhas em câmaras frigoríficas para controlar a temperatura quando "frio artificial era algo que não existia há dois mil anos". Ou quem estagia em barricas de carvalho os vinhos saídos da talha, "misturando o mundo mediterrânico com o germânico".

Como se faz vinho de talha no século XXI?

Chegámos tarde à onda de vinho de talha que se espalhou pelo mundo "desde que há vinte anos a Geórgia anunciou que fazia vinho há oito mil anos". Portugal, diz Virgílio Loureiro, devia ter percebido então que tinha um trunfo: no Alentejo nunca se tinha deixado de fazer vinho da talha desde há dois mil anos.

Mas o país demorou a entender que tinha que contar essa história única e fá-lo hoje quando "até a Nova Zelândia e a Austrália já fazem vinho da talha". E com outro problema, que Virgílio Loureiro identifica: "Continuamos a vender vinho barato. Com a história e a cultura do vinho que temos não devíamos ter como factor de competitividade o preço baixo."

Há, actualmente, doze produtores certificados como vinho da talha, mas há outros, que por razões diferentes não têm certificação, a fazer também vinhos com esta técnica, afirma Luís Pedro Amorim, director do laboratório da Comissão Vitivinícola Regional do Alentejo (CVRA). Perante o novo interesse na talha, a CVRA decidiu, em 2010, criar a certificação para "criar algumas regras antes que se banalizasse o termo".

PÚBLICO -Foto
Talhas na Casa Agrícola Alexandre Relvas RICARDO LOPES
Para obter a certificação, o produtor tem que anunciar a intenção de fazer vinho da talha nesse ano e este é depois apreciado por um painel de avaliadores. "Excepcionalmente, é dito aos avaliadores que se trata de vinho da talha, porque ele tem características que não seriam admitidas noutro tipo de vinho, nomeadamente a cor nos brancos, com uma oxidação maior, que noutros seria considerado um defeito."

Um dos grandes produtores do Alentejo, a Herdade do Esporão, decidiu em 2014 lançar-se na "recuperação e interpretação desta tradição alentejana", com a construção da Adega dos Lagares, que recupera outra técnica ancestral, a construção em taipa, e que, explica a enóloga Sandra Alves, é a "incubadora" dos futuros vinhos do Esporão.

A talha dá a um enólogo "uma lição de humildade", afirma Sandra Alves: "Todo o processo é manual, moroso e os riscos de deterioração parecem acrescidos à luz do conhecimento actual; as práticas são ancestrais e temos de confiar e acreditar que resultam."

E há mercado para este vinho? "Claramente que sim", responde Catarina Santos, directora de marketing e comunicação do Esporão. "Verifica-se um crescente interesse, nomeadamente em países com maior cultura vínica (Estados Unidos, Japão, Escandinávia)" e da parte de "consumidores que valorizam vinhos com carácter vincado, que utilizam técnicas ancestrais de pouca intervenção […] com um perfil mais elegante, menos extraídos e concentrados e com alguma rusticidade". Acredita, por isso, que a talha "veio para ficar".

Talhas a Norte do Tejo?
Curiosamente, apesar de ser o Alentejo que se associa sempre a este tipo de vinho, na Bairrada, por exemplo, Filipa Pato está a fazer um vinho em talhas, a que chama "ânforas" para distinguir das alentejanas.

Não estando obrigada às regras da certificação, retira o vinho do barro no final de Outubro, deixando-o depois estagiar novamente nas talhas até à colheita seguinte. Interessou-lhe perceber como é que uma casta da Bairrada, como a Baga (ou Bical, no caso do branco) se comportava em barro. O resultado? "É a mesma Baga mas com muito mais pureza de aroma e taninos mais macios."

"Continuamos a vender vinho barato. Com a história e a cultura do vinho que temos não devíamos ter como factor de competitividade o preço baixo."
Virgílio Loureiro
Além disso, "Bairrada vem de barro, e os romanos também terão feito vinho aqui, apesar de a tradição não se ter mantido como no Alentejo", diz. "E se as uvas gostam tanto dos solos argilo-calcários, porque é que se faz vinho em madeira e não em barro?".

E o que diz Virgílio Loureiro, o estudioso do vinho de talha, sobre a possibilidade de este se fazer fora do Alentejo? "Os vestígios de dolia [talhas] a Norte são muito escassos, enquanto a Sul são omnipresentes." Por outro lado, o Sul não tinha árvores boas para a tanoaria, mas tinha "excelente barro". Acredita por isso que a Norte do Tejo essa produção terá sido "esporádica".

Lembrando que também produtores como Dirk Niepoort ou Vasco Croft fazem vinho de talha a Norte do Tejo, Virgílio Loureiro considera-o contudo, "vinho feito em talha, por mais respeito que todos tenham (e têm) pelo processo romano".

Porque, defende, "só no Alentejo há uma verdadeira alma mediterrânica" e "é preciso ir a uma taberna de uma aldeia alentejana para perceber o que é 'vinho de talha', com um ritual de consumo que pouco difere do symposium grego (nas conversas, na música, nos petiscos de origem vegetal e nos jogos tradicionais). A norte do Tejo, como já dizia de forma magistral o grande Orlando Ribeiro, a cultura tem mais alma atlântica, pois em vez de música polifónica ouvem-se gaitas de foles e em vez de talhas há tonéis".


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Comunicação da Comissão sobre o futuro da PAC: mais do mesmo

CNA


Proposta da Comissão não responde às necessidades e anseios dos agricultores e das zonas rurais

O processo de reforma da PAC pós 2020, que a CNA juntamente com a Coordenadora Europeia Via Campesina (CEVC) têm vindo a acompanhar, junto com outras organizações e movimentos civis, alcançou uma etapa importante esta quarta-feira, 29 de Novembro, com a comunicação da Comissão Europeia sobre o futuro da PAC.

Nas suas 26 páginas, o documento divulgado pela Comissão faz referência a uma série de dificuldades e questões que o mundo rural enfrenta. No entanto, apesar do discurso que à primeira vista parece escutar os produtores europeus e as suas comunidades rurais, as soluções apresentadas continuam a estar direccionadas para os sintomas do problema e esquivam-se, na sua maioria, a ir até à raiz da crise.

De seguida realçamos um conjunto de temas que merecem especial atenção pelo impacto que têm sobre a agricultura familiar, a qualidade de vida no meio rural e o sistema alimentar dos cidadãos europeus.

Gestão de riscos derivados do mercado – volatilidade de preços. A Comissão continua a promover os seguros ao rendimento como solução para as crises dos mercados que continuam a atingir os agricultores. Para a CNA e CEVC, esta não é a solução. A volatilidade não é inevitável. A volatilidade é resultado da destruição dos instrumentos de regulação do mercado e da produção. É aí que reside o problema e a solução.

Ajudas directas da PAC e sua distribuição. A Comissão insiste na distribuição de ajudas de acordo com a área. As ajudas desligadas da produção e em função dos hectares não permitem responder aos objectivos da PAC e acentuam os problemas de controlo e concentração da terra, agravando a inaceitável e injusta distribuição dos recursos públicos. Saudamos a intenção de fazer uma distribuição mais justa das ajudas da PAC, mas lembramos que há um longo caminho a percorrer entre a intenção e a tomada de decisões concretas, como se pode verificar pela última reforma da PAC, onde as elevadas expectativas acabaram num sentimento de frustração.

Planos estratégicos. Por outro lado, a Comunicação propõe um novo sistema para a distribuição das ajudas da PAC, baseado no cumprimento de objectivos gerais – definidos a nível europeu – e planos estratégicos definidos pelos Estados-membros. A CNA e CEVC consideram que em princípio pode ser interessante adaptar a implementação da PAC às realidades locais e regionais, mas é imprescindível definir claramente os objectivos que se pretendem alcançar, garantir a participação das organizações de agricultores na elaboração dos planos estratégicos, bem como no acompanhamento do processo de adaptação e cumprimento.
Rejeitamos qualquer tentativa que possa haver através desta proposta para renacionalizar a PAC.

Promover a prosperidade rural. A Comissão Europeia apresenta a bio-economia como uma componente essencial para dinamizar o desenvolvimento rural. Contudo, não é a bio-economia que vai dinamizar as zonas rurais, mas sim a produção de um modelo agrícola com numerosas e diversificadas explorações agrícolas no território, através da implementação de mecanismos colectivos de transformação, venda, etc. É graças a uma actividade agrícola diversificada, destinada à alimentação, de proximidade e presente no território, que o objectivo de desenvolvimento rural poderá ser alcançado.

Atrair novos/as agricultores/as. Valorizamos o facto de o rejuvenescimento geracional estar entre as prioridades da nova reforma, mas na realidade é difícil para a CEVC imaginar novos jovens a serem atraídos para a agricultura, quando constantemente as crises atingem os sectores produtivos e quando o seu futuro é determinado pelos mercados internacionais que submetem os agricultores à volatilidade dos preços, à insegurança dos rendimentos e à especulação.

Saúde, Nutrição, Sustentabilidade. A Comunicação da Comissão continua a falar muito de saúde, nutrição e sustentabilidade, mas continua a não definir os modelos agrícolas alimentares e comerciais capazes de garantir a produção de alimentos saudáveis, nutritivos, saborosos, ambientalmente sustentáveis, que assegurem o bem-estar animal, contribuam para a luta contra as alterações climáticas e gerem emprego e vida no mundo rural. Para a CNA e CEVC, este modelo é o modelo de agricultura campesina/familiar e sustentável, cuja base são as camponesas e os camponeses.

Coimbra, 30 de Novembro de 2017
A Direcção da CNA

Comissária europeia visita áreas ardidas



01.12.2017 às 14h00

 
LUÍS BARRA
Encontro com o ministro da Agricultura, Capoulas Santos, servirá para discutir o pedido de apoio extraordinário feito pelo Governo à União Europeia

Raquel Albuquerque
RAQUEL ALBUQUERQUE

A comissária europeia para a Política Regional, Corina Creţu, vai visitar as áreas ardidas em Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, na próxima segunda-feira, e reunir-se com o ministro da Agricultura, Capoulas Santos.

A visita permitirá à comissária responsável pela Política de Coesão e pelo Fundo de Solidariedade da União Europeia perceber a devastação causada pelos incêndios de junho naquela região, os quais motivaram um pedido de apoio extraordinário feito pelo Governo à União Europeia, que foi entregue pelo primeiro-ministro António Costa ao presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, durante a visita deste último a Portugal em outubro.

Na reunião da comissária com o ministro da Agricultura será discutido esse pedido de apoio, com o intuito de "definir um calendário", refere Capoulas Santos, que contará nessa reunião com o secretário de Estado do Desenvolvimento, Nelson de Souza, o secretário de Estado das Florestas, Miguel Freitas, e a presidente da CCDR Centro, Ana Abrunhosa.

No âmbito da sua vinda a Portugal, a comissária europeia para a Política Regional reúne-se também com António Costa e Pedro Marques, ministro do Planeamento, para discutir o futuro da política de coesão para o próximo orçamento pós-2020.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Bruxelas quer simplificar regras da política agrícola comum após 2020


29 nov 2017 13:04
MadreMedia / Lusa

Atualidade · 23 nov 2017 11:30

Cimeira UE/África: 17 anos que falham. Vem aí um quinto começo para África
A Comissão Europeia apresentou hoje uma proposta de reforma da política agrícola comum (PAC) depois de 2020 que dá mais poderes aos Estados-membros num cenário de incerteza orçamental devido ao 'Brexit' e aposta na simplificação das regras.
 
A comunicação hoje publicada apresenta orientações para concretizar para uma reforma da PAC e para fazer face aos desafios emergentes, nomeadamente através de uma maior subsidiariedade a nível dos Estados-membros, a fim de a tornar mais próxima de todos aqueles que a põe em prática no terreno.

Uma das diferenças propostas em relação à PAC em vigor é o abandono do princípio de que um modelo serve para todos, introduzindo flexibilidade nas opções dos Estados-membros para chegarem aos objetivos traçados.

Assim, cada Estado-membro deverá estabelecer um "plano estratégico da PAC", que abranja intervenções do primeiro (apoio à produção agrícola) e do segundo pilares (desenvolvimento rural).

Estes planos estratégicos terão que ser avaliados e aprovados por Bruxelas e permitem que as autoridades nacionais maximizem o contributo da PAC para as prioridades e os objetivos da UE e a concretização das suas metas, nomeadamente em matéria de clima e energia.

"Embora os Estados-membros devam assumir maior responsabilidade pela forma como cumprem os objetivos e metas acordados, a nova abordagem continuará a assegurar condições de concorrência equitativas, preservando a natureza comum e os dois pilares da política", lê-se na proposta.

A questão da verba disponível para a PAC está dependente da proposta relativa ao próximo Quadro Financeiro Plurianual (QFP), prevista para maio de 2018, e dos efeitos do 'divórcio' do Reino Unido, que é contribuinte líquido, nas contas da UE.

O primeiro pilar da PAC é uma preocupação da Comissão Europeia, que destaca que 20% dos agricultores receberam, em 2015 – no primeiro ano de vigência da última reforma da PAC – dos pagamentos diretos, que se baseiam principalmente na superfície.

"Mais de metade dos seus beneficiários são explorações agrícolas de dimensão muito reduzida e a maior parte dos pagamentos (72% em 2015) destina-se a explorações agrícolas familiares, comerciais, de média dimensão (5 a 250 hectares), que gerem a maior parte dos terrenos agrícolas da UE (71%), sendo portanto os principais responsáveis pela oferta de bens públicos e benefícios ambientais".

Para aumentar a eficácia dos pagamentos, Bruxelas propõe "uma limitação obrigatória dos pagamentos diretos, tendo em conta o trabalho, de modo a evitar efeitos negativos no emprego" ou a "introdução de pagamentos degressivos como forma de reduzir o apoio a explorações de maior dimensão", entre outras medidas apresentadas a debate.

As propostas legislativas pertinentes que aplicarão os objetivos delineados na comunicação serão apresentadas pela Comissão antes do verão de 2018, após a proposta de QFP.

Ministro do Ambiente garante que Espanha está a cumprir Convenção de Albufeira


28/11/2017, 11:58128

Matos Fernandes esteve reunido com a ministra espanhola e garantiu que Espanha cumpriu a Convenção de Albufeira, embora com "pequeníssimas exceções". Falta acordo sobre gestão diária do rio Tejo.

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Matos Fernandes quer introduzir algumas alterações à Convenção.
LUÍS FORRA/LUSA

O ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, garantiu que Espanha cumpriu, e está a cumprir, a Convenção de Albufeira, que define as normas para a proteção e o desenvolvimento sustentável das águas hidrográficas entre Portugal e Espanha. Ao lado da ministra espanhola do Ambiente, defendeu, esta terça-feira, que o débito dos caudais passe a ser diário e não semanal, como acontece agora.

"Portugal cumpriu a convenção de albufeira neste último ano. Espanha cumpriu-o a 100% no Guadiana", começou por dizer o ministro, no Porto, num encontro com Isabel Garcia Tejerina para se discutir a gestão da água nos rios internacionais. Admitiu que, relativamente ao rio Tejo, "houve uma única semana" em que a Convenção não foi cumprida "porque houve obras numa barragem perto da fronteira", "sendo que c0mpensou na semana seguinte, por isso é irrelevante". Quanto ao rio Douro, o regime também não foi cumprido numa ocasião, mas foi "por pouco" e Espanha, mais uma vez, "compensou".

O encontro acontece um dia depois de a ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável ter denunciado à Lusa que o país vizinho não tem assegurado todos os caudais acordados para o Douro, Tejo e Guadiana. Tirando "pequeníssimas exceções", o ministro desmentiu essa informação, que atribui a falta de informação. "Devemos ser e podemos ser mais transparentes na informação", disse, prometendo dotar o site da Convenção com registos mais frequentes.



Espanha e Portugal têm obrigações de caudais semanais, trimestrais e anuais. Ao lado de Isabel Garcia Tejerina, Matos Fernandes falou de alterações e inclusões que poderão ser feitas à Convenção de Albufeira, que em 2018 celebra 20 anos.

No desenho do terceiro ciclo de planeamento, o ministro português defendeu que os caudais, que atualmente são de reporte semanal, poderiam ser diários, para que a gestão dos recursos hídricos seja mais homogénea. "A troca de informações acontece, e já é feita diariamente", sublinhou, explicando que "qualquer alteração significaria alterar a Convenção, o que não está em cima da mesa neste momento".

Em nenhum momento a ministra espanhola admitiu que essa alteração venha a ser feita. "É importante salientar que existem alternativas. E que Espanha cumpre escrupulosamente, e que isso será mais para a frente", disse, sugerindo que "um reservatório construído em Portugal pode dar esses benefícios [ambientais]".

"Vamos trabalhar dentro da Convenção de Albufeira para que haja mais cooperação e coordenação. E incorporar a variável das alterações climáticas", concluiu Isabel Garcia Tejerina, sobre as mudanças para o terceiro ciclo.

Municípios tentam travar erosão dos solos e proteger linhas de água


27/11/2017, 12:48
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Diversos municípios de áreas atingidas pelos incêndios estão a fazer intervenções para protegerem solos e linhas de água, enquanto lançam concursos públicos para operações de maior dimensão.

Diversos municípios de áreas atingidas pelos incêndios estão a fazer intervenções para protegerem solos e linhas de água, enquanto lançam concursos públicos para operações de maior dimensão, financiadas por fundos nacionais e europeus.

A Câmara de Pampilhosa da Serra, no interior do distrito de Coimbra, está a lançar concursos de obras para evitar derrocadas, através, designadamente, da construção de taludes, com a madeira queimada, entre outros materiais, e para preservar solos e linhas de água, disse à agência Lusa o presidente do município, José Brito Dias.

Trata-se de um investimento da ordem de um milhão de euros, assegurado por um contrato-programa entre o município e o Ministério do Ambiente.


Os fogos deixaram o concelho, que é montanhoso e muito recortado por rios e riachos, muito exposto a deslizamentos e derrocadas de terras, ao empobrecimento dos solos e à desregulação e contaminação da água, sublinhou.

"Há muito trabalho a fazer" e é necessário "avançar rapidamente", afirma José Brito Dias, manifestando "alguma apreensão" pela vulnerabilidade do território, cujos problemas se agravarão se ocorrerem chuvas violentas.

Em Vila Nova de Poiares, também no distrito de Coimbra, a Câmara tem desenvolvido, em "cooperação com as juntas de Freguesia", várias intervenções.

A "abertura e limpeza de linhas de água" e a criação de "zonas de contenção de materiais" em áreas de "maior risco" são algumas das operações em curso, exemplificou o presidente da Câmara de Poiares, João Miguel Henriques.

Estas "operações imediatas" estão a ser realizadas com recursos autárquicos, mas o município vai candidatar-se a apoios do Governo para este tipo de ações e para "intervenções de maior dimensão", cujas situações estão a ser estudadas.

A Câmara de Penela também está a desenvolver ações no mesmo sentido e prevê começar, em breve, operações de preservação e de estabilização dos solos e de defesa dos cursos de água, estas na sequência de financiamentos assegurados pelos fundos Ambiental (programa do Ministério do Ambiente de apoio a políticas ambientais) e de Emergência Municipal (de apoio aos cerca de 30 municípios mais atingidos pelos incêndios deste ano).

Essas intervenções, envolvendo um investimento global superior a 600 mil euros, parte das quais são "urgentes", deveriam ter sido feitas logo após os incêndios, sublinhou à agência Lusa Luís Matias, presidente da Câmara de Penela, no distrito de Coimbra.

Mas a legislação nacional e, sobretudo, da União Europeia condicionam os respetivos processos, limitando nomeadamente contratações por ajuste direto, acrescenta, reconhecendo que, no entanto, nalgumas situações é possível recorrer ao concurso público urgente.

Em Vouzela, no distrito de Viseu, onde as chamas devastaram mais de 85% da floresta e mais de 73% da área do concelho (quase 15 mil hectares), o município está a preparar uma candidatura de cerca de 1,5 milhões de euros para fazer a contenção de taludes e a requalificação de linhas de água.

"Queremos evitar a erosão, sobretudo com paliçadas de segurança nas zonas mais inclinadas e onde o processo erosivo é mais gravoso", explicou à agência Lusa o presidente da Câmara, Rui Ladeira.

A limpeza "dos matos que arderam e subsistem nas linhas de água" e "sementeiras e plantações para se conseguir fazer já uma recuperação dos taludes e das zonas mais sensíveis" são outras medidas financiáveis, acrescentou.

Rui Ladeira avançou que há uma experiência que o município vai adotar, seja financiada ou não: lançar palha nos terrenos, através de meios aéreos, como é já habitual na Galiza (Espanha).

O presidente da Câmara de Tondela, José António Jesus, disse à Lusa que já foi feita uma caracterização das zonas mais vulneráveis do concelho, mas que "ainda decorre algum período de ajustamento", após o qual serão submetidas as respetivas candidaturas a apoios.

"Se nada for feito — e estamos a falar de obras de grande dimensão e de grande volume financeiro — teremos deslizamentos, erosão de solos e, consequentemente", linhas de água afetadas, salientou o autarca, que está muito preocupado com a situação.

José António Jesus adiantou que está a ser pedido aos proprietários para não removerem a madeira queimada, "sobretudo o eucalipto, que não tem nenhuma perda do valor comercial, antes do inverno passar", para garantir "uma melhor estabilidade" das terras.

Se depois de apresentadas as candidaturas, "não forem imediatamente disponibilizadas verbas", alertou ao autarca, corre-se o risco de chegar à primavera ou ao início do verão sem nada resolvido e com danos irremediáveis".

Capoulas Santos. Tirar o Ministério da Agricultura de Lisboa faria sentido



30 nov, 2017 - 00:02 • Graça Franco (Renascença) e Ana Fernandes (Público)

Capoulas Santos diz que uma das medidas mais importantes da reforma das florestas é a que cria as entidades de gestão florestal. E fala da renovada aposta nos regadios.

Foi secretário de Estado da Agricultura e depois ministro no executivo de Guterres. Luís Capoulas Santos é agora novamente ministro da Agricultura. Admite que tem a sua quota de responsabilidade no que se passou este Verão mas está confiante que a reforma que foi aprovada irá mudar o estado das coisas. Prepara novos apoios para os pequenos agricultores, cuja presença é fundamental no território e não acha descabida a saída do ministério para o interior. Quanto a meios para todas estas promessas, mostra-se tranquilo — além dos fundos europeus, também o Orçamento do Estado pode ser redireccionado para as novas prioridades.

Nos últimos 22 anos, desempenhou funções no Ministério da Agricultura durante quase metade desse tempo. O que aconteceu este Verão não foi também uma derrota sua?

Naturalmente que não sendo responsabilidade minha, terei alguma responsabilidade nisso. Mas também tenho muita honra na minha experiência. Aquilo que mais me orgulha é ter participado na decisão do Alqueva e ter ajudado a lançar aquele grande empreendimento. E gostaria de acabar a minha carreira política deixando a mesma herança na floresta. Estou convicto que aqueles que hoje criticam a reforma da floresta são aqueles que tanto criticaram o Alqueva e que entretanto, em pouco menos de duas décadas, desapareceram.

Não houve consenso na reforma, concretamente no banco de terras que contou com a oposição do PCP.

O banco de terras foi o único dos 12 diplomas sobre a reforma da floresta que não passou. E o banco de terras tem a ver, não só com a floresta, mas também com a agricultura já que visava disponibilizar também terras para exploração agrícola. A proposta estava associada a um fundo de mobilização de terras que permitia que, com a venda de património e com o dinheiro proveniente do arrendamento, se comprassem novas terras para voltar a instalar mais jovens. Por outro lado, permitia que, no caso da floresta, os terrenos que vierem a ser identificados como sem dono conhecido pudessem ser também disponibilizados para exploração.

O governo anterior tinha criado um banco de terras.

Não. O governo anterior criou uma bolsa de terras, que é como uma agência imobiliária. No banco de terras era imediatamente integrado todo o património rústico do Estado, esteja em que ministério estiver. Estas terras eram postas a concurso para arrendamento, preferencialmente a jovens agricultores. Ao fim de sete anos, período mínimo de comprovada boa gestão, poderiam ser vendidas e o dinheiro dessa venda era canalizado para um fundo de mobilização de terras, que visava comprar novas terras para que este banco continuasse indefinidamente. O Estado agora pode fazer o mesmo com as terras do Estado. Só que quando for entregue o último metro quadrado, acaba o banco de terras.

Entre a multiplicidade de problemas que explicam os incêndios, um é o despovoamento do interior. O Ministério da Agricultura não seria uma das estruturas de Estado que faria sentido sair de Lisboa?

Sim, faria sentido. Fiz toda a minha carreira como funcionário do Ministério da Agricultura e aquilo que mais me entristeceu nos últimos anos, fruto de vários governos, foi ter visto o sucessivo desmantelamento do ministério e particularmente nas zonas onde mais devia estar, que era nos territórios rurais. Retirou os seus balcões concelhios onde estava o apoio aos agricultores e concentrou-os nas sedes distritais e nas sedes regionais.

Há intenção de reverter?

Nós temos vindo a reverter essa situação e a compensar de uma forma que se tem revelado bastante positiva, que é através das associações agrícolas que foram ocupando esse espaço.

O outro lado dessa questão é que também a fiscalização desapareceu do terreno.

Não creio que possa haver algum dado objectivo que o possa confirmar. No que diz respeito aos apoios comunitários — o Ministério da Agricultura paga todos os anos aos agricultores, só de apoios comunitários e nacionais, mais de 1200-1300 milhões de euros — há um sistema de controlo por amostragem.

Mas uma das questões de que se falou foi o fim dos guardas florestais por exemplo.

Os guardas Florestais não acabaram porque eles estão na GNR, que criou, há pouco mais de dez anos, um serviço próprio da natureza — o SEPNA. Na altura, os guardas florestais eram cerca de 600. Neste momento existem cerca de 600 SEPNA e 300 guardas Florestais. Portanto, existem mais 300 do que existiam nessa altura.

Mas também integrou os vigilantes da natureza.

Sim, existem mais umas centenas de vigilantes da natureza que estavam no Ministério do Ambiente. Portanto, o número de efectivos a cumprir essa função é hoje o dobro do que era há 12 anos.

Mas com tutelas diferentes.

É por isso que uma das decisões do Conselho de Ministros de 21 de Outubro é criar um sistema integrado de prevenção de incêndios rurais, para o qual foi criada uma unidade de missão. O trabalho que está a ser desenvolvido pela Unidade de Missão em colaboração com os ministérios. A intenção é criar um modelo que permita integrar todas estas componentes do sistema. Há um conjunto de meios que o Governo reconheceu que carecem de melhor coordenação e está a trabalhar num novo sistema que os integre e que torne mais eficaz a sua acção.

Outra das questões mais referidas durante os incêndios foi a das monoculturas. Só que o pinheiro e o eucalipto são espécies que dão rápido retorno ao proprietário. Como é que se consegue convencer estas pessoas a apostar em outras espécies?

É natural que quem investe pretenda ter um retorno e esse retorno implica a plantação de espécies que tenham valor comercial. As outras [como as autóctones] têm sobretudo valor ambiental, o que sendo muito bom para o conjunto dos cidadãos, não induz ninguém a investir em algo para a qual não tem retorno. A única forma de garantir que há investimento nessas espécies é integrando-as em projectos de florestação.

Funcionariam como complementares das outras e como sistemas de protecção das demais. E é por isso que a reforma da floresta criou um diploma — para mim o mais importante de todos — que cria as entidades de gestão florestal que visam criar condições para que o minifúndio possa ter dimensão, integrado em cooperativas ou empresas, que beneficiarão de um generoso regime de incentivos fiscais e que irão florestar de acordo com planos de gestão florestal, onde esse conjunto de espécies têm o seu espaço.

O que deve plantar agora quem perdeu tudo?

Criámos as entidades de gestão florestal e o Estado vai avançar com uma empresa pública. Para que essas entidades geridas profissionalmente possam apresentar a essas pessoas, por exemplo, a hipótese do arrendamento dessa sua pequena parcela, que passa a ter um rendimento anual garantido. Um exemplo: avançámos com o cadastro nos 10 municípios de Pedrógão que foram atingidos pela tragédia. Há 600 mil prédios rústicos nesses 10 municípios. Ora, é impossível executar um plano florestal numa superfície equivalente a um T0. Só é possível de forma agrupada e isso ou se faz por iniciativa dos privados, que formam cooperativas ou empresas, ou por empresas que vão comprar ou arrendar esse património. A empresa pública que o Estado vai criar vai avançar de imediato para tentar demonstrar como é possível.

O que é que já está a ser feito quanto à erosão?

Aprovei em Julho apoios para a estabilização de emergência na ordem dos 50 milhões de euros, que estão em execução nas zonas mais vulneráveis do país.

De onde é que vem o dinheiro para todas estas medidas?

Estamos a executar o programa de desenvolvimento rural (PDR), que tem 4 mil milhões de euros para o período de 2014 a 2020. Temos neste momento 70% do envelope financeiro comprometido. Só nas medidas florestais, que têm no seu conjunto 540 milhões de euros, estão a pagamento 240 milhões.

Mas é possível reprogramar?

Claro que é, dentro da margem que a regulamentação comunitária permite.

Mas os agricultores queixam-se do tempo que demora até saber se os projectos são aprovados.

Quando o Governo tomou posse, o PDR estava em vigor há dois anos e estavam zero projectos contratados. Eu aprovei, entretanto, 15 mil e já temos pagamentos efectuados, neste momento, equivalente a mais de 1300 milhões de euros de investimento.

Há pedidos em atraso desde o mês de Maio deste ano.

Mas havia milhares de projectos candidatos. E essa é outra das questões que eu vou alterar. Até agora, abria-se um concurso nacional para investimento nas explorações agrícolas em que todos os candidatos convergiam, entravam milhares de candidaturas. Uma das coisas que alterei foi abrir concursos sectoriais. Vou também abrir concursos regionais para corrigir outro aspecto: é que havia regiões que estavam hiper beneficiadas em detrimento de outras.

Voltando aos fundos para a reforma da floresta.

Uma parte do dinheiro vem, portanto, do PDR, outra vem do Orçamento do Estado (OE). Por exemplo, as medidas com que estamos agora a acudir aos pequenos agricultores na região dos incêndios vêm todas do OE. Até segunda-feira, o número de candidaturas, de cerca de 15 mil agricultores, correspondia a cerca de 40 milhões de euros.

No dia 15 vai ser anunciado um novo estatuto para a agricultura familiar. O que é que nos pode já adiantar sobre isso?

Normalmente as políticas da União Europeia são mais orientadas para o sector mais competitivo e mais empresarial da agricultura, deixando de lado muitas vezes os pequenos agricultores, que têm um papel muito importante na ocupação do território. Para que eles continuem a existir, há já um conjunto de medidas de apoio como as medidas para as zonas desfavorecidas, as indemnizações compensatórias e algumas medidas agro-ambientais. Mas é preciso ir mais longe. O estatuto que vamos criar é uma carta de direitos, que está a ser trabalhada entre mim e mais oito ministros. Espero ter esse estatuto em discussão pública antes do fim do ano.

Mas o Orçamento do Estado já foi aprovado.


Há muitas medidas e muitos benefícios que não têm uma expressão orçamental imediata, há outros cujos meios já existem e há meios financeiros nos diversos ministérios que podem ser reorientados de outra forma.

Juristas do Porto vão propor no parlamento contraordenação contra desperdício de água


29/11/2017, 10:46
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Um advogado e um jurista do Porto vão entregar no parlamento um conjunto de propostas contra o desperdício de água, tanto no setor da agricultura como também no que diz respeito ao consumo doméstico.


Um advogado e um jurista do Porto vão entregar aos grupos parlamentares, até ao final do ano, um conjunto de propostas contra a seca, uma das quais assenta na criação de uma contraordenação para punir o desperdício de água.

"Se tenho um vizinho que não corta o mato perto de casa eu próprio posso denunciá-lo, ora se tenho um vizinho que não controla a gestão do consumo de água e deixa a mangueira a correr poderei fazer o mesmo", exemplificou esta quarta-feira o advogado Eduardo Castro Marques em declarações à Lusa.

O advogado referiu que esta contraordenação faz sentido e pode e deve ser também aplicada na agricultura onde, entendeu, há muitas vezes determinados desperdícios. "Um agricultor sabe quais são os períodos mais propícios para regar, por isso, não pode ter o pivô central de irrigação ligado, por exemplo, às 15:00 quando sabemos que o horário ideal para regar é durante a noite", salientou.


E questionou: "não será razoável aplicar uma contraordenação a quem mete os pivôs a regar, que gasta litros e litros de água, litros esses que são evaporados e desperdiçados?".

O advogado frisou que as contraordenações têm objetivos de prevenção especial e geral, sendo necessário começar a "educar" as pessoas porque pensam que a água é um recurso ilimitado. Nesse sentido, Eduardo Castro Marques defendeu a promoção de ações e mecanismos de poupança de água junto dos agricultores, assim como a consciencialização das famílias para esta questão.

Ainda no setor da agricultura, o advogado considerou que deverão ser feitos estudos para compreender por metro quadrado qual a necessidade de irrigação do solo para a produção, tabelando-se essas por tipo de solo e de cultura. "Após estabelecidos os limites, deverá haver uma margem de excesso, sendo taxado de forma mais severa o agricultor que ultrapasse essa margem", sublinhou.

Também quanto ao consumo doméstico considerou que deve ser estabelecido um limite ideal de consumo de água `per capita´ e tabelar os preços da água para consumo doméstico de acordo com esse limite.

"Tabelando os níveis de gasto, a partir do momento em que se atinja um certo limite do consumo, seja o seu preço aumentado de acordo com as categorias de consumo que se atingir. Com isto deve-se acautelar os diferentes agregados familiares, sendo a quota ideal multiplicada pelo número total do agregado familiar", vincou.

Eduardo Castro Marques sugeriu ainda a promoção de incentivos fiscais junto das empresas que produzem equipamentos de consumo de água e que apresentem técnicas inovadoras de poupança e a instalação de sistemas de aproveitamento da água da chuva e reutilização das "águas cinzentas".

Além disso, ressalvou, há medidas simbólicas, nomeadamente no setor público, que têm de ser tomadas para incutir uma nova mentalidade. "Não temos água para as culturas e os animais, mas temos fontes nos centros dos municípios a irrigar água", ilustrou.

Na sua opinião, a sociedade tem de inverter o ciclo atual ou os próximos anos vão ser ainda mais difíceis. Este conjunto de propostas, da autoria de Eduardo Castro Marques e do jurista João Monjardino, vai ser entregue aos vários grupos parlamentares.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Gouveia vai ser bombardeada com sementes



29 nov, 2017 - 15:36 • Liliana Carona

A iniciativa de uma organização não-governamental utiliza uma técnica japonesa, conhecida como método Fukuoka, e complementa a plantação de árvores.
Foto: Paulo Cunha/Lusa (arquivo)

A reflorestação da área ardida do concelho de Gouveia, que viu 14 mil hectares serem consumidos pelas chamas, vai começar na próxima terça-feira com recurso a avionetas.
A iniciativa está inserida no projecto "Semear Portugal por Via Aérea", que abrange os concelhos de Mangualde, Gouveia, Oliveira do Hospital, Nelas, Tondela e Seia.

O autarca Luís Tadeu explica a técnica japonesa, conhecida como método Fukuoka: "vai ser efectuada na próxima terça-feira essa primeira sementeira aérea, com leguminosas e gramíneas, com primeira intervenção nas costas mais inclinadas, de forma a evitar derrocadas, e depois mais à frente haverá a acção de reflorestação propriamente dita".

A iniciativa é da organização não-governamental para o desenvolvimento Take C'Air Crew Volunteers, que foi fundada em 2010 por tripulantes de companhias aéreas.

A ideia é aplaudida pelo autarca de Gouveia. "Esta iniciativa surge em boa hora e abrange vários municípios, as autarquias vão suportar alguns encargos, mas nada muito elevado, porque há empresas privadas que vão oferecer sementes e é o próprio ICNF que vai fazer a monitorização do projeto, sendo que, aqui no nosso concelho, para já, serão intervencionados 16 hectares", concluiu.

Noutra acção paralela de reflorestação, o município de Gouveia vai também começar a plantar esta quinta-feira 1.500 árvores, que foram doadas, por uma cooperativa de agricultores da zona de Midões.

O projecto "Semear Portugal por Via Área" conta com a participação do movimento cívico "Replantar Portugal" e com a parceria de duas outras entidades: a organização não-governamental de conservação da natureza Quercus e a empresa de serviços aéreos Avitrata - que para os voos disponibiliza um Dromader M-18 B que poderá transportar 1.500 quilos de sementes por carga e sobrevoar os solos até sete metros dos obstáculos.