quarta-feira, 29 de maio de 2013

Tão longe e tão perto *

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Carlos Neves

Se é certo que a época de sementeiras continua a ser um tempo de
trabalho intenso, houve uma evolução brutal (Gaspar diria colossal)
desde os arados puxados por vacas há 60 anos passando pelos pequenos
tractores de há 30 anos até chegar aos modelos com tracção, ar
condicionado ou caixa automática que podemos usar hoje. E a diferença
entre a silagem de erva com automotriz ou rolos plastificados e os
milhares de fardos de feno que carregávamos à mão? E ainda se lembram
de quando não se deixava caminhos para a máquina de rega e mudávamos
os canos e aspersores no meio do milho? E depois era preciso um rancho
de gente para "abrir caminhos" e meter milho à posta. E quando o milho
estava molhado ou tinha caído por causa do vento? E passava-se um mês
a ensilar e a espalhar a silagem à mão no silo. E depois das silagens
e vindimas ainda havia esfolhadas também manuais…

A evolução tecnológica da nossa agricultura foi enorme e deixa pasmado
qualquer visitante que venha da "cidade" com a ideia da agricultura
primitiva do carro de bois e descubra os novos tractores, unifeeds ou
sistemas de ordenha robotizada. Na cidade também passou a haver
telemóveis, computadores ou micro-ondas, mas creio que, em proporção,
a evolução tecnológica da agricultura foi superior à da sociedade
envolvente, porque se partiu muito atrás. Conseguimos assim fazer mais
e melhor com menos esforço físico e compensar (por vezes) com esse
aumento de produção a perda de rendimento por unidade produzida.

Chegámos aqui a um primeiro paradoxo: O rendimento dos agricultores
tem evoluído no sentido inverso da tecnologia agrícola. Temos hoje
melhores tractores, produzimos melhor milho e melhor leite mas
recebemos menos por esse leite e pagámos mais pelo gasóleo, adubos,
rações e outros factores de produção.

Porque evoluímos tanto na tecnologia e tão pouco no rendimento? Talvez
porque seja mais fácil ir ao Stand comprar um tractor do que investir
na nossa capacidade pessoal de gestão, comunicação e participação
associativa. Talvez porque investimos imenso (e com apoios) na
tecnologia de produção e muito pouco na valorização do produto.
Entregámos esse assunto aos dirigentes das cooperativas e
administradores de indústrias, alguns pagos a peso de ouro mas sem que
o produtor veja o resultado desse "investimento". Investimos pouco ou
quase nada na formação de dirigentes associativos e cooperativos.
Todos os anos, por imposição legal, uma parte dos lucros das
cooperativas é destinada à "reserva para formação cooperativa". Que
cursos se organizaram? Quem participou neles? A valorização dos nossos
produtos e a economia nos factores de produção dependem do bom
funcionamento das nossas organizações agrícolas e esse bom
funcionamento depende dos dirigentes e demais associados, que também
devem investir algum tempo para acompanhar o funcionamento das
organizações que lhes pertencem, procurarem formação e, dentro do
possível, disponibilizarem-se a participar na gestão e tomada de
decisão nas suas/nossas organizações agrícolas. Evoluímos imenso na
tecnologia de produção. Temos de fazer o mesmo na gestão pessoal e das
nossas organizações.

Carlos Neves

(*) Artigo publicado no jornal "Terras do Ave" em 23-5-2013

http://www.agroportal.pt/a/2013/cneves3.htm

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