quarta-feira, 3 de julho de 2013

A tortura dos números

OPINIÃO



ANTÓNIO REIS PEREIRA

29/06/2013 - 19:03

A agricultura portuguesa percorreu um caminho significativo até aqui
mas temos de ser mais ambiciosos.


Temo-nos tornado nos últimos anos numa espécie de Guantánamo das
Estatísticas, levando ao exagero aquela velha imagem de que os
números, devidamente torturados, dizem o que quisermos que eles digam.

De facto, pegando num assunto por um lado ou por outro é raro não
termos nada de positivo a retirar, se assim for conveniente, ou então
a criticar, se esse for o objectivo que quem analisa. E já se sabe,
uma meia verdade bem suportada estatisticamente passa a verdade
incontestável, muito difícil de rebater, sempre assim foi, sempre
assim será.

Vejam-se as PPP, de acordo com o antigo PM ou foram herdadas ou foram
responsabilidade do actual governo, opinião diametralmente oposta dos
governantes presentes, que esgrimem no sentido inverso. E tudo isto
com suporte estatístico irrebatível por detrás, como não podia deixar
de ser.

Ora um sector em que se tem ultimamente verificado um desfilar de
opiniões dissonantes é a Agricultura. O actual PR orgulha-se do
trabalho que fez entre 86 e 94? Pois Miguel Sousa Tavares, secundado
por Daniel Oliveira e muitos outros, acha exactamente o contrário e
culpa-o pelo estado actual da Agricultura, que considera desastroso,
muito diferente da opinião que a actual Ministra tem, que vê
naturalmente muitas virtualidades no estado presente da Agricultura
portuguesa.

E onde ficamos, quem tem razão? Estamos bem ou estamos mal? Depende
naturalmente do que quisermos analisar, e com que intenções o fazemos,
pois há espaço para tudo. É preciso ver de onde partimos (o que
produzíamos em 1986), a evolução da produtividade (do trabalho e da
terra), a taxa de cobertura das importações pelas exportações, o que
produzimos agora, o benchmark com os outros países.

Pois bem, se quisermos fazer uma análise temporal, entre 1986 e 2010,
vemos que passámos de uma produção de 4,5 mil milhões de euros para
7.9 mil milhões de euros, conseguindo-se tal aumento com menos de
metade das pessoas a trabalhar na Agricultura (800.000 em 1986 para
390.000 em 2010), portanto mais do que duplicando a produtividade do
trabalho, incremento que permitiu a manutenção do grau de
auto-suficiência apesar do aumento de mais de 50% no consumo de
produtos do sector (tudo dados Pordata). Isto é irrefutável.

De facto, fruto de opções de cultivo discutíveis ao longo do século
XX, os terrenos explorados eram muito mais (menos 500.000 hectares
entre 1986 e 2010), produzia-se até onde não valia a pena produzir,
estando o país muito distante do óptimo económico, situação que aliada
a uma evolução tecnológica (mecanização, genética vegetal e animal,
regadio) sem paralelo se traduziu num incremento impar na produção
agrícola do país.

Mas também é óbvio que a melhoria poderia ter sido melhor, pois
partimos de uma base baixa (é bom relembrar o que era Portugal em
1986), e devemos também olhar para o que se passa nos outros países
europeus, nomeadamente os nossos vizinhos, onde regra geral os
indicadores são melhores do que em Portugal. Veja-se, por exemplo, a
produtividade do trabalho portuguesa, que é 33% da espanhola, 19,6% da
francesa, 18,7% da inglesa, 24,6% da italiana e somente 10,9% da
holandesa (dados Eurostat, 2010), apenas para citar alguns exemplos.

E onde ficamos, estamos bem ou estamos mal? A verdade é que já
percorremos um caminho significativo, e sem esse caminho ser
percorrido nunca descolaríamos do estado de Agricultura incipiente que
marcava o nosso panorama até há pouco tempo, mas um outro caminho bem
maior está por percorrer, ou seja, olhando para o que os nossos
congéneres europeus fazem é óbvio que temos de ser bem mais
ambiciosos, temos de crescer (objectivo) a dois dígitos, temos de
cultivar todos os terrenos produtivos, temos de trazer mais
investimentos nacionais e estrangeiros para a produção agrícola em
Portugal, temos de explorar as nossas vantagens comparativas, temos
condições para tal, temos como nação de pôr mãos à obra.

As estatísticas são óptimas para quem gosta de opinar sobre tudo,
dissertando sobre todas as temáticas como se de especialistas se
tratassem, sendo os números a prova provada da razão que às vezes lhes
falta. Não é raro vermos pessoas a opinarem num dia sobre assuntos
desportivos, noutro sobre política, no dia seguinte sobre Caça e Pesca
e a seguir sobre Macroeconomia e Astrofísica, naturalmente esquecendo
detalhes e passando muitas vezes ao lado da verdadeira razão de ser
dos temas, pois no final todos temos somente 24 horas por dia, e
ninguém consegue assimilar tudo.

É sempre bom relembrar que Estatística não é Matemática, que a
interpretação dos números é subjectiva e deve ser séria, caso
contrário muito facilmente se cai no logro da manipulação, que a uns
beneficia e a outros prejudica, como na imagem dos dois amigos que
comem dois pães, dando-se o infeliz acaso de um comer sozinho os dois
pães, tendo o outro estatisticamente comido em média um pão, embora na
prática esteja à míngua.

Eng. Agrónomo e Gestor de Empresas

http://www.publico.pt/economia/noticia/a-tortura-dos-numeros-1598754

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