segunda-feira, 30 de julho de 2012

Monchique nove anos depois do inferno

29 de Julho, 2012por Sónia Balasteiro

Depois dos incêndios de 2003, ainda se fazem contas às perdas com
cortiça, madeira e agricultura. Todos temem que as chamas voltem, mas
a floresta continua por limpar.
Para a floresta, foi fácil começar de novo. Já para as pessoas que
dela vivem, a recuperação está a ser lenta e dolorosa. É assim, hoje
em dia, a vida na Serra de Monchique, no Algarve, nove anos depois de
aqui se assistir a um dos mais violentos incêndios do país.
Este ano, as chamas voltaram a assustar a população algarvia, desta
vez em Tavira e São Brás de Alportel, e também a ilha da Madeira,
especialmente nas zonas rurais. Em todos os locais por onde o fogo
passou, foram consumidos milhares de hectares de floresta, e
destruídas habitações e outros bens materiais (ver texto ao lado).
Serão agora precisos anos para que Natureza e populações recuperem.



No caso de Monchique, quase uma década depois, já há eucaliptos e
pinheiros jovens, os medronheiros voltaram a produzir fruto e os
sobreiros estão agora prontos para dar nova cortiça.

Mais complicada tem sido a vida da população. Ainda este ano, os
proprietários foram obrigado a recordar e a sentir no bolso o efeito
dos fogos de 2003 e 2004.

«Acabámos de tirar a cortiça. Está toda queimada. Não vale nada»,
conta Aníbal Baptista, de 66 anos, explicando que, uma vez que a
cortiça é retirada em intervalos mínimos de nove anos, perdeu duas
oportunidades: em 2003, e agora, uma vez que ainda vinha queimada.
«Naquela altura, arderam 400 arrobas de cortiça», lamenta.

Nos seus 30 mil sobreiros, perdeu à volta de 60 mil euros, estima o
produtor, enquanto a sua mulher, Rosa, aponta desconsolada para as
placas de cortiça na enorme propriedade que herdaram da família dela e
que passa em três localidades da serra – Barranco da Torre, Covão e
Sernade. E os prejuízos não acabaram: «Agora tivemos de pagar aos
homens para limpar o sobreiral e ficarem com a cortiça. Este ano, já
gastámos quatro mil euros». Se não houver mais nenhum incêndio, verão
o retorno do investimento dentro de nove anos. «Todas as nossas
poupanças estão aqui», diz Aníbal.

Difícil tem sido também nos últimos anos a vida do casal Romualdo, de
67, e Maria Celina Catarino, de 66, que habitam em Casais, a primeira
povoação a ser atingida pelas chamas de 2003.

«Depois do fogo abandonámos o eucaliptal. Fiquei traumatizada e nunca
mais lá consegui ir», confessa Maria Celina, enquanto Romualdo,
revoltado, recorda: «Perdemos tudo. De uma assentada, arderam sete
hectares de eucaliptal. Conseguíamos tirar 20 mil euros por ano».

Agora, vivem das reformas e do que lhes dá a pequena horta que
plantaram perto de casa. Enquanto conversa no pátio da sua pequena
vivenda, no número 8 da rua principal, Maria Celina não esconde o seu
maior receio, ficar sem casa: «Naquela altura, as labaredas andaram
mesmo aqui por cima. E nem quero pensar no que será se houver um novo
incêndio», diz, recordando o que se passou. «Foi um inferno».

Aliás, o pânico de voltar a viver dias como aqueles é um dos
sentimentos que tem gerado algumas zangas entre os proprietários da
Serra de Monchique. Tudo porque uns limpam o mato e outros não. «Isto
é um barril de pólvora», desabafa Romualdo Catarino, que gastou 50
euros a limpar o terreno de vizinho da frente. «E ele ainda ficou
zangado», conta, enquanto aponta para as ervas altas que crescem
descontroladas.

Mas a sogra de Romualdo, Maria Lucinda, de 84 anos, tem a explicação
na ponta da língua: «As pessoas não têm dinheiro para comer, quanto
mais para limpar o mato». Ao seu lado, outros habitantes vão dando
sinal de concordarem. «Com 310 euros mensais de reforma, como é que
posso pagar a alguém para tratar das coisas?», diz um dos idosos.

Uma situação que, avisam outros moradores, está a colocar em perigo a
vida de todos. «Isto é uma fogueira à espera de ser ateada», diz José
Maria, proprietário de 70 anos, que depois do incêndio e de ter
perdido o eucaliptal deixou de investir. Entretanto, casou com Dorila
Duarte, de 68 , que também perdeu quase tudo no fogo: os 20 porcos e
dez ovelhas morreram nos incêndios e ficou sem um hectare de
eucaliptal. Hoje, habitam na localidade de Casais e, apesar de
doentes, vivem felizes, da reforma.

'Só os ricos é que receberam'

Eram cerca das 11h da manhã de 5 de Agosto 2003 quando as chamas
atingiram a Serra de Monchique. Foram dez dias de inferno, recorda
António Santos, o então presidente da junta de freguesia de uma das
freguesias mais atingidas, Marmelete. «Tivemos de realojar pessoas na
escola, onde podíamos. Foi horrível: colmeias perdidas, explorações,
sistemas de rega. Os prejuízos foram incalculáveis», lembra.

Várias casas ficaram reduzidas a cinzas e 40 mil hectares de floresta
foram consumidos pelo fogo (78 % do total do concelho de Monchique). O
pior, diz ainda António Santos, é que «havia apoios da Europa a que as
pessoas se podiam candidatar, mas poucos perceberam como fazer para os
receber». «As indemnizações pelos prejuízos ficaram para os ricos.
Quem não sabia falar e preencher os formulários, não recebeu nada»,
acusa Maria, uma idosa de Casais.

E a maioria ficou sem nada. «As pessoas viviam do que dava a cortiça,
da madeira de eucalipto e de pinho. Os incêndios acabaram com tudo»,
nota José Paulo Nunes, da Associação de Produtores Florestais local,
que diz existirem poucas excepções. Uma delas é a propriedade da
Lameira, da família Melo.

Por ser uma das poucas da zona com capacidade para investir na
reflorestação e limpeza do mato, teve outras oportunidades:
«Concorremos a fundos comunitários com um projecto de 156 mil euros
para tirar os sobreiros queimados e reflorestar», conta José Paulo
Nunes, que acumula aquele cargo na associação com a administração
desta propriedade, Mesmo assim, estima: «só vamos recuperar as três
mil arrobas de cortiça que perdemos nos incêndios em 2016».

Mas os 'meninos dos olhos' do produtor de 54 anos são os medronheiros,
que ocupam 66 hectares da propriedade. Aliás, segundo António Santos,
muitos dos proprietários começaram a «investir em produção de
aguardente de medronho», por serem arbustos silvestres que levam menos
tempo a crescer.

Para este verão, a câmara, o Exército e a Protecção Civil reforçaram a
vigilância na serra. Mas há sítios onde os bombeiros não conseguem
chegar. A mata é densa, entre encostas de acessos difíceis. Olhando da
estrada, o fogo nem parece ter passado ali, tal a pujança da
vegetação. Mas ainda se avistam sobreiros queimados. A lembrar que
tudo pode «voltar a arder como um fósforo».

sonia.balasteiro@sol.pt

http://sol.sapo.pt/inicio/Sociedade/Interior.aspx?content_id=55560

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